Num Teatro Laura Alvim lotado e tinindo de novo, Elisa Lucinda estreou na noite desta segunda-feira (21/11) A Paixão Segundo Adélia Prado“, monólogo dirigido por Geovana Pires, a qual adaptou os textos da escritora mineira para o teatro ao lado da atriz, cantora, jornalista e poetisa. Obviamente, Elisa faz a festa. Como se não bastasse seu domínio do palco, ela carrega em cena aquele contraste barroco único dos poemas de Adélia, que sabe como ninguém migrar da extrema religiosidade cristã ao cotidiano trivial do dia a dia e, sobretudo, à desvelada sensualidade.

Elisa Lucinda e o músico André Ramos em "A paixão segundo Adélia Prado" (Foto: Andrea Rocha)

Elisa Lucinda e o músico André Ramos em “A paixão segundo Adélia Prado” (Foto: Andrea Rocha / Divulgação)

Elisa consegue penetrar na persona da escritora que, ainda desconhecida do grande público nos anos 1970 conquistou gente graúda como Carlos Drummond de Andrade e Affonso Romano de Santanna. Por tabelinha, a encenação estabelece forte conexão com a plateia, sobretudo quando embarca na dicotomia da “elevação espiritual-desejo carnal”, transpondo a barreira da quarta parede com um misto de humor e ternura. E dissecando os lampejos de safadeza que certamente existem dentro dos seres humanos, mesmo os mais devotos.

É nesse percurso que a atriz deita e rola: o de quem precisa conciliar os desígnios do espírito com as paixões da carne – essência da alma barroca inserida numa obra que bebe desta, mas é ao mesmo tempo tão diferente já que a proposta de Adélia de assumir esses contrastes e dar vazão à sexualidade do divino diverge da característica mais visceral do Barroco: elevar a mente em detrimento do corpo, herança que deve ser impregnante na Divinópolis natal de Adélia Prado.

Elisa Lucinda

Adélia Prado em cena: cantora, atriz e poetisa Elisa Lucinda leva ao teatro a obra de mineira numa encenação quase litúrgica. Em colorido roxo papal, figurino de Madu Penido se encarrega de reforçar esse efeito (Foto: Roberto Filho / Brazil News / Divulgação)

Ciente disso, Elisa faz o diabo no palco e ao mesmo tempo ascende às alturas como uma santa virgem pecadora que acabou de pensar numa libidinagem, tirando proveito do timing de uma hora e vinte de duração como convém a um bom espetáculo dessa densidade.

Hábil, ela mistura a prosa mineira do cafezinho, broa de milho e pão de queijo aos lampejos daquela volúpia que a gente sabe que existe em toda vovó, mas finge não acreditar. E, ao fazer isso, transpassa os cânions do superego, revelando o quanto é bela essa fusão de sentimentos que vão do sacro ao profano dentro de um único ser, independente da idade. Sem dúvida, um dos aspectos mais bonitos da obra de Adélia.

Cabe ao músico multi-instrumentista André Ramos a função de personificar Deus e diabo na terra do sol de Adélia, com recursos circenses como cabeça de chifre, asas de anjo e perna de pau. Sua boa presença cênica sublinha a atuação segura de Elisa e completa, junto com o cenário, o imaginário da poesia de Adélia Prado que vai se desvelando aos poucos através de mosaicos, panos e véus.

Elisa Lucinda

Ao lado de Elisa Lucinda, o multi-instrumentista André Ramos é boa surpresa em “A Paixão Segundo Adélia Prado”. Ele joga nas onze: toca flauta transversa, saxofone, percussão, órgão, interpreta e ainda se equilibra na perna de pau! (Foto: Roberto Filho / Brazil News / Divulgação)

A cenografia de Bia Junqueira e a ótima luz de Djalma Amaral merecem menção, enquanto os figurinos de Madu Penido se encarregam de colaborar com a mitologia barroca.

Em tempo: belezura ver o Teatro Laura Alvim novinho em folha, após a reforma de um ano. Quando o Centro de Cultura Laura Alvim reabriu ao público durante a Olimpíada do Rio sob a chancela da Casa Omega, em agosto, foi possível saborear a bela repaginação do lugar, mas o teatro permanecia fechado. Agora, dá para perceber o menu completo. Passados os jogos e a presença da relojoaria suíça,  ficou o legado. E as abóbadas do pátio, agora pintadas com cores fortes e grafismos, estão mesmo um charme!

Veja abaixo quem passou para conferir a peça na estreia e celebrar o talento de Elisa Lucinda (Fotos: Roberto Filho / Brazil News)  

Serviço:

“A Paixão Segundo Adélia Prado”

Teatro Laura Alvim  (190 lugares)

Av. Vieira Souto, nº 176, Ipanema, Rio de Janeiro

Informações: (21) 2332-2015

Dias e horários: Quinta, sexta e sábado – 21h / Domingo – 20h

Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

Vendas: www.ingressorapido.com.br

Classificação etária: 12 anos

Duração: 1h20m

Temporada: de 17/11/16 a 12/02/2017

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