Apesar das inconfundíveis digitais, a trajetória de Tim Burton é de altos e baixos (mais altos do que baixos), com algumas obras se resumindo à sua visão estética, o que já lhe rendeu a incensada expo-celebração da carreira (leia aqui) que rodou o mundo e parou no semestre passado em São Paulo. Como Fellini, Almodóvar, Wes Anderson, Woody Allen, Marc Caro, Hitchcock, Visconti ou Kubrick, um longa do cineasta é reconhecível do início ao fim como uma “obra de Tim Burton” e poucos realizadores são tão fieis à sua essência quanto o californiano. Mas, ainda considerando seu apego a um universo onírico-estético ímpar – a mistura entre o sombrio e o burlesco, a verborragia bizarro-visual, um aterrorizante mundo sob a ótica da criança e personagens lacônicos que evocam sua própria infância no subúrbio de Burbank –, nem sempre o diretor alcança o pote de ouro criativo no fim do arco-íris, mesmo porque, em seu percurso, este possivelmente começaria feito de algodão doce e se transmutaria em algo tão macabro que provocaria vômitos em Dorothy e sua moçada de Oz. Agora, em O lar das crianças peculiares” (Miss Peregine’s Home for Peculiar Children, Twentieth Century Fox, 2016), que entra em cartaz nesta quinta-feira (29/9), ele consegue manter a marca e ao mesmo tempo ser mais comedido no rococó, como já fez em obras como Ed Wood (1994), Peixe Grande e suas histórias maravilhosas (2003) e Grandes Olhos (2014).

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“O lar das crianças peculiares” (2016): na sua mais recente produção, Tim Burton pretende trazer sua marca para o universo das sagas cinematográficas juvenis, iniciando uma possível nova franquia nas telas de uma série literária que já está em seu terceiro volume (Foto: Divulgação)

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“Tim mão de tesoura”: no set de filmagem, o direto brinca com alguns dos seres criados pelo adolescente Enoch O’Conner (Finlay MacMillan), que em o puder de insuflar vida em seres inanimados (Foto: Divulgação)

Nessa adaptação do romance infanto-juvenil de Ramson Riggs, Burton investe no adolescente Jake­ – Asa Buttefield funcionando como alterego do diretor e ainda mantendo a cara de pirralho carente que o consagrou em A invenção de Hugo Cabret“, embora hoje um “galalau” de 19 anos, 1,83m e pernas mais compridas que as de Anna Hickmann ­ –, que sai da ensolarada Flórida rumo a uma remota ilha no País de Gales em busca do passado do avô (Terence Stamp).

Abaixo, Asa Buttefield em dois momentos: 

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Ao lado de Chloe Grace-Moretz no premiado “A invenção de Hugo Cabret” (2011), filme de Martin Scorsese que consagrou o ainda ator-mirim (Foto: Divulgação)…

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… e na imagem promocional de “O lar das crianças peculiares”, mais de cinco anos depois de “Hugo Cabret”, mas conservando o aspecto juvenil que lhe rende até hoje esse tipo de papel. Comparando o novo longa de Burton com a saga “Harry Potter”, nesse âmbito o ator sai na frente de Daniel Radcliffe na hora de manter a feição pueril, sem aquele aspecto do segundo, que não virou “homão”, mas ficou com aquele semblante estranho de “criança com cara de velho” (Foto: Divulgação)

Nesse âmbito, a produção se aproveita da narrativa literária para abordar outro tema caríssimo ao diretor, que já havia sido explorado pelo menos em “Peixe Grande” e A Fantástica Fábrica de Chocolate“: a reconciliação do protagonista com a figura paterna, retomando crenças pueris da mais tenra idade e superando a desilução de que a vida talvez não seja tão mágica quanto uma boa história contada na hora de dormir.

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Paixão nas alturas: o jovem nerd Jake (Asa Butterfield) cai de amores por Emma Bloom (Ella Purnell), garota que controla o ar e flutua quando tira suas pesadas botas de chumbo. A alusão ao romance juvenil que deixa os pés fora do solo parece até “Saramandaia”, clássico da teledramaturgia fantástica nacional… (Foto: Divulgação)

Se neste filme os exageros visuais são contidos em detrimento do ar retrô, os personagens mantidos numa fenda temporal pela preceptora Srta. Peregrine (Eva Green, em mais um papel daqueles que se espera dela) são, como costuma acontecer com as galerias de coadjuvantes de Burton, um delirante panorama da natureza humana tão possível de se encontrar sob as camadas do verniz social quanto numa feira de aberrações. Mais que isso, são também a síntese da preocupação com a inclusão social, assunto na ordem do dia que cunha termos politicamente corretos como “necessidades especiais” e estimula na mídia a adesão do público a empreitadas como a paralimpíada.

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Nova estrela-fetiche: em “O lar das crianças peculiares” Tim Burton consegue se desvencilhar da ex-patroa Helena Bonham Carter, mas mantém no elenco outra atriz que ultimamente lhe é preciosa: a francesa Eva Green, que já havia participado de “Sombras da noite” (2012). Nova marca do diretor, após Carter e Winona Ryder? (Foto: Divulgação)

Acostumado a trabalhar quase sempre com a mesma trupe de atores, como Johnny Depp e Helena Bonham Carter, dessa vez Burton e a diretora de casting Susan Figgs variaram na escalação do elenco. Confira abaixo astros e estrelas que são novatos nesta produção do diretor:   

Dotados de habilidades estranhíssimas, essas criaturas talvez viessem a parar em um circo dos horrores caso não vivessem sob constante proteção. Mais que isso, se encapsulam em guetos ao invés de enfrentar monstros do tipo que promove o linchamento de gente  ou animais em vídeos que volta e meia circulam na internet.

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Petizada do orfanato da Srta. Peregrine: crianças e teens se revezam nas bizarrices típicas de Burton numa produção que é menos visceral no visual que outras do diretor, mas que impressiona pela conjugação entre economia de efeitos (para o padrão do realizador) e a atmosfera vintage (Foto: Divulgação)

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Direção de arte de Gavin Bocquet (conhecido pela primeira trilogia de “Star Wars”) e o figurino de Colleen Atwood – colaboradora habitual de Burton – contribuem para o clima retrô das fotos inseridas na edição da obra literária original de Ramson Riggs (Foto: Reprodução)

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Escritor de “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares”, Ramson Riggs incluiu na publicação de seu romance infanto-juvenil uma série de antigas fotografias estranhas que afirma serem imagens reais coletadas dos álbuns de amigos (Foto: Divulgação)

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Homenagem ao mestre: em “O lar das crianças peculiares”, Burton celebra o talento do papa da stop motion Ray Harryhausen em um duelo de esqueletos que evoca o clássico “Jasão e o velo de ouro” (1963). Os movimentos assumidamente toscos dessas criaturas no novo longa-metragem não são “defeito especial”, mas uma tentativa bem-sucedida de atualizar os efeitos que imortalizaram seu criador, morto em 2013 (foto: Divulgação)

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Arte imita a arte: à esquerda, a capa do best-seller de Ramson Riggs e, à direita, o diretor Tim Burton brinca com uma das caveiras que inspiraria a sequência que homenageia Ray Harryhausen (fotos: Divulgação)

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Celebrado por obras-primas cujos efeitos hoje estão datados, mas se tornaram estilo – como “Jasão e os argonautas” (1963) e “Fúria de Titás” (1980) – o mestre da animação quadro a quadro de bonecos Ray Harryhausen é reverenciado por Tim Burton em duas sequências de “O lar das crianças peculiares” (Foto: Reprodução)

Alusão às monstruosidades que ocorrem aos borbotões na vida real, os assustadores etéreos que se alimentam dos olhos das criancinhas não passam no fundo de gente de representações de verdade que, no exercício de sua maldade ocasional, se encarregam de trazer pimpolhos à tal “vida adulta”, privando seu olhar daquele brilho que somente a magia da infância possibilita. Não por acaso, o mesmo tipo de chispa que o tímido e nerd Burton insiste em conservar dentro de si.

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Monstros S.A.: os etéreos, humanos que se deformaram e passaram se alimentar de outros com habilidades especiais é mote em “O Lar das crianças peculiares” para evocar o medo que a aversão á diferença causa em quem foge do padrão (Foto: Divulgação)

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Fim da picada: entre as bizarras crianças do orfanato secreto da Srta. Peregrine, o garoto Hugh Apiston (Milo Parker) carrega um enxame de abelhas dentro de si (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer legendado (Divulgação): 

 

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