Era para ser uma espécie de redenção da Warner Bros./DC Comics para emplacar um filme de super-herói sem ficar à sombra das bem-sucedidas produções (mas com fórmula já começando a desgastar) da concorrente Disney/Marvel Studios. Mas a coisa não acontece assim. É como se o Superman fosse pegar impulso para voar e um espírito de porco (no caso o roteiro de David Ayer e do criador dos gibis, John Ostrander) segurasse o moço pela capa, arruinando o “para o alto e avante”. Essa é a sensação ao se assistir Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016), que estreia nesta quinta-feira (4/8) nos cinemas. O filme não é mal e até começa bem, mas se perde na história boboca, na linearidade opaca e no desenvolvimento esquemático dos personagens, subaproveitados arquetipicamente ao nível de Peppa, a porquinha.

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Esquadrão Suciida: versão cinematográfica deixa a desejar, mas tem suas qualidades. Entre elas, a gostosura de Margot Robbie (à esquerda), feita para provocar o público (Foto: Divulgação)

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Will Smith (segundo à esquerda), Margot Robbie (centro), Joel Kinnaman (segunda à direita) e Jay Hernandez (á direita) em papeis dos quadrinhos: abuso de clichês em “Esquadrão Suicida” (Foto: Divulgação)

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“Esquadrão Suicida”: em cartaz, longa-metragem explora o aspecto pop da cultura dos gibis, tentando ir na direção daquilo que “Deadpool” alcançou no início do ano (Foto: Divulgação)

Nos anos oitenta, Ostrander teve a feliz ideia de criar um time de super-heróis que fosse anti-herói. Para quem não sabe, a coisa funcionava assim: supervilões e assassinos da pior estirpe, vindos de diferentes títulos da editora e trancafiados numa espécie de Carandiru dos gibis – a penitenciaria Belle Reve (bons sonhos em francês) – eram recrutados por uma implacável agente federal, a avantajada Amanda Waller (Viola Davis no filme, impagável) para cometer toda espécie de tarefa suja a serviço dos Estados Unidos. Obviamente o charme estava tanto na mistura dessa escória quadrinesca da pior qualidade com o fato de que, enquanto marionetes do governo, eles se tornavam os mocinhos e quem os manipulava, teoricamente a mando de um “bem maior”, se revelava um escroque de oitava. O sucesso editorial de “Esquadrão Suicida” consistia justamente nesse cinismo bem humorado e, sobretudo, nessa quebra do paradigma maniqueísta típico dos comics.

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“Esquadrão Suicida” nos gibis: com Amanda Waller à frente, grupo formado por supervilões agora chega às telas de cinema (Foto: Reprodução)

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Viola Davis em “Esquadrão Suicida”: atriz consagrada – que já concorreu duas vezes ao Oscar, quatro vezes ao Globo de Ouro e ganhou o “Emmy” por “How to Get Away with Murder” em 2015 – é o maior trunfo do filme, mesmo ao lado do astro negro de maior bilheteria hoje, Will Smith (Foto: Divulgação)

Assista abaixo ao trailer oficial legendado (Divulgação): 


Levar para as telas esse insólito time pareceu (e é!) boa sacada, mas o inferno de demônios da DC Comics como Trigon, Etrigan e outras criaturas malignas está repleto de roteiristas, diretores e produtores de cinema bem intencionados que não têm a eficiência de um murro de esquerda do Batman. Vindo de filmes de ação com pitada supostamente cabeça como Os Reis da Rua” (Street Kings, 2008) e Corações de ferro” (Fury, 2014), David Ayer pareceu aos executivos da Warner boa opção para tocar uma produção supostamente urbanoide, grafite e quase filme B, mas com orçamento de gente grande. Se deu mal. Ele entende tanto de quadrinhos de super-herói quanto deve conhecer os desenhos mais antigos e menos populares da Hanna Barbera, tipo “As aventuras de Jambo e Ruivão”, “Matraca-trica e Fofoquinha” ou “Ricochete e Blaublau”.

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Margot Robbie com Arlequina em “Esquadrão Suicida”: aposta do diretor David Ayer em visual e interpretações pop (Foto: Divulgação)

Ainda assim, o filme tem suas qualidades. A estética ao mesmo tempo suja e MTV é um acerto, a direção de arte funciona, as caracterizações são ótimas, as piadinhas são divertidinhas quando não causam bocejo e Cara Delevingne com a bruxa Magia rouba cena. O público fashionista que assistir vai até esquecer que se trata de um pitéu do mundinho da moda  tentando um lugar ao sol no cinema.

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Das passarelas para a tela: aos poucos, a controversa Cara Delevingne vai ocupando seu espaço no cinema (Foto: Divulgação)

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De beldade da moda a bruxa das trevas: direto das campanhas de grifes, Cara Delevingne assume uma bruxa ancestral em “Esquadrão Suicida” (Foto: Divulgação)

Além dela, o filme aposta no eterno carisma de Will Smith fazendo o papel dele mesmo, como sempre. O ator é como um Bruce Willis versão negresco: monocórdico e capaz de decorar somente cinco ou seis expressões faciais. Mas usa as mesmas com uma competência única, esbanjando o mix de simpatia com um coquetel formado por altas doses de decarabolin e toneladas de whey proteyn . Tá bom, né?

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Em “Esquadrão Suicida” no papel do Pistoleiro, Will Smith faz mais do mesmo: o durão cracudão que tem pela prole o lado fraco (Foto: Divulgação)

Como a namorada do Coringa Arlequina, Margot Robbie rouba cena e fica óbvio que tudo foi criado em torno dela para ela aparecer. Não é à toa: a DC Comics planeja turbinar a personagem nos gibis com uma série de lançamentos nos próximos meses. Na contrapartida, nesta versão em carne e osso, personagens vitais no enredo dos quadrinhos como o Capitão Bumerangue (Jay Courtney) e Rick Flag (Joel Kinnaman, o novo Robocop) são tão espessos dramaturgicamente quanto uma folha de papel manteiga.

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Com Karen Fukuhara (Katana) ao fundo, Margot Robbie revela sua maior arma: engana-se quem pensou que ÁS se refere ao taco de basebol, e não ao belo par de melões sob a t-shirt (Foto: Divulgação)

Já o Coringa de Jared Leto funciona sim. Óbvio que foi midiática a escolha do dublê de ator e cantor pop para o papel, embarcando na onda de seu sucesso com Oscar de ‘Melhor Ator Coadjuvante’ por seu filme anterior (“Clube de Compras Dallas”, 2013, no papel de uma transexual portadora do HIV). E de ele causar arrepio nas garotinhas quando sobe nos palcos na pele do vocalista de 30 Seconds To Mars. Mas, a despeito dos seus olhos azuis de bom rapaz vertido em bad boy, Leto é esforçado e segura a insanidade do palhaço do crime nesta versão 3º milênio do vilão, ainda que em algumas cenas ele tenha ficado a cara do Macaulin Culkin.

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Imersão em “Esquadrão Suicida”: astro pop star Jared Leto fez de tudo para emular o Coringa dos quadrinhos em sua própria versão. No final das contas, o rapaz até conseguiu, mas ficou a cara do Macaulin Culkin (Foto: Divulgação)

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Blue eyes: Leto empresta sua loucura de astro da pop music para imprimir o devido ar de insanidade ao Coringa, seu mais recente papel no cinema (Foto: Divulgação)

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Cada um tem o make up que merece: de Cesar Romero na série de TV dos anos 1960 ao Coringa borrado de Heath Ledger na virada de milênio, passando pelo visual “enfant gaté demoníaco” de Jack Nicholson no clássico de Tim Burton, o Palhaço do Crime se ajusta aos novos tempos em cada versão cinematográfica (Foto: Reprodução)

Mas, que fique claro: Jared adora mesmo aparecer. E por isso mesmo talvez tenha sido demais a expectativa criada em seu torno durante as filmagens, amplamente explorada pelos publicistas: pode ter causado uma superestima prejudicial ao longa a mitologia formada em torno do ator mergulhando full time no personagem no backstage, a ponto de provocar sustos nos colegas de elenco. Um tanto forçada essa pretensa associação de Leto com antigos astros do Actor’s Studio (Brando, Dean, Newman e Steiger) que usavam o “Método” criado por Stalisnavski para imersão nos papeis.

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Cabelo de pomar orgânico: em meio ás filmagens de “Esquadrão Suicida”, Leto é flagrado em 2015 dando aquela pinta básica em Nova York, com direito a envergar óculos escuros para não ser reconhecido (Foto: Reprodução)

Mas, no final, mesmo alcançando seu devido quinhão de psicopatia para compor o Coringa, o ator precisa mesmo se curvar à Viola Davis que passa o rodo em todos, inclusive na cena em que contracena com Ben Affleck (Bruce Wayne). O longa é dela.

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Viola Davis encarna a anti-heroína Amanda Waller em “Esquadrão Suicida”, no shape mais recente dos quadrinhos, após a agente perder peso (Fotos: Divulgação)

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