Como se não bastasse, 2016 levou nesta noite de quarta-feira (28/12) Debbie Reynolds, lenda viva de Hollywood e estrela do clássico Cantando na Chuva” (Singing in the Rain, de Stanley Donen, MGM, 1952). Segundo seu filho Todd, ela teve um AVC, estava muito emocionada com a morte da filha – a também atriz Carrie Fischer, a Princesa Leia de Star Wars – no dia anterior e não resistiu.

Sua relação com filha, inclusive, nunca foi das melhores. Ela a tratava mal, cobrando-lhe postura carola e um comportamento anacrônico aos anos 1960/70, idealizando aquela forma de ser de “dona de casa ideal”. As turras entre as duas viraram um best-seller escrito pela jovem que, por sua vez, inspirou o longa de Mike Nichols Lembranças de Hollywood” (Postcards from the Edge, 1990), roteirizado pela própria Carrie, intrepretada por Meryl Streep. O papel equivalente ao de Debbie coube à outra dama das telas, Shirley MacLaine.

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Mamaezinha querida: Debbie reynolds encontra a filha Carrei Fisher numa premiação do SAG Awards há poucos anos, depois de as duas haverem se reconciliado (Foto: Reprodução)

Com formação teatral e vinda da Broadway, chegou ao cinema pronta. Representava a América wasp, foi garota-suéter. Debbie Reynolds era the girl next door, sintetizou a mulher branca classe média ascendente da Era Eisenhower, do crescimento econômico consolidado no Pós-Guerra, dos eletrodomésticos, liquidificadores, do aspirador de pó Ajax, da saia godê, da baquelita, do aparelho de telefone verde água, do sonho do carro próprio da família na garagem. De preferência, um rabo de peixe. Ela foi a essência do biquíni de bolinha amarelinha tão pequenininha desse mundinho do consumo cor-de-rosa que despontou nos anos 1950. I Love Lucy era Lucille Ball brincando de Debbie.

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Loura docinha do cinema – nos moldes de June Alysson e Ginger Rodgers -, Debbie Reynolds representou no cinema o papel de boa moça, que procurou levar também à vida real e tentou impor à filha Carrie Fisher (Foto: Reprodução)

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Bem comportada: quando se separou do cantor e apresentador de TV Eddie Fisher em 1958 – que perdeu para sua melhor amiga Liz Taylor -, Debbie Reynolds assumiu o papel de tão bem representou no cinema de “mulher do bem”. Eddie saiu do casamento com uma mão na frente e outra atrás e a ex-senhora Fisher ficou com tudo! (Foto: Reprodução)

ÁS homenageia a atriz – que teve seu maior papel real no final dos anos 1950, quando sua melhor amiga Elizabeth Taylor lhe roubou o marido, Eddie Fisher (pai de Carrie e Todd), polarizando a opinião mundial entre a morena fatal (a irresistível Liz, que depois trocaria o cantor por Richard Burton num tórrido caso amoroso no backstage de Cleópatra“) e a loura boazinha Debbie. Confira abaixo:

4th June 1957: American singing star Eddie Fisher and his wife, film star Debbie Reynolds at a press reception. Eddie Fisher is to appear at the London Palladium in mid-June. John Franks, Keystone, Getty Images

Em 1957, Debbie Reynolds e Eddie Fisher posam em uma coletica de imprensa. Casal-síntese da Era Eisenhower, a carreira dos dosi estava no auge e le se apresentaria no London Palladium pouco depois (Foto: Reprodução)

Três palavrinhas” (Three Words, 1950): Ela já havia feito duas pontas em filmes quando foi contratada pela MGM para atuar como coadjuvante, num papel pequeno, neste filme estrelado por Fred Astaire e Vera-Ellen.

Cantando na chuva” (Singing in the Rain, 1952): apontado pelos críticos um dos melhores filmes de todos os tempos, o musical de Stanley Donen retrata a própria Hollywood no momento em que o cinema mudo dá vez ao sonoro. Ao lado de Gene Kelly e Donald O’Connor, Debbie vira estrela e imprime sua marca na Meca do Cinema.

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Marca na história: a cena final de “Cantando na chuva” sob o temporal fake, com guarda-chuvas abertos, de Debbie ladeada por Genne Kelly (esq.) e Donald O’Connor (dir.) é um dos símbolos máximos da magia do cinema (Foto: Reprodução)

É deste que eu gosto” (I Love Melvin, 1953): a Metro tentou repetir o sucesso de “Cantando na chuva” neste musical estrelado por Debbie e o colega Donald O’Connor.

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Reynold e Donald O’Connor dançam na famosa cena na sala de estar, entre sofás e banquetas em “É deste que eu gosto” (Foto: Reprodução)

A Flor do Pântano (Tammy and the Bachelor, 1957): se “Cantando na chuva” representa o sucesso de uma equipe e do trio de atores, esta produção é o grande sucesso individual da carreira de Debbie. A atriz interpreta uma roceira que se apaixona por um homem sofisticado. A canção-título, Tammy“, no Brasil ganhou versão de Celly Campello.

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Êta, mundo bom! Em par romântico com o então galã Leslie Nielsen – que a partir dos anos 1980 viraria ator de comédias com sucessos como “Corra que a polícia vem aí” -, Debbie Reynolds interpreta a mocinha do interior Tammy em “A Flor do Pãntano” (1957), que ficou marcada pelo sucesso musical homônimo. Pouco depois, sua vida pessoal ficaria de pernas para o ar, marcada pelo rumoroso caso do seu marido Eddie com a bombshell Liz Taylor, que se consolava nos seus braços para se recuperar da morte do marido,  o produtor Michael Todd (Fotos: Reprodução)

Confira abaixo Debbie Reynolds interpretando “Tammy”, um enorme sucesso musical na segunda metade nos anos 1950 no mundo inteiro (Reprodução):  

O Papai Playboy (The Pleasure of His Company, 1961): a estrela é a filha do bon-vivant interpretado por Fred Astaire nessa comédia leve que marca o reencontro entre os dois, mas com Debbie agora elevada ao papel de estrela.

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Na virada dos sessenta, Debbie Reynolds ainda engrossava a nata de estrelas que faziam sucesso nas telas com musicais e comédias açucaradas como “O Papai Playboy”. Poucos anos depois, com a chegada dos The Beatles e o advento da contracultura, a Velha Hollywood seria “aposentada” quase à força e a carreira de Debbie entraria em declínio (Foto: Reprodução)

A inconquistável Molly (The Unsinkable Molly Brown, 1964): como mais uma caipira, dessa vez ela fica rica e embarca no Titanic, se tornando a insubmergível sobrevivente que testemunha o naufrágio num papel de uma personagem que realmente existiu, a qual, no clássico de James Cameron, foi vivida por Kathy Bates. O musical foi o canto do cisne da Era de Ouro dos musicais na Metro-Goldwyn-Mayer.

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Caipira que ganha uma fortuna, a Molly Brown interpretada por Debbie Reynolds em “A Inconquistável Molly” é real e a ela são creditadas duas façanhas: a fortuna que amealhou a partir do nada e a sobrevivência ao naufrágio do Titanic (Foto: Reprodução)

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Ao lado do galã Harve Presnell, Debbie Reynolds praticamente apaga a luz dos musicais ingênuos no cinemão, encerrando a Era de Ouro. A partir dali, o sucesso neste gênero caberia a outra fornada de atrizes como Julie Andrews, Barbra Streisand, Shirley MacLaine e Liza Minelli, em um outro contexto (Foto: Reprodução)

Será que ele é (In & Out, 1987):  Debbie interpreta a mãe carola de um professor gay incrustado num armário mais fechado que o de Nárnia, na pele de Kevin Kline. Nesta comédia de costumes que antecipa a questão da visibilidade, um ex-aluno que virou ator candidato ao Oscar (Matt Dillon) dedica o prêmio diante das câmeras ao seu professor afirmando que ele é homossexual. A vida o docente na pequena cidadezinha do interior  fica de pernas para o ar, e ele precisa lidar com a mídia e com a mãe. No final, tudo acaba em I Will Survive  e o professor se rende finalmente aos encantos de um repórter bonitão (Tom Selleck), sob a aprovação de Debbie.

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Com Wilford Brimley (centro) como seu par, uma Debbie Reynolds senhorinha volta às telas, após poucas participações esporádicas na década de noventa, em uma comédia de costumes que brinca com um assunto então na ordem do dia: sair do armário (Foto: Reprodução)

As Damas de Hollywood” (These Old Broads, 2001): neste filme para a TV, Debbie Reynolds contracena com outras três estrelas de outrora – Shirley MacLaine, Joan Collins e o ex-desafeto Elizabeth Taylor numa produção que brinca com o reencontro de quatro divas de um longa sessentista que se reencontram.

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Da esuerda para a direita, Debbie Reynolds, Shirley MacLaine, Jonathan Silverman, Elizabeth Taylor e Joan Collins no filme para a TV que brindou o público com a presença das quatro lendas de Hollywood, agora em idade avançada – “As Damas de Hollywood” (Foto: Reprodução)

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