Num determinado momento da narrativa, a mocinha que foge do ex-marido mafioso flerta com o salva-vidas vivido por Justin Timberlake dentro do carro dele, na chuva: “Você rodou o mundo…”. O rapaz devolve, extasiado com aquela trajetória sofrida que, vista do ponto de vista ficcional, renderia um bom roteiro: “Você rodou na vida!”, divaga ele, um escritor aspirante que interrompeu seu sonho para ingressar na marinha ao ser convocado para lutar pelos Estados Unidos na guerra. A nova produção de Woody Allen, Roda-Gigante” (Wonder Wheel, Amazon Studios e outros, 2017), reflete exatamente isso: ambientada no mítico e decadente balneário suburbano novaiorquino Coney Island, nos anos 1950, ela apresenta as desilusões de uma parcela da sociedade estadounidense a quem não foi permitido viver o american dream sintetizado pelos cadilacs rabo de peixe, os eletrodomésticos em tons pastel e as férias programadas em paraísos solares como Acapulco e Miami a bordo de modernos jatos da PanAm (leia mais aqui).

Nova produção de Woody Allen, “Roda-Gigante” entra em cartaz no Brasil nesta quinta-feira (28/12). Kate Winslet dá seu habitual show de competência (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 

Todos ali tem vidinhas tão rasteiras quanto as emoções baratas daquele parquinho cafona à beira-mar: a atriz de teatro (Kate Winslet, maravilhosa!) que, num piscar de olhos e num passo em falso, viu seu sonho de estrelato descambar na vida de garçonete com filho para criar, o pai (Jim Belushi, num papel recorrente na filmografia do diretor) que deu duro para a filha ser alguém e viu seu sonho morrer na praia quando a moça arrastou a asa para quem não prestava, a garota (Juno Temple, ótima!) que chutou o pau da barraca por um amor que se revelou um tormento, o menino (Jack Gore, sensacional) que dribla o tédio imergindo num coquetel de sessões de cinema e certa obsessão piromaníaca e o rapaz que admira as peças de Eugene O’Neill, mas ganha a vida num posto de observação da guarda-marinha, numa orla que só faz marola.

Kate Winslet vive Ginny, atriz de teatro e crise com a chegada aos 40 que, após escolhas erradas, precisou abandonar a carreira para criar o filho sozinha (Foto: Divulgação)

Vindo de produções-pipoca como “Os Três Mosqueteiros” (2011), “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012) e “Malévola” (2014), Juno Temple é ótima surpresa em “Roda-Gigante” (Foto: Divulgação)

“Roda-Gigante”: acostumado a ser visto em produções comerciais, Jim Belushi brilha no papel do homem de meia-idade que se ancora num novo casamento para superar o passado (Foto: Divulgação)

Suas existências são pequenas, muito aquém das sonhadas e, sim, a roda gigante de Allen é daqueles que acreditaram que a vida iria levá-los adiante mas, tal qual o emblemático brinquedo de diversão, sobem para no final voltarem ao mesmo lugar. É gente que sonha com as ilusões do cinema, mas cujo cotidiano, se romanceado nas telas, não valeria sequer um minuto de projeção.

Boneco Ken, prestes a completar 37 anos: competente como ator, o pop star Justin Timberlake interpreta um salva-vidas em sua 20ª presença na telona, em papel cujo visual reproduz o arquétipo do macho bonitão e viril das publicidade norte-americana nos fifties  (Foto: Divulgação)

Em “Roda-Gigante”, Timberlake é Mickey, mestrando em literatura que precisou abdicar do sonho de ser escritor para ingressar nas forças armadas durante a Segunda Guerra e, após rodar o mundo, encontrou a sobrevivência no emprego de guarda-marinho (Foto: Divulgação)

Não é a primeira vez que Allen confronta a dura realidade com o glam da ficção. Em A Rosa Púrpura do Cairo“, a personagem interpretada por Mia Farrow se isolava da Grande Depressão dos thirties no escurinho das salas de cinema. Agora, no pós-2ª Guerra, os personagens de “Roda-Gigante”, cada qual à sua maneira, enfrentam as decepções à custa do ambiente praiano ensolarado de um balneário que surgiu nos anos 1910 para emular a Riviera Francesa, mas se tornou com o tempo o resort dos fracassados. Gente comum que poderia até sonhar com a Promenade des Anglais, em Nice, mas cujos pés só pisarão as areias de Coney Island.

Cartão-postal de Coney Island, a famosa roda-gigante da nova realização de Woody Allen é mais que o elemento que dá nome à produção; como um personagem, ela emula as desilusões em looping dos personagens (Foto: Divulgação)

Se, em “A Rosa Púrpura do Cairo”, o escapismo se dá através dos romances galantes e aventureiros exibidos nas telas, em “Roda-Gigante” a única possibilidade de se resgatar o sonho perdido é acreditando num bronzeado romance de verão, como num cartaz de   publicidade retrô ilustrado por Norman Rockwell (1894-1978).

Ilustrador publicitário cujo trabalho virou a síntese do american way of life no Pós-Guerra,   Norman Rockwell ficou marcado pelo seu estilo único de traço, imitado no mundo inteiro, em imagens que combinam pin ups com americanos típicos em situações cotidianas glamourizadas, muitas vezes ensolaradas (Foto: Reprodução)

Norman Rockwell ilustrou campanhas icônicas de grandes corporações americanas, como a Coca-Cola, e seu estilo virou sinônimo de uma era de consumo (Foto: Reprodução)

Situações praianas do lazer foram um dos temas que marcaram a trajetória de Rockwell. O legado gráfico de Rockwell comparece na direção de arte de “Roda-Gigante” (Foto: Reprodução)

Por isso mesmo, o desenho de produção de Santo Loquasto, a fotografia de Vittorio Storaro – ambos colaboradores habituais de Woody Allen – e a direção de arte de Miguel López-Castillo acertam quando se calcam nos ensolarados cartazes publicitários e de viagem dos anos 1950 para reproduzir, num primeiro momento, uma Coney Island supostamente para inglês ver e, imediatamente em seguida, revelá-la camp e suburbana, na dimensão exata dessas aspirações que giram, giram, giram, e nunca saem do lugar.

Cartazes de viagem para balneários idílicos como Acapulco, Califórnia, Flórida, Rio, Riviera Francesa, Havaí ou Costa Amalfitana também são inspiração para a estética do novo longa-metragem de Woody Allen, “Roda-Gigante” (Foto: Reprodução)

O aspecto solar dessa tipo de folheto publicitário de turismo, aliado ao estilo peculiar das ilustrações de Norman Rockwell, se converte em referência visual para a equipe de arte de “Roda-Gigante”, que se aproveita a aparência glamourizada dessas imagens para recriar uma Coney Island já em decadência, um balneário popularesco desde o seu surgimento. Essa impressão contribui no resultado para que o público possa se aperceber do quão a localidade representa o sonho americano que não deu certo (Foto: Reprodução)

A cartela de cores quase sempre solar desses cartazes de férias se reproduz na iluminação de verão que permeia toda a projeção de “Roda-Gigante” (Foto: Reprodução)

Em “Roda-Gigante”, a presença da publicidade e da sinalização são constantes, funcionando como uma moldura para personagens que estão à margem do consumo desenfreado da Era de Ouro (Foto: Divulgação)

Em tempo: a 20th Cenury Fox lançou em 1943 um musical ambientado em Coney Island, estrelado por Betty Grable, George Montgomery e o futuro Coringa da série de TV “Batman” Cesar Romero. Nessa época, auge do technicolor, o subúrbio de Nova York ainda não havia entrado em decadência (Foto: Reprodução)

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