Time is money. Numa virada de milênio na qual o bem mais valioso pode ser a forma como se dispõe do tempo, seus significados tanto visíveis quanto ocultos podem servir de bala na agulha para a indústria cinematográfica faturar com quase duas horinhas gastas pelo público nas salas de exibição. Continuação do sucesso de 2010, Alice através do espelho” (Alice in Wonderland: Through the Looking Glass, Walt Disney Pictures, 2016) estreia neste feriadão nos cinemas revelando, entre vários acertos e alguns tropeços, o quanto a Disney anda aprendendo a lição de fazer conto de fadas live action.

Assista abaixo ao trailer original (Divulgação):


O resultado é delirante e a evolução desse gênero é notável, com os produtores mostrando o quanto sucessos de bilheteria turbinados por imagens arrebatadoras, mas com erros crassos de concepção, como Malévola” (Maleficent, de Robert Stromberg, 2014), podem se verter em savoir faire tanto quanto as boas realizações encabeçadas pelo estonteante Cinderela” (Cinderella, de Kenneth Branagh, 2015).

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“Alice através do espelho”: sequência de “Alice no País das Maravilhas” procura equilibrar história bem contada com exuberância visual (Foto: Divulgação)

Desde quando começou a se aventurar nesse filão, no final da década passada, o estúdio cujo nome significa fantasia juvenil tem caminhado aos trancos e barrancos nesse rentável segmento, tentando estabelecer fórmulas a partir da eloquência visual, mas tateando na busca de uma narrativa adequada. Quando Alice no País da Maravilhas (Alice in Wonderland, de Tim Burton, 2010) foi lançado, a aposta maior foi apresentar em carne e osso personagens que faziam parte do imaginário de gerações através do desenho, promovendo o encantamento pela hiperrealidade e estabelecendo um novo patamar de espetáculo cinematográfico, calçado na expertise de um diretor tarimbado (Tim Burton) e um elenco com nomes de peso encarnando ou emprestando vozes a criaturas forjadas em CGI, como acontece nos desenhos animados desde “Aladin” (Aladdin, de Ron Clements e John Musker, 1993). Diante de todo esse aparato, a narrativa ficou em segundo plano.

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“Alice através do espelho”: depois das “boas vindas” aos personagens, preocupação em caprichar na trama seis anos depois do lançamento do longa-metragem original (Foto: Divulgação)

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Antes de atravessar o espelho, Alice (Mia Wasikowslka) encara seu próprio reflexo: uma protagonista adulta, determinada e conhecedora de si é o caminho usado pela roteirista Linda Woolverton para marcar a evolução do personagem criado por Lewis Carroll nessa continuação passada três anos após o filme original (Foto: Divulgação)

Em “Alice através do espelho”, a Disney faz seu mea culpa resgatando a trama em uma adaptação livre do livro de Lewis Carroll e arrematando o aparato estético num roteiro bem acabado com tintas psicanalíticas. A direção é de James Bobin, mas dizer que Tim Burton se contentou com a função de produtor é mentira, porque o dedo dele está por toda parte, como um Selznick do novo milênio.

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Em “Alice através do espelho”, Tim Burton passa o bastão da direção para James Bobin, mas o apuro do diretor original se faz sentido do primeiro ao último frame (Foto: Divulgação)

Agora, o público já conhece as versões ao vivo dos personagens e há espaço para desenvolver o enredo de forma satisfatória, caprichando na história. E, entre divertidas revelações da infância dos personagens – nada melhor que a rixa entre as rainhas Branca e Vermelha ter começado numa pueril incriminação por migalhas de tortinha no quarto,  típico caso de bobagem familiar que neuroticamente assume proporções gigantescas –, a presença do vilão Tempo (Sacha Baron Cohen) brinca com o conceito do relógio transformado em implacável engrenagem de aprisionamento do homem pós-Revolução Industrial.

O contraste entre o tempo usado para o lúdico desfrute da existência e sua apropriação como estratégia da produção capitalista é  grande sacada do filme, e nesse campo diretor e produtor pintam e bordam, tanto nas cenas passadas no mundo subterrâneo quanto naquelas desenvolvidas na Inglaterra mercantilista. Mais que isso, o filme pretende contrapor o périplo pela realização dos desejos mais profundos à racionalidade imposta pelos avanços científicos da era moderna. No fundo, o roteiro parece quer dizer que de nada adianta se entregar às conveniências de uma existência burguesa repleta de comodidades tecnológicas, se a vida não permitir voos mais altos que um bom banho quente com água encanada.

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Modelito abravanado e ombreiras capazes de deixar as bees dos anos oitenta no chinelo: em “Alice através do espelho”, Sacha Baron Cohen dá vida à encarnação do próprio tempo num roteiro pleno de alusões ao seu significado burguês. Motes de culturas protestantes pós-queda da Bastilha como “Deus ajuda quem cedo madruga” fazem todo sentido nessa codificação da produção capitalista (Foto: Divulgação)

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Coadjuvante que rouba cena: enorme relógio do quartel-general do Tempo é praticamente um personagem dentro do enredo de “Alice através do espelho” (Foto: Divulgação)

Entre diversas bolas dentro, sobressaem mais uma vez o figurino de Colleen Atwood e a direção de arte de Dan Hennah que evoca a pintura de várias épocas, dos mares revoltos de Turner às figuras de face composta por legumes e verduras de Arcimboldo.

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Uma Alice adulta (Mia Wasikowska), mas que não perdeu o brilho no olhar é apresentada no longa de James Bobin. Seu apreço pelo exotismo oriental e cores nada vitorianas são o caminho escolhido pela figurinista Colleen Atwood em sua caracterização (Foto: Divulgação)

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Rainha de Copas desafia Alice não na copa, mas na cozinha: depois de cartas do baralho, soberana vilã conta no exílio com serviçais dignos de alegrar uma feirinha de orgânicos. Semelhança com as criaturas saídas do retratos pintados pelo milanês Giuseppe Arcimboldo (1527-1593) não é mera coincidência. (Foto: Divulgação)

Mas, entre tantas qualidades, vale ressaltar a adesão de Rhys Ifans ao casting e o melhor aproveitamento da britânica Lindsay Duncan (a mãe de Alice, Helen Kingsleigh) nesta continuação. Com prolífica carreira na TV e cinema,  ela é mais conhecida como a Servilia dos Junos da série Roma“, da HBO, e foi vista recentemente na telona como a implacável crítica de teatro que procura cabelo em ovo, hostilizando o ator-celebridade vivido por Michael Keaton em Birdman ou a inesperada virtude da ignorância” (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance, de Alejandro González Iñárritu, 2014). Agora, cada aparição dela em “Alice através do espelho” é uma benção.

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Lindsay Duncan (à direita de Mia Wasikowska): atriz inglesa ganha destaque na continuação de “Alice no País das Maravilhas” (Foto: Divulgação)

Uma curiosidade: em sua terceira participação numa produção da Disney, Helena Bonham Carter caminha para se tornar uma estrela do estúdio juvenil, com já aconteceu com Julie Andrews e a veterana Angela Lansbury, que já interpretou de feiticeira em Se minha cama voasse” (Bedknobs and Broomsticks, de Robert Stevenson, 1971) a um bulé de chá no clássico A Bela e a Fera” (The Beauty and the Beast, de Gary Trousdale e Kirk Wise, 1991).

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Helena Bonham Carter em “Alice através do espelho”: da carreira iniciada com o diretor James Ivory e consagrada em longa parceria com o ex-marido Tim Burton, a atriz inglesa parece se consolidar como uma estrela do estúdio do ratinho (Foto: Divulgação)

 

 

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