Fazem 25 anos desde que Steven Spielberg lançou “Jurassic Park“, inspirado na obra de Michael Crichton que ressuscitava os dinossauros na onda da clonagem de animais como a ovelha Dolly. Agora, chega às telas em ótima forma o quinto exemplar da franquia, “Jurassic World: Reino Ameaçado” (Jurassic World: Fallen Kingdom, de J.A.Bayona, Universal Pictures, 2018). A produção segue os passos do segundo filme da primeira trilogia, começando a ação na ilha-recanto dos seres pré-históricos, situada próxima à Costa Rica, para em seguida trazer os monstrengos para o continente. A diferença agora é que a ação aqui se concentra numa soturna mansão localizada em algum lugar ermo da Califórnia, longe dos centros urbanos e preparando o terreno para o próximo longa.

Apocalipse dinossauro: a primeira parte de “Jurassic World 2” narra a destruição da Ilha Nublar por um vulcão ativo, imprimindo um gostinho ao público de como tudo deve ter sido há 65 milhões de anos (Foto Divulgação)

Confira o trailer oficial legendado (Divulgação):


Do ponto de vista criativo, esse novo exemplar da saga não apresenta nenhuma novidade. Na prática, pouca diferença faz, pois a narrativa bem-construída e as sequências turbinadas por dinossauros que são um primor, tanto de computação gráfica quanto animatronics, mostram o quanto a tecnologia digital evoluiu neste 1/4 de século. A fórmula se repete, resgatando antigas plateias que irão às salas de exibição movidas pelo valor afetivo da série, quanto outras em mais tenra idade, prontas para conhecerem o enredo ou simplesmente darem continuidade àquilo que conheceram três anos atrás.

Olha ele aí! O Tiranossauro Rex continua dando as cartas em “Jurassic World 2” como uma das marcas da franquia, mesmo quando já perdeu o protagonismo há tempos (Foto Divulgação)

Temos novamente um casal (Chris Pratt e Bryce Dallas Howard) apresentado no filme anterior, à volta com uma relação que não foi para a frente, mas permanece no crush; um cientista (James Cromwell) visionário e que enxerga com olhos de criança a peraltice feita com a engenharia genética; uma criança carismática que é a bola da vez (Isabella Sermon) e provavelmente deve dar a cara na próxima empreitada, num rodízio característico da série; um nerd que é alívio cômico (Franklin Webb); a corrida “salve-se-quem-puder” com o Tiranossauro Rex na cola e a esperteza do velociraptor; e o duelo moral entre brincar de Deus e respeitar a natureza. E, de quebra, o arquétipo da ambição humana que acaba causando a tragédia, outro ponto pacífico nessas realizações, ancorada num ou dois vilões maniqueístas. Nada que Irwin Allen não tenha inventado há quase cinquenta anos com a invenção do cinema-catástrofe.

Agora um astro do primeiro time hollywoodiano, um Chris Pratt pós-Guardiões da Galáxia 1 e 2 contracena novamente com Bryce Dallas Howard nessa continuação de “Jurassic World” (Foto Divulgação)

Dino pet: o dinossauro Blue permanece nessa continuação de “Jurassic World” como o “chaveirinho de estimação” do enredo, usado como “artifício fofinho” da narrativa por Spielberg e J.A. Bayona, do novo clássico do terror “O orfanato” (2007) e do tsunami drama “O impossível” (Foto Divulgação)

A novidade aqui fica por conta das tintas com que a ambição é tratada: a exploração dos animais num parque temático à la Barnum cede espaço para um leilão de feras disputado pela turma cracuda que se amarra numa arma biológica. Cool.

Uma noite no museu: a sala particular de “Jurassic World: Reino Ameaçado” cumpre as vezes de castelo mal-assombrado da produção, em visual que remete ao Museu de História Natural de Nova York, com direito aos famosos dioramas (Foto Divulgação)

Mas, o melhor mesmo de tudo acaba sendo o tempero de terror vitoriano que acaba sendo aditivado na parte da ação se desenrola na tal mansão à beira do nada. Com sua arquitetura de filme de terror, meio grand guignol, com direito a laboratório secreto e masmorra tipo Frankenstein ou Dr.Jekyll, a casa se encarrega de imprimir essa leitura de horror gótico de literatura clássica, remetendo os dinossauros a várias codificações possíveis, de criatura que não deveria ter sido tirado do descanso mortal a bicho-papão que vem à noite comer criancinha na cama¸ com direito a sombras chinesas que evocam as projeções de Drácula nas paredes em penumbra. E a movimentação de cauda do monstro master da vez, o Indominus Rex, lembra muito a de outro que habita a imaginação cinematográfica: o “Alien“, que já foi oitavo passageiro e hoje ocupa no imaginário do púbico o topo do ranking de “monstro espacial”. Dificilmente por acaso. Isso por si já garante a diversão.

A lua enevoada no céu não nega: o dino no telhado equivale em “Jurassic World 2” à típica monstruosidade de filme de horror vitoriano. Spileberg tenta tangenciar a Hammer. De leve… (Foto Divulgação)

O Indoraptor é a uma das bolas da vez na hora de assustar as criancinhas em “Jurassic World: Reino Ameaçado”. O resultado final, em algumas cenas, tem toque gótico (Foto Divulgação)

Em tempo: nunca a franquia se encarregou de caprichar tanto no time de coadjuvantes. Além de Cromwell, os ótimos Toby Jones, Ted Levine (o capitão da série de TV “Monk“), Rafe Spall, Jeff  Goldblum (mal aproveitado, a gente sempre espera o astro salvando o mundo) e até Geraldine Chaplin.

Como manda o figurino, o ótimo Toby Jones (à dir.) faz as vezes de um vilão maniqueísta: um ganancioso leiloeiro que protagoniza uma cena de elevador que é um dos pontos altos da narrativa (Foto Divulgação)

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