Em 1965, Catherine Deneuve, então com 22 anos, precisava urgentemente de um vestido de noite para uma recepção em que seria apresentada à rainha Elizabeth II. Seu marido na época, o fotógrafo David Bailey, indicou-lhe a butique de Yves Saint Laurent, ainda na Rua Spontini. Dessa sessão de compras nasceria uma amizade profunda entre a emergente estrela do cinema francês e o futuro “rei” da alta costura parisiense e do prêt-à-porter que atravessaria quase quatro décadas. O resultado dessa união – que mistura afeto, moda e cinema e estava guardado numa propriedade que Deneuve mantém na Normandia, também colocada à venda – pode ser visitada e, principalmente, adquirida no leilão que a Christie’s Paris promoverá no auge da temporada dos desfiles de inverno. O acervo da estrela, musa e principal símbolo da “mulher Yves Saint Laurent” foi loteado em 130 vestidos de alta costura que serão leiloados no dia 24 deste mês, além de outros 170 itens, principalmente adereços, destinados a uma venda especial pela internet entre os dias 23 e 30 de janeiro.

Em plena Semana da Alta Costura de Paris, entre 19 e 24 de janeiro, a Christie’s colocará em leilão 300 peças do guarda-roupa de Catherine Deneuve acumuladas ao longo de quase 40 anos de amizade com o genial estilista Yves Saint Laurent (1936-2008), como este smoking que ela usou num evento no Lido ao lado de Yves nos idos de 1982 (Foto: Christie’s/ Divulgação)

Quase quatro décadas depois, o mesmo smoking em lã preta e camisa bordada vai a leilão com preço estimado entre 1000 e 2000 Euros (Fonte: Christie’s / Divulgação)

Este não é o primeiro encontro da Christie’s Paris com um acervo de Yves Saint Laurent. No início de 2009 o seu ex-companheiro Pierre Bergé colocou à venda na mesma casa de leilões uma fabulosa coleção de arte adquirida pelo casal ao longo de décadas e que apurou o valor recorde de 370 milhões de Euros. Do guarda-roupa de Deneuve não se espera em absoluto que saiam cifras polpudas, pois a faixa de preços dos 300 itens catalogados para leilão oscila entre 100 e 5000 Euros.

Outro modelito icônico guardado no acervo de Deneuve a ser apregoado é este vestido curto de noite estilo “charleston”, bordado com cristais e pérolas na cor malva da coleção primavera-verão de 1969 com valor estimado entre 3000 e 5000 Euros. Hitchcock, obcecado por louras geladas, parece ter gostado do que viu… (Foto: Christie’s / Divulgação)

Como pisar no red carpet do Festival de Cannes sem estar garantida com um modelito Yves Saint Laurent? Foi o que Deneuve pensou quando compareceu à edição de 1997 do evento a bordo deste longo esvoaçante (Foto: Christie’s / Divulgação)

Depois de arrasar na Croisette, este vestido de noite drapeado em musselina de seda irisada da coleção primavera-verão de 1997 poderá ser arrematado por algo entre 2000 e 3000 Euros (Foto: Christie’s / Divulgação)

Em 1993, Catherine Deneuve compareceu à cerimônia de premiação do Globo de Ouro a fim de prestigiar o épico “Indochina” que ela estrelava e que concorria – e venceria – na categoria de ‘Melhor Filme Estrangeiro’. Na ocasião, ela envergou este maravilhoso conjunto em gazar de seda da coleção primavera-verão de 1989. Olha a pechincha: entre 1000 e 1500 Euros (Foto: Christie’s / Divulgação)

Outro modelito a preço módico (entre 1000 e 1500 Euros) que será arrematado a tapas é este vestido em veludo de seda impresso em pele de leopardo da coleção outono-inverno 1992-1993 (Foto: Christie’s / Divulgação)

Este momento de dispersão do “Acervo Catherine Deneuve” é uma oportunidade única para percebermos como o processo criativo do estilista nascido na Argélia de pais franceses passava por imersões profundas no mundo do cinema de onde ele não só se alimentava de atmosferas, climas, emoções, luzes, formas, linhas e texturas, como também de lá retirava ensinamentos sobre como penetrar na psique profunda das mulheres do século vinte, divididas entre as promessas do amor e as inéditas possibilidades de emancipação, como os filmes noirs e os women pictures da década de 1940 já vislumbravam.

Marlene Dietrich, Joan Crawford, Barbara Stanwyck, Carmen Miranda – a quem Saint Laurent adorava imitar –, Maria Casarès, Brigitte Bardot, Mylène Demongeot e, claro, Catherine Deneuve foram algumas de suas magas que o ajudaram a entender a complexidade, as contradições e os desejos da alma humana: ora são mulheres fortes ora vulneráveis e sofredoras, ora andróginas ora femininas, ora fúteis ora fundamentais. Mas a frase que leva a marca Yves Saint Laurent de amor à sua profissão é a clássica “a roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para aquelas que não tiveram essa felicidade, eu estou aqui”.

O POLÊMICO MERGULHO DE YVES SAINT LAURENT NA HOLLYWOOD DOS ANOS 1940:

Na Semana de Alta Costura de 1971, Yves Saint Laurent lança uma verdadeira bomba no mundo fashion parisiense. Contrariando a triunfante onda futurista de André Courrèges, YSL vai buscar no guarda-roupa da sua mãe e nos seus filmes prediletos dos anos 1940 o ponto de partida para a sua primeira grande coleção – a “Quarenta”. No calor do escândalo, a coleção foi massacrada pela imprensa que a qualificou com termos como “pilhagem”, “pastiche”. “kitsch” e “horrorosa”, para hoje ser considerada o momento inaugural do vintage, do retrô ou do revival como vocabulários da moda. Confira:

Yves Saint Laurent sabia que a sua releitura caótica dos anos 1940 na coleção de 1971 iria escandalizar os críticos, e se divertia com isso. Mas também estava seguro de que ela triunfaria nas ruas, num momento de exacerbação do individualismo, de recombinações estilísticas, de inovações e de triunfo da pop art (Fonte: Reprodução)

O fabuloso casaco de peles tingido de verde da imagem anterior remete imediatamente ao look extravagante de Joan Crawford no melodrama noirAlma em suplício” (1945) em que ela faz uma mulher de origem humilde que emerge socialmente após duros anos de trabalho, mas é traída pelo amante e sua própria filha (Fonte: Reprodução)

Outra fonte de inspiração para a coleção “Quarenta” foi a paradigmática obra-prima noirPacto de sangue” (1944), estrelada por uma diabólica Barbara Stanwyck que morre abraçada ao amante e comparsa que lhe dispara um tiro à queima-roupa. Yves Saint Laurent sabia que a sua coleção mais cinematográfica era uma piada e que exatamente por isso abriria campos referenciais e criativos inesgotáveis (Fonte: Reprodução)

A coleção “Quarenta” significou o fim dos conjuntos unissex e dos corpo andróginos da era hippie, restaurando o glamour sombrio dos filmes de Hollywood dos anos 1940 sob uma leitura pop (Fonte: Museu Yves Saint Laurent / Divulgação)

CASAMENTO DE YVES SAINT LAURENT COM A SUA GRANDE PAIXÃO: O CINEMA

A aliança entre deusas da tela e grandes maisons europeias já estava estabelecida desde a afirmação do star system nos anos 1920. Mas a partir da década de 1950, com a prosperidade do pós-guerra, ela tornou-se uma indispensável estratégia de marketing de visibilidade para os dois lados envolvidos como ilustram as célebres parcerias Catherine Deneuve-Yves Saint Laurent, Audrey Hepburn-Hubert de Givenchy ou Elizabeth Taylor-Valentino. O caso de Yves Saint Laurent é o mais emblemático porque estando a serviço de diretores geniais como Luis Buñuel e François Truffaut ele não só introduziu novos paradigmas na moda como também atuou como um verdadeiro figurinista, vestindo a personagem e não a atriz Catherine Deneuve. Acompanhe:

SÉVERINE, A BURGUESA MASOQUISTA DE “A BELA DA TARDE” (1967):

Para a biógrafa Marie-Dominique Lelièvre, neste clássico surrealista de Buñuel Yves Saint Laurent construiu para Séverine “um kit perfeito da burguesa escrava de seus instintos” e ávida pelo seu próprio aviltamento. O sobretudo cinza escuro militar abotoado até o pescoço e os sapatos baixos de verniz expressam sua frigidez impecável que será desmontada logo em seguida, na primeira tarde no prostíbulo de luxo em que implora para trabalhar (Fonte: Reprodução)

Para a famosa sequência do estupro sonhado por Séverine, na abertura do filme, Saint Laurent criou este conjunto vermelho cuja camisa foi unida com velcros ocultos para produzir o efeito de carne violentamente dilacerada (Fonte: Reprodução)

O look da sequência final do filme atua como o anúncio de um luto decoroso, austero e reprimido: cabelos escrupulosamente esculpidos num coque recatado, vestido em lã penteada preta, com gola e punhos em cetim de seda fechados por pérolas delicadas (Fonte: Reprodução)

JULIE, A BITCH NOIR DE “A SEREIA DO MISSISSIPPI” (1969):

Deneuve indicou Saint Laurent a François Truffaut para vesti-la nesta homenagem aos filmes noirs, mas ambientado num luxuriante cenário tropical. Deneuve faz o papel de uma mulher misteriosa e inescrupulosa que desembarca nas Ilhas Reunião, perdidas no meio do Oceano Índico, e seduz o ingênuo e riquíssimo herdeiro de uma plantação de tabaco (Jean-Paul Belmondo). Nesta pose típica dos antigos filmes policiais, Deneuve veste uma blusa chemisier e saia reta que remete aos anos 1940 (Fonte: Reprodução)

A ambientação nos trópicos permitiu a Saint Laurent equipar a aventureira personagem de Deneuve com o seu consagrado conjunto safári, adicionado de chapéu de palha, celebrizado dois anos antes num ensaio fotográfico com a top model Veruschka (Fonte: Reprodução)

Serviço

Leilão “Catherine Deneuve-Yves Saint Laurent, de mode et d’amitié

Christie’s, 9 avenue Matignon, Paris (VIII°)

Exposição: de 19 a 24 de janeiro 2019

Leilão: 24 de janeiro 2019, às 14h30

Vendas pela internet acessíveis de 23 a 30 de janeiro 2019 pelo site www.christies.com

Palestra de Laurence Benaïm sobre Yves Saint Laurent na sede da Christie’s: 22 de janeiro, às 18h30

 

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