Peças com fundo biográfico não faltam ao panorama teatral carioca e brasileiro. Aliás, a exploração dramática de trajetórias de vidas reais é uma tendência mundialmente avassaladora. Muitas dessas criações pecam pelo didatismo, pelo esquematismo ou pela idolatria. A peça Alair“, que evoca aspectos da vida, da obra e do pensamento do fotógrafo Alair Gomes, conseguiu escapar de todas essas armadilhas. Resultado: uma espetáculo agradável, inteligente e cativante. Uma escolha acertada de Edwin Luisi para marcar seus 45 anos de carreira.

Com apenas um mês de curta temporada, a peça se despede neste final de semana do Teatro Laura Alvim com casa lotada – um fenômeno! – e, diante disso, o ator bateu aquele papo com ÁS sobre as difíceis condições para se por de pé o teatro no Brasil das trapalhadas políticas, traçou  um paralelo entre o corpo masculino de hoje e o da época em que Alair fotografava os rapazes à la vonté nas praias Zona Sul e ainda aproveitou para alfinetar o atual prefeito Marcelo Crivella, que anda surpreendendo os cariocas tanto pela sua agenda nada laica quanto pela sua sentida ausência, pela população, do comando da cidade. Confira.

Edwin Luisi dá corpo e voz ao fotógrafo, filósofo, professor e crítico de arte carioca Alair Gomes (1921-1992) na peça “Alair” com texto de Gustavo Pinheiro a partir dos diários do próprio Alair e direção de Cesar Augusto. Celebrado por suas fotos homoeróticas, Alair Gomes tem lugar reservado na arte brasileira e mundial não só por ter renovado a linguagem fotográfica como também pelos seus estudos críticos (Foto: Divulgação)

“Alair”: último final de semana para conferir a peça que procura desnudar a persaonalidade do fotógrafo que inaugurou o homoerotismo fotográfico no Rio e que comemora os 45 anos de carreira de Edwin Luisi, que interpreta o papel título (Foto: Divulgação)

ÁS: Edwin Luisi, 45 anos de teatro. Qual foi o melhor momento dessa trajetória?

Edwin Luisi (EL): É difícil nomear um “melhor momento”. Prefiro pensar em vários bons momentos. Mas se eu tivesse que apontar só um, seria aquele em que decidi me tornar ator, uma profissão marginal na época, frustrando as expectativas da minha família que me via como um futuro médico. Fui fazer teatro com a cara e a coragem, mas com medo de que não conseguisse me sustentar. Mas deu tudo certo. Tive a sorte de receber bons papeis e ser premiado desde o início da carreira. Não tive grandes percalços. Como não sou saudosista, acho que agora também vivo um bom momento, atuando numa peça que julgo importante por contar a história de um artista ainda pouco conhecido no Brasil, mas reverenciado mundo afora. E só a oportunidade de dar voz a Alair Gomes e de fazer com que mais pessoas o conheçam já é um bom momento.

Edwin Luisi contracena com os atores André Rosa e Raphael Sander que representam os dois tipos principais de homens que ocuparam a vida de Alair: o modelo e o amante que na peça despertam no artista um turbilhão de lembranças e divagações (Foto: Divulgação)

ÁS: E o pior momento?

EL: Não consigo ver um “pior momento”, mas o fantasma do desemprego pode nos assombrar e se transformar no que de pior pode acontecer a um ator. Já passei por isso, mas por poucos meses, felizmente. Outra coisa que nos aterroriza é a possibilidade de perder a memória e não conseguir decorar mais nada. [Risos] Na televisão já passei por algumas dificuldades, como ser dispensado abruptamente de uma novela e ter toda a sua vida desestruturada na medida em você já tinha se organizado para permanecer nela por vários meses. Mas pior mesmo acho que seria perder um amigo com quem você trabalha numa peça, ou ver o teatro em que você atua pegar fogo como foi o caso do Clara Nunes [localizado no Shopping da Gávea. zona sul do Rio e que sofreu um incêndio no último 6 de junho].

A montagem de “Alair” dribla engenhosamente a austeridade dos recursos de produção através de um texto enxuto que viaja pela vida do fotógrafo nas décadas de 1950/80/90, de uma direção ágil e de uma interpretação carismática de Edwin Luisi (Foto: Divulgação)

ÀS: E aqueles acidentes que acontecem durante uma encenação e que fazem parte do anedotário de todo ator?

EL: Sim, passei por muitos momentos desses. Mas já reparei que falar disso não tem tanta graça ou nunca traduz o desespero real que você sente no palco ao ver um colega escorregar e cair em cena, por exemplo. Esses episódios fazem parte do nosso ofício.

Nesta temporada, Edwin Luisi também comemora 45 anos de uma carreira que já lhe proporcionou 25 premiações no teatro entre as quais três prêmios Shell de Melhor Ator e alguns tantos APCA, APTR, Molière e Governador de Estado (Foto: Divulgação)

ÀS: E a crise pela qual passa o teatro brasileiro e carioca?

EL: Com o país todo mergulhado numa profunda crise moral, ética e econômica, é claro que o teatro não poderia ficar imune a esse quadro. À cultura sempre foi destinada a menor verba em qualquer orçamento público, imagine agora com o Brasil desmantelado e o Rio esfacelado. Nosso empresariado não cultiva a tradição de apoiar as artes como o americano. Quando o fazem é apenas para se beneficiar de contrapartidas fiscais e, mesmo assim, depois de um esforço infernal nosso de convencimento. Viajar com um espetáculo hoje é impossível devido à crise das companhias aéreas. Acho que o fazer teatro no Brasil precisa se reinventar. Se no Brasil e no Rio vemos teatros fechando, também vemos movimentos fortes de resistência a isso tudo. O teatro não vai morrer, mas vai ter que se reformular. Sempre ouvi esses decretos de falecimento ao longo da minha carreira e o teatro sempre se reergueu. Nessas horas me lembro de uma frase que o Plínio Marcos soltou em plena ditadura militar em meio a toda aquela repressão: “O teatro não morre porque não tem onde cair morto”. [Risos]

Embora reconhecido internacionalmente através de mostras na França, Canadá e Estados Unidos – onde suas fotos integram o acervo do MoMA, em Nova York -, Alair Gomes é ainda pouco conhecido no Brasil. A peça “Alair” fica em cartaz até domingo (02/07), no Teatro Laura Alvim, na mesma Ipanema onde ele morou e captava suas imagens (Foto: Reprodução)

ÀS: Por que a temporada de “Alair” é tão curta embora o Teatro Laura Alvim esteja sempre cheio?

EL: Por que é uma produção inteiramente bancada pelo autor da peça, Gustavo Pinheiro. E veja a perversidade que se sofre em fazer teatro no Brasil: se você põe o seu próprio dinheiro num empreendimento é automaticamente obrigado por lei a oferecer meia-entrada. Ou seja, uma iniciativa cultural privada é punida e impedida de cobrar o preço que seria justo. Como pode? Hoje, como a grande maioria do público que vai ao teatro paga meia, essa obrigatoriedade faz com que o preço da inteira suba um pouco. Isso afastou aqueles que pagam a inteira. Mas nossas despesas são como as de todo mundo. Não temos “meias-contas” a pagar e a nossa bilheteria vive de meias-entradas. Assim, sempre teremos prejuízo. O dinheiro de que o Gustavo dispunha era para manter a peça em cartaz por um mês. Nossa lista de despesas é enorme. Além da crise econômica, o teatro ainda luta contra a violência urbana que afasta as pessoas da rua e contra o entretenimento barato oferecido pelo celular ou pelos filmes que você pode ver confortavelmente em casa comendo pipoca. Hoje, quem vai ao teatro são apenas aquelas pessoas que amam verdadeiramente a cultura.

O acervo de 150.000 negativos e 15.000 ampliações de Alair Gomes depositado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro dá a dimensão da sua obra abruptamente interrompida em 1992. A morte de Alair foi trágica: encontrado estrangulado no seu apartamento, as suspeitas de assassinato recaíram sobre um segurança de uma loja de discos que posava para o fotógrafo, mas as circunstâncias reais em que o crime ocorreu continuam obscuras (Foto: Enciclopédia Itaú Cultural)

ÀS: Percebe-se como a produção de “Alair” é austera e econômica. Mesmo assim a peça cativa e agrada em cheio. Qual é o segredo desse resultado?

EL: Creio que seja o envolvimento total de bons profissionais que já sabiam que não ganhariam dinheiro num projeto apaixonante e de resistência. Nossa produção é tão econômica que não temos nem camareira. Essa função é exercida pelo próprio autor e produtor da peça. Veja a que ponto chegamos! A peça anterior em que eu atuava, “Cinco homens e um segredo”, também não tinha camareira. Estamos eliminando vários postos de trabalho. Além disso, em “Alair” aconteceu aquela alquimia maravilhosa, aquela mágica teatral que só uma boa história contada por gente competente produz. Mas quem tem que nos elogiar é o público.

ÀS: Você acha que a obra de Alair Gomes pode ser classificada exclusivamente como homoerótica?

EL: “Alair” passa-se no Rio de Janeiro, mas poderia ser encenada em qualquer outro lugar e ser entendida. Narra uma vida e uma história universais. Embora Alair fosse assumidamente homossexual, sua obra transcende essa condição. E também não queríamos produzir um espetáculo para guetos. A peça começa com a seguinte fala do Alair: “Minha obra é a mais homossexual possível porque só compreendendo a minha própria sensibilidade erótica eu poderia entender o que de fato dela pertence a Eros. Mas ela não é feita apenas para homossexuais. Assim como estes desfrutaram durante séculos de obras criadas sob o ponto de vista heterossexual, acredito que os heterossexuais poderão se interessar por obras abertamente homossexuais como a minha”.

Dolce far niente que provoca arrepio: na praia ou da janela do seu apartamento em Ipanema, Alair Gomes se especializou em fotografar os rapazes cariocas tanto em atividade quanto em repouso nas areias escaldantes da orla que vai de Copacabana ao Leblon, Seu trabalho se tornou um valioso registro do comportamento praiano masculino entre as décadas de 1970 e 1990, e até hoje é influência para o estabelecimento de um Rio LGBT que transborda em sensualidade (Foto: Reprodução)

ÀS: Você acha que Alair Gomes se interessaria em fotografar o corpo masculino exibido na praia de Ipanema de hoje e tão diferente daquele de 50 anos atrás?

EL: Acho que o corpo feminino mudou muito mais do que o masculino. Aquele corpo retratado no “David” de Michelangelo, em plena Renascença, você encontra hoje nas praias cariocas. Durante a minha juventude, houve, sim, uma mudança. Nessa época o padrão era ser muito magro, esguio e longilíneo, como Caetano Veloso ou Fernando Gabeira. Mas hoje os corpos masculinos estão muito mais próximos da chamada “perfeição” que vigorava na Antiguidade greco-romana ou na Renascença do que nos anos 1970, por exemplo. Já o padrão do corpo da mulher mudou completamente. O corpo “violão” das vedetes ou das misses que paravam o Brasil e o mundo deu lugar ao busto grande, ao quadril estreito e às coxas musculosas.

Alair tinha dúvidas sobre a autonomia artística da fotografia face a outras artes como a pintura e a escultura. Suas célebres montagens sequenciais foram uma tentativa de buscar um formato expressivo único da fotografia que não fosse nem pintura nem cinema (Foto: Enciclopédia Itaú Cultural)

ÀS: Mas voltando ao Alair…

EL: Acho que a legislação que hoje preserva a imagem das pessoas impediria o Alair de sair por aí fotografando como um voyeur. Mas caso aparecesse outro Alair Gomes nos dias atuais, ele também produziria fotos lindas, até porque o narcisismo dos rapazes de hoje é muito mais desinibido e exacerbado.

Pelo menos 10 fotografias de Alair Gomes podem ser apreciadas na exposição “Yes! Nós temos biquíni”, com curadoria de Lilian Pacce, que fica em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até 10 de julho (Foto: Flávio Di Cola)

ÀS: E a caretice reinante ao lado do politicamente correto não tem inibido as posturas mais libertárias?

EL: Vejo a história dos costumes sempre repetindo um movimento pendular: perde-se liberdade de um lado, ganha-se de outro e assim vamos nos transformando e acumulando conquistas.

ÀS: Mesmo tendo Marcelo Crivella como prefeito de uma metrópole como o Rio de Janeiro que ostenta, ou ostentava, o título de gay friendly?

EL: Crivella é prefeito do Rio? Não estava sabendo… [Gargalhadas]

ÀS: Você anda afastado das novelas da telinha. Perdeu o gosto pela televisão?

EL: Não, foi a televisão que perdeu o gosto por mim [Risos]. Brincadeiras à parte, eu adoro fazer televisão, mas nesta altura da carreira fica complicado percorrer os labirintos das emissoras procurando esse tipo de trabalho. A minha vida é o teatro.

Serviço:

Alair

Teatro Laura Alvim, Av. Vieira Souto, 176, Ipanema, Rio de Janeiro.

Até este domingo, 2 de julho.

Sessões: sábado, às 21h e domingo, às 20h.

Vendas online: www.ingressorapido.com.br

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