Houve um tempo em que ainda não estavam em cena os excessos de um mundo impregnado pelo “politicamente correto”. Termos como bullying e assédio sexual não faziam o menor sentido para os reles mortais, fosse na vida pública ou privada, e os advogados de plantão não haviam se habituado a fazer fortuna convencendo seus clientes de que valia a pena amealhar uns trocados processando criaturas desavisadas que de haviam infringido o código penal por azarar o colega de trabalho, passar a mão na bunda da secretária ou praticar uma piada de mau gosto com um subalterno. É dentro desse universo que transita a deliciosa comédia musical “Como eliminar seu chefe” (9 To 5 – The Musical), que retorna neste domingo (3/1) ao Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, após o recesso das festas e em cartaz até 13 de fevereiro.

Sem dúvida, são louváveis os avanços de uma sociedade pautada pelos princípios éticos. Mas, quando os parâmetros degringolam, a humanidade perde a mão e o comportamento se torna xiita, tudo pode acontecer também no caminho inverno. É o que afirma Tânia Alves, estrela do espetáculo, com quem ÁS bateu aquele papo após assistir a récita: “Tudo em exagero é ruim. E o excesso de um universo pautado somente pela interpretação daquilo que é ‘correto’ emburrece o livre pensamento. Fundamentalismo é perigoso em qualquer vertente da ideias”.

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Da esquerda para a direita, Tânia Alves, Gottsha, Marcos Breda, Simone Centurione e Sabrina Korgut:, em cartaz em “Como eliminar seu chefe”: musical mostra um cotidiano que ainda pode se repetir atualmente, apesar dos tempos “politicamente corretos” (Foto: Divulgação)

Adaptada no Brasil pelo diretor Cláudio Figueira, com versão de Flávio Marinho e produção do primeiro e de Renata Borges a partir de musical da Broadway (com libreto de Patricia Resnick e músicas de Dolly Parton), a obra deriva do sucesso hollywoodiano Nine To Five (de Colin Higgins, Twentieth Century Fox, 1980), com texto da própria Patricia e estrelada por Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly. Era a virada dos anos 1980: dominado por machos, o mundo corporativo se assustava com a recente emancipação feminina e ainda precisaria aprender a dividir os altos cargos comissionados com as mulheres. Não existiam os yuppies, Giorgio Armani ainda estava começando a fazer sucesso e as ombreiras só viriam a tomar conta dos paletós dentro de alguns poucos anos.

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Da esquerda para a direita, o trio de funcionárias humilhadas pelo patrão opressor que resolvem dar cabo do facínora no longa-metragem “Como eliminar seu chefe”: Dolly Parton, Jane Fonda e Lily Tomlin (Foto: Reprodução)

Nem é preciso dizer que o filme fez o maior burburinho, amparado no carisma de uma Fonda no auge, da presença impagável de Tomlin e do sex appeal de Dolly Parton, que já era notória na country music. Com o longa e a música titulo, a intérprete deixou de ser um fenômeno interiorano norte-americano para se tornar conhecida mundialmente e concorreu em 1981 a praticamente todos os prêmios, de ‘Melhor Canção Original’ no Oscar e no Globo de Ouro a ‘Melhor Atriz em Filme de Comédia’ e ‘Melhor Atriz Revelação em um Filme’ neste último. “9 To 5” arrebatou o People’s Choice Awards de ‘Melhor Canção de um Filme’ e Dolly ainda levou para casa o Grammy em 1982 de ‘Melhor Música Country’ e ‘Melhor Performance Vocal Feminina Country’ pela mesma música.

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Bonequinha de luxo: louraça belzebu da cultura pop norte-americana, Dolly Parton se tornou famosa da noite para o dia entre a grande massa mundial com “Nine To Five” (Foto: Reprodução)

E, por se tratar de uma comédia ingênua e abobalhada – gênero que nunca teve muito respeito da Academia, embora faça rios de dinheiro – “Como eliminar seu chefe” acabou ficando de fora na maioria das categorias no Oscar, apesar de hoje, como testemunho desse comportamento pré-“politicamente correto”, valha a pena ser revista e mereça uma montagem nos palcos. Afinal, 1981 foi mesmo covardia: disputaram o Oscar de Robert Redford (pela primeira vez como diretor em Gente como a Gente“) a Roman Polanski por Tess – Um Lição de Vida“, filme que transformou Nastassia Kinski em símbolo sexual, passando por Martin Scorsese por O Touro Indomável (que deu a Robert De Niro sua segunda estatueta) e até David Lynch despontando no mercado pelo seu estranhíssimo O Homem Elefante“. E, para representar a comédia no quesito ‘Melhor Atriz’, uma indicada imbatível já estava no páreo: uma Goldie Hawn anterior à deformação por botox concorria por A Recruta Benjamin“, ofuscando o trio de protagonistas de “9 To 5”, que fez o maior sucesso de público, faturou mais de 3 milhões de dólares nas bilheterias estadounidenses (uma fortuna na época) e só.

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Quase cartoon: adaptação brasileira de “Como eliminar seu chefe” se diverte com a malícia ingênua dos personagens como num desenho animado (Foto: Divulgação)

Nesse aspecto temporal, o musical em cartaz no Rio é um acerto quando ambienta a trama nessa passagem dos anos 1970 para 1980. Excelentes, a cenografia e o figurino a cargo de Clívia Cohen são fundamentais na compreensão de duas abordagens. Em primeiro lugar: do quanto cometer abusos é algo completamente jurássico por quem ainda os pratica hoje. A reprodução estética desse passado recente colabora no contraponto da estranheza revelada por tais atitudes datadas, que não cabem na vida moderna, mas continuam existindo.

Em segundo lugar, como caricatura de uma época que já se foi, os elementos visuais também enfatizam a contramão: não se deve cair de cabeça nas patrulhas ideológicas atuais, ser do tipo que procura cabelo em ovo nas menores declarações ou atitudes de qualquer pessoa. É coisa tão over quanto desmerecer um funcionário. E tão ruim quanto o preconceito disfarçado é a celeuma que se faz à sua volta para a autopromoção. Por isso, é um primor a ótima a solução cromática no figurino da caretíssima repartição que vai se colorindo a partir do momento em que as mulheres assumem as rédeas. Para tanto, a caracterização de Rodrigo Fuentes também vale destaque.

Ainda no figurino, merece menção o caimento dos ternos, impecável na hora de reproduzir o shape da década retratada sem, contudo, deixar a peteca cair. Explica-se: num tempo em que a silhueta seca é mais valorizada do que nunca, o bamba Macedo Leal – responsável por nove entre dez produções com alfaiataria de boa qualidade – soube respeitar a modelagem dos early eighties se permitindo pequenas adaptações ao gosto dos tempos atuais. Ninguém fica com cara de saco de batata, mas todo mundo tem aparência retrô.

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“Como eliminar seu chefe”: direção de arte competente valoriza o conteúdo da peça, simplória no texto, mas eficiente tanto na mensagem quanto na diversão (Foto: Divulgação)

No conjunto, o entra e sai de personagens, as boas marcações coreográficas do próprio Cláudio Figueiras e a agilíssima contrarregragem cênica imprimem dinamismo à montagem, equilibrando uma história que, no fundo, é esquemática, quase infantil. E, claro, olha ele aí de novo: quem dá cabo da iluminação é Paulo César Medeiros, que dispensa apresentação. É impressionante ver como a farta bagagem do light designer tanto em balés quanto no teatrão lhe confere a expertise máxima na hora de conceber a luz de espetáculos que lidam tanto com a dança quanto a interpretação. Gênio.

A direção musical e preparação vocal de Liliane Secco são eficientes, sobretudo se considerarmos que, à parte do hit “9 To 5”, as músicas apresentadas não são velhos conhecidos do público, standards de outras montagens da Broadway. Só para citar um espetáculo também em cartaz no Rio: ir ao teatro para conferir Kiss Me, Kate e assistir a “So in Love ou Too Darn Hot equivale a ir à Roma para ver o papa. Por isso mesmo, é louvável ver que, mesmo desconhecendo as músicas, parte da plateia balança o pezinho em vários momentos, revelando a sintonia desse público de idades variadas com o que se passa no palco.

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Showbiz: à frente do elenco de bailarinos de “Como eliminar seu chefe”, Tânia Alves se destaca e o público confere sua performance em um contexto bem diferente dos tipos agrestes pelos quais a televisão, o cinema e o teatro a consagraram (Foto: Divulgação)

No papel do trio de funcionárias que sequestram o chefe explorador, cada uma das protagonistas representa uma forma de abuso e, claro, são esses arquétipos que lhes conferem a linha mestre. Obviamente, não dá para fugir disso e inovar. Como a competente gerente que vê a fila andar e nunca é promovida por ser mulher, Tânia Alves se faz valer da experiência no palco, tevê e teatro para roubar a cena. É uma prazer ver a atriz, que já fez musicais brasileiros como a Ópera do Malandro e Palavra de Mulher“, transitar em um espetáculo made in Broadway. Funciona que é uma beleza. Acostumada a personagens que lhe conferem um mar de nuances, ela pinta e borda numa narrativa na qual as atuações precisam ser esquemáticas para dar cabo da história. E vai fundo: sobre aquilo que pode ter avançado entre a época em que se passa a trama e o século 21, ela é categórica: “Houve avanços, mas menos do que deveria. Ainda vejo em pauta a questão da minha personagem na peça. A Patricia Arquette não protestou no último Oscar com o fato de as mulheres ganharem menos em Hollywood?”, alfineta.

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Trinca de protagonistas: em papeis marcados por estereótipos, Tânia Alves (esq.), Simone Centurione (centro) e Sabrina Korgut (dir.) se equilibram entre a arte de interpretar e o talento para o canto. Com uma vantagem: nenhuma delas sai do personagem na hora de abrir o gogó (Foto: Divulgação)

Se comparada com Jane Fonda, Simone Centurione tira melhor proveito da fraqueza do que alguém que se tornou símbolo sexual por representar o processo de emancipação feminina. Como assim? Bom, no musical, a brasileira vive o típico papel da dona de casa abandonada pelo marido que precisa ir à luta e é humilhada pelo superior. Se parecia um tanto inverossímil acreditar que pelo mesmo plôt Fonda – marcada por criaturas fortes em longas como Barbarella“, Klute, O Passado Condena e Dívida de Sangue – pudesse sofrer por um homem ao invés de lhe dar uma banana, para a brasileira o todo soa mais verdadeiro, a começar pelo seu physique du rôle. E, quando ela abre a voz, o resultado é contagiante.

Confira abaixo o porquê de Jane Fonda não ser a melhor opção em Hollywood para o papel que Simone Centurione faz com garra no palco: 

Sabrina Korgut surpreende como a secretária que que provar o seu valor, mas só é vista como um pedaço de mau caminho pelo chefe sempre pronto a tirar uma casquinha. O público acostumado a vê-la na pele da empregada doméstica Adenoide (de “Pé na Cova”) ou de uma freirinha faceira (em “Noviças Rebeldes”), fica de queixo no chão com a transformação, demorando a acreditar que se trata da mesma atriz. Pitéu. E, na migração da obra da Broadway para o Brasil, Sabrina ainda adapta o papel para o seu biotipo, dando vazão à preferência nacional: saem de cena os peitos avantajados de Dolly Parton e entra em ação um derrière amplificado pelo tubinho justo, para cabra nenhum botar defeito.

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Ajuste cultural: no papel que tornou famosa Dolly Parton, Sabrina Korgut interpreta a secretária gostosona de “Como eliminar seu chefe”. Com um porém: apesar do decote proeminente, quem chama atenção é o popô, alegria número um dos brasileiros (Foto: Divulgação)

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Mamãe eu quero: no auge da boa forma, nos anos 1970, Dolly Parton fez fama com o vocal privilegiado e o par de seios avantajados, condição sine qua non para ter sex appeal na América (Foto: Reprodução)

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Dolly Parton em uma premiação de 2007: o tempo passa, o botox grita, mas os peitos, hum… Eles continuam firmes e fortes! (Foto: Reprodução)

Como o chefe opressor, Marcos Breda opta por uma composição histriônica, de pastiche, quase de cinema mudo. Ele pesa na caricatura e isso não é mau: faz parecer mais ridículo ainda quem se comporta como ele na vida real, conferindo até uma dose de ingenuidade, característica de quem se acha por cima da carne seca. O resultado acaba se parecendo com o de Dabney Coleman no filme e se encarrega da lição: o homem é mesmo um idiota por subestimar a mulher.

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Em cena no longa de 1980, Dolly Parton dá uma lição no chefe abusado, interpretado por Dabney Coleman. No teatro, Marcos Breda carrega as tintas na mesma ingenuidade maliciosa do ator nesta versão brasileira do musical “Como eliminar seu chefe” (Foto: Reprodução)

Completando o elenco principal, Gottsha funciona como um talismã, do tipo que precisa existir em qualquer montagem do gênero. Difícil imaginar uma peça sem ela, seus olhares, sua voz privilegiada. Musical por aqui tem que ter mesmo pelo menos uma integrantes dessa fabulosa safra de atrizes especializadas no gênero que o Brasil viu surgir na década passada. Nem é preciso dizer que quando ela entra em cena, varre!

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Marcos Breda e Gottsha; duas ótimas presenças em “Como eliminar seu chefe”, em cartaz no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

E, se destacando entre o elenco de coadjuvantes, impossível não bater palmas para Cristiana Pompeo, uma atriz com timing impecável, o vigoroso Daniel Lack e o ótimo Carlos Viegas, que se sai bem tanto no corpo de baile quanto no final, quando ganha o papel do diretor da empresa. Versátil, ele ainda arrasa no número de sapateado.

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Achado: no papel de um secretária alcoólatra, Cristiana Pompeo, do elenco de “Zorra”, chama atenção em “Como eliminar seu chefe” e cai nas graças do público (Foto: Reprodução)

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