Deliciosa produção luso-franco-austro-germânica de 2014 que chega agora aos cinemas brasileiros, Variações de Casanova“, (The Casanova Variations, de Michael Sturminger, Alfama Filmes e outros) tem como principal atrativo a presença de John Malkovich no papel do famoso escritor dublê de sedutor Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798). A ação se passa em seus dias finais quando, já setentão, se ressentia da ausência do furor de outrora, encafifado como bibliotecário no castelo de um nobre na Boêmia enquanto escreve sua autobiografia História da minha vida“, na qual narra ter se deitado com 122 mulheres. Façanha para a época, mas modesta hoje se comparada com esses tempos de individualidade absoluta aditivada por aplicativos de pegação.

Em “Variações de Casanova”, já em cartaz nos cinemas brasileiros após um atraso de três anos, John Malkovich vive o libertino escritor e bon vivant no ocaso da vida, quando encontra uma antigo interesse sexual, a agora madura escritora Elisa Van Der Recke, interpretada pela ótima atriz alemã Veronica Ferres (Foto: Divulgação)

Assista ao trailer oficial legendado (Divulgação): 

Eternizado por papeis como o do libertino Valmont de Ligações Perigosas” (Dangerous Liaisons, de Stephen Frears, 1988) e o ambicioso Gilbert Osmond de Retratos de uma mulher”  (The Portrait of a Lady, de Jane Campion, 1996, com uma Nicole Kidman pré-estrelato), faltava a Malkovich este papel que lhe cai como uma luva, já vivido por Alain Delon, Donald Sutherland, Marcello Mastroianni, Heath Ledger e Diego Luna.

Madame de Tourvel (Michele Pfeiffer) sob as artimanhas do diabólico Visconde de Valmont (John Malkovich) em “Ligações Perigosas”: personagem que levou o ator ao estrelato ressurge nas entrelinhas ou mencionado e cenas de “Variações de Casanova” nas quais a sedução – não importa se naturalmente causada pelo astro hollywoodiano ou minuciosamente engendrada por veneziano – é a tônica (Foto: Reprodução)

Em “Variações de Casanova”, um escritor devasso (John Malkovich) desgastado pela existência e quase o ocaso da vida tenta reencontrar a boa forma de conquistador ao se deparar com um flerte do passado na pele de Elisa Van Der Recke (Veronica Ferres), escritora que está interessada nos seus manuscritos biográficos (Foto: Divulgação)

Detentor de apenas uma meia-dúzia a mais de expressões faciais que Bruce Willis, Malkovich soube ao longo de três décadas se firmar como ator do cinemão com pecha de “maldito que extrapola os códigos”. Assim, ele deita e rola em papeis como esse porque o público já vai ao cinema afim de vê-lo, ainda que sempre interprete a si mesmo, tal que o ex-marido de Demi Moore. Mas, na disputa dos dois como “astro reconhecido pelo público como ótimo ator”, o eterno Visconde de Valmont dá uma senhora pernada em Willis.

O vigoroso barítono Florian Boesch interpreta Casanova nas cenas da adaptação teatral e que ele entoa a música de Mozart, mas também intercala co Malkovich passagens de alcova (Foto: Divulgação)

Ambicioso do ponto de vista narrativo, o longa mostra o embate entre o veneziano e a escritora Elisa Van Der Recke (1754-1833, vivida pela alemã Veronica Ferres, esplêndida!), ex-objeto das investidas do amoral que chega ao castelo do Conde de Waldstein-Wartenberg pronta para dar uma espiada na tal autobiografia recém-escrita. Van Der Recke também foi escritora de sucesso, admirada por integrantes da realeza como Catarina, a Grande, e autora de um livro sobre o Conde Cagliostro (1743-1795), ocultista e mágico de corte cuja reputação foi arranhada por ela.

Escritora que desfrutou da simpatia das cortes europeias, a alemã nascida em Dresden Elisa Van der Recke (interpretada pela também germânica Veronica Ferres) encontra nos manuscritos autobiográficos de Giacomo Casanova um prazer quase voyeurista, que se confunde com o encontro amoroso que teve com o veneziano quando ambos eram jovens e, talvez e por isso mesmo, com certo desejo de vingança (Foto: Divulgação)

A ação se passa parte numa montagem de época, outra parte encenada no Teatro São Carlos, em Lisboa, como uma ópera que traz o ator ao lado de monstros do bel-canto, com música executada pela Orchester Wiener Akademie.  Assim, o filme também conta as peripécias de Casanova e Van Der Recke nesta adaptação no palco (com música de Mozart, que inclui trechos de Don Giovanni“, entre outros), assim como inclui passagens dos bastidores, com Malkovich novamente fazendo o papel dele mesmo (ou do que se supõe ser ele mesmo), como em Quero ser John Malkovich“.

Erudição do furor: significativo componente de “Variações de Casanova”, a música encenada no Teatro São Carlos se reverbera pelas cenas de época recriadas à parte daquelas passadas no palco. Responsável por conduzir no fosso as envolventes composições de Wolfgang Amadeus Mozart nesta obra sobre Casanova encenada no palco, a Orchester Wiener Akademie é importante personagem nesta recriação do mito da sedução (Foto: Divulgação)

Em cenas bem dirigidas de “Variações de Casanova”, o barítono Florian Boesch (esq.) e o astro John Malkovich (dir.) contracenam no palco em passagens que levou Casanova da mera encenação teatral pra a ópera (Foto: Divulgação)

As transições da ação no palco para o filme de época são primorosas, revelando a maestria do diretor nesse filme de arte. E, na metalinguagem, a história também estabelece um curioso paralelo entre a sedução que Casanova causava ao engendrar seus planos mirabolantes para atingir seus objetivos sexuais e a atração que um astro das telas como John Malkovich pode despertar na plateia e em colegas de cena, quando deslocado de Hollywood para uma produção teatral europeia.

Como um alter ego de Casanova ou do Visconde de Valmont, John Malkovich in persona desperta a atração das colegas de elenco de “Variações de Casanova”, numa direta relação entre arte e vida (Foto: Divulgação)

Nesse âmbito, está dado o recado: se o libertino escritor se regozijava de não bisar mulheres na cama por ser insuportavelmente tediosa a repetição, o ator, em seu ofício, vive da repetição da fala, do gesto. Esse contraste, que poderia ter sido melhor explorado – aliado à qualidade da montagem e à interessante interseção entre cinema, teatro e ópera – já vale a ida ao cinema.

 

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