A moda do empoderamento em Hollywood anda tomando de assalto todos os gêneros. Dias depois da estreia do filme de roubo Oito mulheres e um segredo (leia mais aqui) dar as cartas com um time de ladras de responsa, agora é a vez delas mandarem ver na típica comédia romântica americana, aquela geralmente de boa bilheteria que tanto inspira a produção fílmica comercial brasileira, capitaneada por produtoras nacionais como a Globo Filmes e a Total. Do jeito que elas querem” (Book Club, de Bill Holderman, June Pictures e outros, 2018) seria somente mais uma produção que põe elas no topo da cadeia alimentar não fosse um detalhe: é estrelada por quatro mulherões da terceira idade, todas precisando lidar com um aspecto da maturidade em construções arquetípicas bem definidas, quase todas vividas por atrizes oscarizadas: Jane Fonda (80 anos, a solteirona que prefere privilegiar a vida de predadora sexual às relações afetivas), Diane Keaton (72, a viúva cujas as filhas insistem em aposentar-lhe os escarpins para lascar-lhe as pantufas), Candice Bergen (72, a divorciada bem-sucedida às voltas com o ex que namora uma mulher mais jovem) e Mary Steenburgen (65, a casada que precisa apimentar a relação mais morna que ovo com bertalha em marmita elétrica).

Da esquerda para a direita, Diane Keaton, Candice Bergen, Jane Fonda e Mary Steenburgen incorporam em “Do jeito que elas gostam” quatro questões que atormentam as mulheres maduras. De quebra, mesmo numa comédia bobinha revelam que existe mais que heróis da Marvel e distopias adolescentes na produção fílmica atual (Foto: Divulgação)

A roteiro banal e a direção previsível são superados pela presença das quatro estrelas sênior, que mandam bem no timing e funcionam bem juntas ou contracenando com astros madurões que foram símbolos sexuais nos oitenta e no início dos noventa: Don Johnson (68), Andy Garcia (62), Craig T. Nelson (74) e o não tão galã assim, mas ótimo Richard Dreyfuss (70).

Confira abaixo o trailer legendado (Divulgação):  

(Foto: Divulgação)

Dessa forma, a narrativa ainda esbarra noutra questão que também está na moda, muito beneficiada pela evolução da medicina cosmética e das técnicas de rejuvenescimento: a vida que antes começava aos quarenta, depois aos cinquenta, depois aos sessenta e agora aos setenta. Elas fazem mulheres em torno dos quase sessenta e tantos, embora na vida real quase todas tenham um tantinho a mais.

Physical: prestes a completar 81 anos, após as recentes aparições nos últimos tempos no Oscar e em Cannes, uma Jane Fonda ainda esticadona e com corpão de marombeira é o principal atrativo de “Do jeito que elas gostam”. Pelo jeito, funcionavam mesmo os VHS de condicionamento físico que a estrela lançou no início dos 1980 (Foto: Divulgação)

É divertimento leve que vai alegrar a plateia de idade mais avançada, que pode se enxergar ali, ainda mais considerando que a representação das personagens tangencia em pelo menos duas das atrizes os papeis que lhe couberam como mitos feministas do passado: no figurino, a Vivian de Jane Fonda abusa das botas 7/8 de Barbarella (1968) e a Diane de Diane Keaton comparece com os terninhos andróginos à la Saint Laurent que viraram sua marca desde Noivo neurótico, noiva nervosa (1977).

Chicotinho sapeca: as quatro amigas do clube da vovó-garota vividas por Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen e Mary Steenburgen pretendem dar um sacode nas suas vidinhas amorosas a partir da leitura de “Cinquenta tons de cinza” (Foto: Divulgação)

A importância de apresentar esse tipo de personagem, numa era em que prevalece uma Hollywood infantilizada pelos filmes de super-herói, de mortos-vivos, contos de fada live action e sagas adolescentes bobinhas com vampiros indies de camisa de flanela e lobisomens anabolizados, supera a improvável premissa dessas quatro moças de terceira idade: revolver suas vidinhas sexuais a partir da inclusão, no clube do livro do qual fazem parte, da leitura da trilogia Cinquenta tons de cinza“. ÁS não conhece ninguém que tenha temperado sua trajetória erótica à custa de uma narrativa que traz um milionário sadô, com jeito de gay atormentado, que seduz as menininhas numa masmorra de paredes de veludo e sofás de capitonê…

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