Ele adentra o palco do Vivo Rio, escolhido para iniciar a turnê nacional de “Bloco na rua“, seu mais novo espetáculo. A casa lotada vem abaixo, reconhece Ney Matogrosso pelo corpo, pelo gestual. Mas estranha seu rosto inteiramente coberto, arrematando o look criado por Lino Villaventura que o faz se assemelhar a uma criatura aquática, tipo “A forma da água“, impressa nas nervuras, recortes e sobreposições que evocam guelras, em malha metálica finíssima dourada. A fusão de identidades está ali: a do cantor, a do designer, amalgamadas numa presença única.

Ney Matogrosso por Lino Villaventura em “Bloco na rua” (Foto: Ás na Manga)

Evidentemente Ney vai performar. Sem que precisasse do rufar de tambores de um circo, daqueles que prenunciam um momento de suspense, a cena dá sequência com direito aos mesmos corações apertados de quem vislumbra um salto mortal de trapezista. Sob uma saraivada de aplausos e gritos que vão de “gostoso” a “maravilhoso”, o artista  puxa o zíper pervie que sustenta a tal máscara ao completo, que cai para trás como um capuz de um hoodie. Seu rosto vem: olhos marcados de preto, como as antigas estrelas dos primórdios do star system, Theda Bara ou Pola Negri, ou ainda as messalinas e teodoras que lhes serviram de matrizes. Os traços fortes da onde brotam o nariz e a boca inconfundíveis, por sua vez, podem trazer à memória Quentin Crisp (1908-1999), o escritor inglês que, de prostituto nas ruas e modelo vivo nas universidades, alçou a fama no palco virando ídolo queer tanto na Corte de Saint James quanto na América.

Foto: Ney Matogrosso / Instagram

Prestes a celebrar 78 anos em 1º de agosto, a semelhança de Ney com o britânico é inequívoca, com uma diferença: se Crisp compôs com as décadas o carão de tia velha, Ney mantém o frescor que ultrapassa o tempo tal qual um quadro de Klimt, concebido durante a Secessão Vienense, mas que poderia perfeitamente estar na parede da casa de um jovem pintor. Em menos de dois minutos de show fica claro que a parceria entre o intérprete e o estilista está firmada.

Ney Matogrosso por Lino Villaventura em “Bloco na rua”  (Foto: Ás na Manga)

“Já nos namorávamos há tempos, já era para a gente ter se encontrado no palco. Mas houve alguns desencontros. Estranhava o fato de Ney ser contido fora do showbizz. Demorei um pouco a perceber que quando ele simplesmente diz ‘interessante’, está gostando muito”, revela um Lino virginiano com ascendente e leão acerca de Ney, leão com ascendente e leão. É muito planeta em leão, só falta Alfa Centauri, óbvio.

Ney Matogrosso por Lino Villaventura em “Bloco na rua”  (Foto: Ás na Manga)

Para o criador fashion, trabalhar com Ney é um grato desafio: “Sua identidade visual é tão forte quanto a musical. Além de tudo o que ele representa nesses mais de 45 anos de percurso, foi preciso muito peito para em plena ditadura Ney ser Ney”.

Lino reforça o caráter estoico da personalidade do artista: “Falei para ele que o figurino era bem seco, mesmo para alguém que sempre esteve em forma como ele.  Quando vi, ele havia secado mais ainda porque é disciplinadíssimo. Levei um susto e até brinquei: ‘Não é para você comer só uma ervilha. Assim você vai pifar’ Pensa que ele ouviu? Olha, ele se exercita diariamente, é bastante focado”, se diverte o designer, para completar sua visão sobre o mito: “No meu desfile, na SPFW em outubro, ele estava lá. Foi burburinho. Foi direto para o backstage. Na hora do desfile, quando a assessora foi conduzi-lo à primeira fila, ele quis sentar na terceira. Falei para ele: ‘Você quer causar, hein? Quer que a imprensa diga que te botei na fila de trás’. Não é?”, ri o paraense.

Ney Matogrosso por Lino Villaventura em “Bloco na rua”  (Foto: Ás na Manga)

As trajetórias de um e do outro, numa certa perspectiva, convergem: ambos são artistas com personalidades fortes, únicos nos seus campos. Peculiares até a raiz do cabelo. No figurino, Lino, que geralmente cria dele mesmo para depois ver eclodirem das entranhas as referências, fala en passant de elementos que poderiam compor o famigerado mood board, caso se detivesse nesse tipo de expediente fácil: “Claro que tem Klimt, tem Nijinsky, Les Ballets Russes, rola até Schapiro [Miriam, pintora e escultora]’. Olhando de fora, é possível perceber, no caldeirão vulcânico dessa parceria, até mesmo uma pitada, nesse prato sem receita pré-concebida, dos personagens mágicos de um onírico Guillermo Del Toro ou da direção de arte de “Duna“, o clássico sci-fi de Frank Herbert transformado em película por David Lynch.

Foto: Ney Matogrosso / Instagram

Toda efervescência não isenta as particularidades de cada um dos criadores,beirando o pitoresco. “Criei uma capa para ele brincar; ele não usou ainda. Fiz um segundo look que está lá, na arara.Vamos ver: não sei se ele vai incorporar ao espetáculo”, revela Lino, mostrando em primeiríssima mão uma outra cabeça, toda em negro. Luxo define.

Por sua vez Ney Matogrosso revela ao ÁS sua percepção sensorial sobre o figurino, que flerta com a modernidade de Lino: “Me sinto como se tivesse descido de uma nave”, devaneia…

Foto: Ney Matogrosso / Instagram

“Respeitei sua identidade, mas atualizei a estética. Ele queria que eu usasse uns tecidos em paetês, tipo de material que não curto muito, não costuma ser a cara do meu trabalho. Ney falou: ‘Mas, pô, trouxe da Suíça!’. Aí, peguei aquele que me pareceu mais bacana, mas tratei logo de imprimir um print em preto e vermelho por cima. Mudei tudo”, conta com jeito de garoto arteiro. Por outro lado, Ney queria pegar uma peça de acervo do estilista: “Quero cortar, verter num casaco”, disse, segundo Lino. Claro que não rolou.

Em cena, emoldurado por um jogo de luzes geométrico que valoriza pinos e pontos de fuga e por projeções que apresentam de imagens de favela a revoada de borboletas, de grafismos que lembram hemáceas à arte pré-colombiana, da lua de sangue à nebulosas, Ney inicia os trabalhos, dourando à frente dos sete músicos, todos em preto.

Ney Matogrosso por Lino Villaventura em “Bloco na rua”  (Foto: Ás na Manga)

Com ele não tem jogo, não há espaço para mimimi. Está na pista e pronto: manda direto “Eu quero é botar meu bloco na rua“, de Sergio Sampaio, que dá nome ao show, para emendar “Jardins da Babilônia“, de Rita Lee. Em seguida, tasca “Mais feliz“, de Adriana Calcanhoto, e mais adiante, deslumbra com “Pavão Misterioso“, de Ednardo. Um pouco depois, é a vez de “Yolanda“, do Chico. Nessa hora, sentado na área vip, bem no gargarejo, é possível perceber uma lágrima descer pelo rosto de um Lino notadamente emocionado. O lirismo é quebrado com humor: o gogó privilegiado de Ney, com extensão e timbre que permanecem imutáveis, entoa uma faceira “O fim do mundo“, de Paulinho Moska” numa levada meio Dreamteam do Passinho. E assim o moço vai levando até chegar ao ápice com o standardSangue Latino“. Não poderia ser mais emblemático esse hit para ilustrar a parceria de sucesso entre Ney e Lino…

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