O nome original (“The in Ghost  in the Shell“, em tradução literal ‘o fantasma na concha’) dá a exata dimensão que o título em português não alcança com A vigilante do amanhã (de Rupert  Sanders, Paramount, 2017), já em cartaz nos cinemas. Como uma espécie de Robocop cyberpunk, Scarlett Johansson é uma moça que após sofrer um terrível acidente tem sua mente transplantada para um corpo artificial que melhora notoriamente suas habilidades humanas e passa a integrar uma seção do governo japa dedicada a combater o terrorismo. Mas óbvio que, neste futuro próximo, a linha que separa os mocinhos e os bandidos consegue ser tão complexa quanto nos tempos atuais.

Em “A vigilante do amanhã: ghost in the shell”, a agente vivida por Scarlett Johansson lida com a reposição das partes do seu corpo artificial com o mesmo descuido com que lidamos hoje em dia com o sucessivo descarte e substituição dos equipamentos eletrônicos. A única diferença é que, cada vz que a moça precisa trocar um pedaço da sua carcaça cibernética, ela acaba na mesa de operação (Foto: Divulgação)

“A vigilante do amanhã: ghost in the shell”: versão live action lançada agora acompanha o sucesso editorial da graphic novel japonesa e do anime produzido em 1995 (Foto: Divulgação)

O material promocional de “A vigilante do amanhã: ghost in the shell” procura transpirar a efervescência visual dos traços de no mangá de Masamune Shirow que deu origem ao filme. Parte das cenas crueis, com lutas coreografadas habilmente, evocam a estética da violência que inunda os mangás. (Foto: Divulgação)

A partir do mangá homônimo de 1989 escrito e ilustrado pelo japonês Masamune Shirow, o filme adapta com louvor a narrativa, fazendo as concessões típicas que Hollywood impõe sem que haja perda do conteúdo. Exemplo: a mocinha original nipônica agora dá vez à boa estampa de Scarlett, atriz competente que agrada em cheio a ótimos diretores de atores como Woody Allen, mas que, desde sua participação nos blockbusters da Marvel/Disney como a Viúva Negra e em Lucy” (idem, de Luc Besson, 2014), vem provando que ela é a Milla Jovovich que deu certo: também uma bela ex-modelo de aparência europeia exótica que enveredou por filmes de ação. Com um agravante: ao contrário da ucraniana, ela consegue alternar filmes-pipoca com “produções sérias”, encorpando a cereja do bolo das grandes estrelas do cinemão norte-americano.

Com carreira iniciada nos anos 1990, mas fama conquistada na virada do milênio, Scarlett Johansson se notabilizou em produções de diretores renomados como Woody Allen (“Match Point”) e Brian de Palma (“A Dália Negra”), mas, desde quando incorporou a Viúva Negra na saga do Homem de Ferro/Os Vingadores, anda se dedicando a um filão altamente lucrativo: os blockbusters. Acabou sendo a escolhida para protagonizar a Major de “The Ghost in the Shell”, personagem  originalmente de etnia japonesa (Foto: Reprodução)

A atriz preciso passar por um processo de caracterização que lhe deixou com os cabelos curtinhos e pretos, mais próximos do que se espera de uma mocinha japonesa, como no anime de 1995 “The Ghost in the Shell”, sucesso de animação que serviu de inspiração para a o diretor Rupert Sanders agora (Foto: Reprodução)

Com um roteiro bem amarrado e um visual deslumbrante, o longa-metragem lida com a questão do exagero tão presente hoje em dia numa sociedade consumista, onde tudo pode ser adquirido em excesso e igualmente descartado na velocidade da luz, inclusive as próteses e implantes inseridos nos corpos e mentes a fim de aditivar as capacidades humanas. Aliás, como já acontece hoje com o sem-número de gadgets eletrônicos e downloads de aplicativos que transformam nossas vidas numa existência multi telêmica, de aplicativos abertos aleatoriamente ao bel-prazer.

Em “A vigilante do amanhã: ghost in the shell”, a protagonista se depara com mentes humanas conectadas em conjunto pelo vilão, como uma rede de computadores (Foto: Divulgação)

Um dos pontos altos de “A vigilante do amanhã: ghost in the shell” e a maquiagem. Os efeitos de caracterização são de ponta e conseguem superar até mesmo exemplares de primeiríssima linha em sagas como “Star Wars” e “Star Trek”, que já colecionam prêmios da categoria há décadas (Foto: Divulgação)

A gueixa-robô apresentada numa das sequências iniciais de “A vigilante do amanhã: ghost in the shell” é um dos exemplos máximos da excelência na combinação entre maquiagem e efeitos digitais apresentados no longa (Foto: Divulgação)

Ao longo da projeção, são inevitáveis as comparações desse futuro (não tão idílico, mas opulento sob vários aspectos) com o lifestyle atual, quando mortes sob encomenda, o furto de memórias, as corriqueiras reposições de partes do corpo, substituições em série derivadas da obsolescência programadas e realidades fake soam como metáfora para amizades descartadas com um simples bloqueio de Facebook ou uma exclusão no Instagram, a invenção de nomes que não existem nos RGs, o lifting facial dos Photoshops, a apropriação de fatos de outrem e a subtração de aspectos suas personalidades. Todos, índices do quanto a existência nas mídias digitais se tornou propaganda enganosa neste início de era.

Nesse âmbito, os quadrinhos originais de Shirow anteciparam já no final dos oitenta esse descarte de pessoas e o deletar de coisas que se tornariams marcas da aurora do século 21. Obviamente, ali as referências à Blade Runner (1982) já estão visíveis, inclusive na interpretação visual de uma Tóquio futurista que lembra muito a Los Angeles dos replicantes. Com um único senão: se o clássico de Ridley Scott antecipou a globalização nas telas, já é realidade  o multiculturalismo somado à tecnologia digital de “A vigilante do amanhã” .

Repleta de publicidades na forma hologramas gigantescos que extrapolam as empenas dos prédios, a Tóquio de “A vigilante do amanhã: ghost in the shell” em muito se assemelha à realidade estética da metrópole poluída e enevoada de “Blade Runner” (Foto: Divulgação)

Realizado 35 anos antes de “A vigilante do amanhã: ghost in the shell”,e considerado o filme que consolidou a carreira de um Harrison Ford oriundo de “Star Wars”, “Blade Runner – o caçadoe de androides” impressionou o público da época com sua visão de megalópole global tomada pela publicidade virtual, numa época em que o mundo real ainda era analógico. Curiosamente, o público agora se prepara para assistir a sua tardia continuação – “Blade Runner 2049”, estrelada pelo mesmo Ford e por Ryan Gosling, que estreia nos cinemas ainda em 2017 (Foto: Reprodução)

Confira o trailer oficial abaixo (Divulgação):

Nesse caldeirão imagético, estão presentes ainda no roteiro elementos de outras obras do autor de “Blade Runner”, Philip K. Dick (1928-9182), como O Vingador do Futuro” (“Total Recall“) e Minority Report“, assim como alusões a William Gibson (“Johnny Mnemonic“) e até a Matrix“, Eu, robô“,Ex-Machina: instinto artificial“, “Robocop e o próprio Lucy.

E, em tempo de multietnicidade, o elenco de nacionalidades variadas já denota aquilo que Donald Trump gostaria de frear com muros imaginários ou reais, mas que não será possível: neste longa estrelado por uma noivaorquina filha de mãe judia e pai dinamarquês, convivem atores japoneses, australianos, ganenses, norte-americanos, singapurenses, britânicos, ingleses de ascendência curda e até uma francesa da gema, Juliette Binoche.

Trunfo no elenco de “A vigilante do amanhã: ghost in the shell”, Juliette Bonoche anda ultimamente se aventurando pelos blockbusters, fato impensável até bem pouco tempo atrás (Foto: Divulgação)

Hoje com 53 anos e delegando os papeis de mocinha à sua substituta mais jovem – Marion Cottilard é a bola da vez –, Binoche continua alternado sua presença em filmes europeus e hollywoodianos de responsa, mas parece agora ter sido descoberta como uma espécie  talismã que imprime respeitabilidade cênica a produções comerciais como Godzilla (2014) e agora a “A vigilante do amanhã”.  Um futuro de carreira que certamente não é cibernético como o dessa realização, mas que pode se tornar um sopro de espírito na casca de produções comerciais norte-americanas, como já aconteceu com a trajetória de outros astros e estrelas franceses do passado, como Charles Boyer, Maurice Chevalier, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve e Gerard Dépardieu.

O cartaz da versão anime de “The Ghost in the Shell” (1995) revela a tropa de elite da organização que serve ao primeiro-ministro japonês dentro do mote principal da narrativa concebida por Shirow: a naturalidade com que próteses e extensões artificiais das funções corporais se tornariam corriqueiras num mundo dominado pela tecnociência (Foto: Reprodução)

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