A turma que fez o insípido remake de Carrie em 2013 deve estar lambendo os beiços se conferiu a nova adaptação da novela de terror It“, lançada nas livrarias em 1986 pelo mesmo Stephen King, É um primor de timing e roteiro bem amarradinho, feito para divertir sem gordura, It: A Coisa” (It, New Line Cinema e outros, 2017), em cartaz nas salas de exibição. Consegue dar um banho na versão original para a tela – It: uma obra-prima do medo” (It, de Tommy Lee Wallace, Warner Bros. Television e outros, 1990), uma produção em duas partes feita para a TV que depois foi lançada em vídeo e fez sucesso por aqui como um exemplar tardio do cinema de terror classe B dos anos oitenta, nos qual os textos do autor eram figurinha fácil.

Alô, criançada, o Bozo chegou! O palhaço assassino Pennywise – em tradução para o português, Parcimonioso – prova em “IT: A Coisa” que brincadeira de mal gosto enche o estômago de gente psicopata. Solução: segurar a curiosidade e força na peruca vermelha do Ronald McDonald! (Foto: Divulgação)

Turma do Balão Mágico: como no livro, brinquedos inofensivos como balões de gás se tornam a marca da maldade no périplo do monstro incorporado em palhaço para tocar o terror na petizada! (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial (Divulgação):

Grande parte da eficiência do filme se deve ao diretor Andy Muschietti (do bom Mama“, de 2013), no qual ele já havia mostrado que sabe fazer terror dirigindo crianças. Agora, ele dá novo fôlego à narrativa, amplificada pelo talento de Bill Skarsgård num papel que foi feito sob encomenda para o maneirista Tim Curry na primeira adaptação: a entidade sobrenatural disfarçada de palhaço que sobrevive se alimentando do medo dos pequenos – e até literalmente comendo criancinha. O público até esquece que o ator é boa-pinta e embarca na apavorante composição da criatura, que deve retornar numa continuação prevista.

Boniteza não é brinquedo não! Aos 27 anos, o sueco Bill Skarsgård, da série “Divergente” e de “Anna Karenina” (2012), prova em “It: A Coisa” que um rostinho fofo pode ser assustador, sobretudo se estiver maquiado com quilos de pancake e parecer uma versão demoníaca de Bingo do bafão, o personagem palhaço vivido atualmente no cinema nacional por Wladimir Brichta. Ele dá susto na plateia tanto quanto o Pennywise de Tim Burton (à dir.), só que não! Na verdade, seu olhar “psycho” consegue ser tão ou mais aterrorizador que o make e a bocarra cheia de dentes afiados da criatura (Foto: Divulgação)

Draga: na foto alterada por computação, o ator Bill Skarsgård brinca com a boca que abre para revelar uma carreira de dentes enormes, que cortam como navalha, marca do seu personagem Pennywise (Foto: Divulgação)

Muschietti soube tirar proveito do roteiro, sem exagerar nos efeitos de CGI, apostando no terror psicológico ancorado pelo bom elenco infanto-juvenil. As cenas de sugestão de incesto e estupro gelam a espinha mais que o palhaço do mal. Por isso, a obra talvez possa durar sem ser afetada pela implacável ação do tempo que torna “a computação gráfica  genial de hoje” um “defeito especial” num amanhã cada vez mais próximo.

Todo mundo em pânico: o palhaço monstruoso de “It: A Coisa” tira proveito daqueles medos da infância que todos carregam pela vida. Acaba assustando a gurizada inteira de uma cidadezinha, Derry, no interior da Nova Inglaterra, Maine. Stephen King tem verdadeira predileção por esse estado norte-americano e já o usou em outras obras como “À beira da loucura” (Foto: Divulgação)

O horror gótico-circense vem, sobretudo, da maneira como são explorados os silêncios, as passagens de tomada da câmera, os respiros e os closes que mostram de pertinho o quanto um personagem aparentemente inofensivo como um palhaço, geralmente associado à alegria de viver, pode virar a mesa representando uma horripilante criatura das trevas, um serial killer maléfico.

Stephen King leva ao pé da letra aquela representação de palhaço na sarjeta. No caso do Pennywise, de “It: A Coisa”, ele usa o meio-fio para arregimentar criancinhas para uma seu circo dos horrores (Foto: Divulgação)

Cadê o ortodontista? A tenebrosa dentição de Pennywise é o aspecto mais animalesco da criatura assassina disfarçada de Bozo. Mas, considerando seu intérprete atual, nem Vovó Mafalda sequer desconfiaria que seu olhar maligno é tão hipnótico quanto a bocarra de tubarão (Foto: Divulgação)

Qualquer semelhança talvez não seja mera coincidência. Num gênero repleto de clichês – o terror – o diretor Andy Muschietti pinta e borda com pequenas referências pinçadas de outras obras visuais, sem cair na obviedade de copiá-las. Pennywise saindo d’água, nesta imagem, não lembra uma Linda Blair demonizada nas cenas de possessão de “O Exorcista”? (Foto: Divulgação)

É um acerto esse comedimento nos efeitos, aliado ao bom make, além da cenografia, produção de arte e figurinos primorosos, que deslocam a ação dos anos 1960 originais do livro para o final dos eighties, quando os anseios politicamente ainda engatinhavam.

Alusão à vida real: subida dos garotos na escadaria da casa mal-assombrada, em “It: A Coisa”, pode ser uma representação dos degraus a serem escalados para ingressar na vida adulta, superando os medos da infância (Foto: Divulgação)

Afinal, ao enfatizar o pavor de virar adulto em confronto com os medos juvenis dos quais o palhaço se empanturra, o longa-metragem mostra classe indo além da historinha sobrenatural para impregnar a narrativa com esse teor de que crescer e ir à luta, tão nos recorda que vivemos num mundo convulsionando no caos, afinado com o pós-11 de Setembro.

Sim, são temores adultos que nos fazem embarcar no mais profundo sono ao invés de ter que, metaforicamente, olhar para debaixo da cama e encarar os próprios monstros.

Sete condenados: número cabalístico de excluídos assombrados pelo palhaço maligno de “It: A Coisa” se divide pelas facetas do medo real que aterroriza constantemente os pré-adolescentes: da insegurança de não fazer sucesso sexualmente ao pavor de ter que lutar pela vida na disputa diária pelo pão de cada dia (Foto: Divulgação)

Clichezões como bullying, a aprovação paterna, a descoberta de virar mulher através do trauma de uma cascata de sangue chamada menstruação diante do assédio do pai, a perda do conforto da infância na constatação de quem alguém que ama não vai voltar e a constatação de que ser nerd pode atrapalhar sua futura vida sexual (visão antiga, hoje em dia nerdismo é coisa bacana), entre outros, são tão bem aproveitados que o público talvez até esqueça que palhaços assassinos não são novidade há décadas.

Vide o espectro-bufo dos quadrinhos do Spawn, Violator (1997), os alienígenas trash de Palhacos Assassinos (Killer Clowns from Outer Space,1988), um ou outro episódio de Além da Imaginação“, o monstro da temporadaFreakShowde American Horror Story(2014) e até o palhacinho da mais cena mais assustadora de Poltergeist (1982), aquela em que o menino, no quarto escuro, se defronta com seu brinquedinho de infância incorporado por um fantasminha maroto…

A capacidade de Pennywise de ingressar no panteão de ícone da cultura pop já pode ser conferida em brinquedinhos lançados para faturar na rabeta de “It: A Coisa” (Foto: Divulgação)

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