*Por Lucas Montedonio

Quem nunca imaginou assassinar seu chefe na base do cianureto ou mesmo com uma machadada na cabeça? Por isso mesmo, está fazendo sucesso no Rio a versão brasileira da comédia musical ‘Como Eliminar Seu Chefe’ (“Nine to Five” no original, menção ao expediente de uma jornada de trabalho), hilariante encenação da Broadway inspirada no filme homônimo de 1980 estrelado por Jane Fonda, Lily Tomlin, Dolly Parton e Dabney Coleman. Dando vazão à sua verve investigativa, ÁS andou circulando nesta semana pelo Teatro Carlos Gomes, onde a peça é exibida, para conferir de perto o badalo, tanto no palco quanto no foyer, e ainda levantar a seguinte lebre junto à classe artística: “Que tipo de chefe você eliminaria da sua vida e com que arma?”. Hum,  ficou chocado? Bom, a ideia é essa e as respostas foram reveladoras, de famosos como Miguel Falabella e a impagável atriz e cantora Gottsha (que está no elenco) à criaturas menos conhecidas, mas nem por isso menos diabólicas. Confira abaixo e um aviso: não faça nada disso no seu ambiente de trabalho!

Compenetradíssimo, Miguel Falabella se autoimolaria com requintes de gourmet zen. Ele mesmo esclarece: “Eu mesmo. Me suicidaria tomando um delicioso chá envenenado.” Como assim, Miguel?! De que marca? A tradicional Twinings, Celestial ou a argentina La Virginia? “Tem uma hora que a gente não aguenta mais nada disso”, manda na lata.  “Mas você é um chefe tão ruim assim?”, ÁS mete lenha na fogueira. Ele não se faz de rogado: “Pergunte a quem trabalha comigo e eles vão dizer”, compartilha ao lado de um casal de amigos, que cai na gargalhada.

Adriana Bombom é maléfica! E até vingativa. E nada de pensar que a moça cairia no lugar comum de fazer um trocadinho com seu nome artístico oferecendo trufas batizadas. Ela apela mesmo para o imaginário gay: “Colocaria um ‘boa noite cinderela’ no drinque de um chefe que fosse muito pentelho e ficasse pegando no pé. Já sei! Um promoter! Menino, vou te falar, tem uns que são tãoooo chatos para caraca, mermão. Se acham donos da boate (e não são!) e deixam a galera esperando horas na porta. Um saco!”, brinca ostentando o carão para foto.

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Para Adriana Bombom, é melhor imputar um “Boa Noite, Cinderella” no chefinho não tão querido do que sujar as unhas de acrilgel com sangue (Foto: Lucas Montedonio)

Exuberante como um pavão de cauda aberta atrás de um pé de amoras selvagens, Gottsha rouba a cena no papel da vaseliníssima puxa-saco do chefe. Mas, na hora de conversar com o ÁS, a divine é categorica: “Mato um boss que seja bem mala, chato, do tipo que não permite nada! Esse tem que ser eliminado enforcado!”, ri, enquanto é assediada pelos colegas e imprensa.

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Gottsha vai ao Velho Oeste e dá cabo do chefe usando o método clássico para matar fora-da-lei: a forca! (Foto: Divulgação)

A “linda e maravilhosa” (como se autodefiniu, brincando, [e concordamos completamente]), Késia Estacio, que participou do The Voice Brasil, fica de saia justa na hora de confrontada com o pior de sua persona: “Não posso falar, produção! (risos) Mas iria me defender no palco, sabe? A minha arma seria o meu canto! Ah, e em um número emblemático!”, planeja a beldade, se vendo no centerstage sob um único holofote e soltando o vozeirão.

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Canto da sereia: Késia Estácio usa o próprio gogó para estourar tímpano de chefe bagaceira (Foto: Lucas Montedonio)

Querido do meio, Diogo Vilela marcou presença e já prestigiou a produção musical, despertando atenção. Mas se desculpou por não oferecer uma resposta mais criativa, dizendo que “esse é um assunto muito sério”, desenvolvendo: “Nunca tive chefe. Só diretor, e diretor não é chefe, porquê no teatro é diferente. Só quem atua sabe. Enfim, mas os chefes corruptos são os que deveriam ser eliminados. E de uma forma muito simples: tirando-os de prática!”, adverte demonstrando toda sua categoria.

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Classudão, Diogo Vilela opta por eliminar somente chefes corruptos que nada contribuem para um bem-estar melhor. De que forma? Tirando-os da ribalta! (Foto: Divulgação)

Uma das intérpretes favoritas de Ary Barroso, a cantora-veteraníssima Luciene Franco elegantizou a lista de entrevistados e ensina que truque bom é ser safo tanto na defensiva quanto ofensiva: “Fui chefe há mais de 30 anos, amor. Só espero que ninguém tenha pensado em me eliminar! (risos). Porém, a arma que todos devemos usar é a cabeça. Criando, com inteligência.”, declara por experiência própria.

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Vetarana do proscênio, Luciene Franco já foi chefe e espera que ninguém jamais sequer tenha imaginado dar cabo dela (Foto: Lucas Montedonio)

Vilão no plôt fazendo o papel que foi vivido com garra por Dabney Coleman na telona, Marcos Breda mostra na peça como um chefe pode ser mais odiado que a presidente do Brasil. Ele é enfático: “Eliminaria os chefes que confundem hierarquia com sadomasoquismo. Sexismo, humilhação, prepotência… Iria, pura e simplesmente, seguir meu rumo, partir, ir embora e deixar essa criatura no limbo, pois não preciso de gente assim. Me demitiria com certeza!”, conclui, admitindo contudo que tomaria tal postura, “caso não precisasse desesperadamente do emprego”. Moço esperto. Trabalho nunca deve tirar nosso prazer de viver, mas também é preciso ter estômago quando se depende dele.

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Marcos Breda daria cartão vermelho a si próprio e sairia de cena num emprego no qual o chefe fosse sadô: “Tiraria meu time de campo e condenaria o superior ao mais repleto esquecimento” (Foto: Divulgação)

Ator, cantor e bailarino no espetáculo, Leandro Massaferri arrasa nos solos e coreôs, arrancando palmas espontâneas da platéia. Doçura. Na hora de se vingar de um chefe pitbull, o rapaz segue por uma linha, digamos, superior: “Sei bem como contra-atacar chefes ignorantes e abusados, do tipo que não tem noção daquilo que está fazendo. Utilizo a melhor arma: sabedoria”, revela, em meio aos (muitos) elogios dos que o cumprimentaram.

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Leandro Massaferri faz o fino e revidaria na base da lascívia esperta se seu chefe fosse implacável e intratável (Foto: Lucas Montedonio)

Veterano do cinema e apresentador do clássico TV showDocumento Especial“, transmitido pela extinta TV Manchete nos anos 1980/1990, Roberto Maya não poupa palavra e confessa um suposto crime contra o patrão com toques almodovarianos: “Com um punhal. Bem no coração”, especifica passional, simulando no próprio peito como o golpe deveria ser executado. Mas, quem merece tal assassinato, Roberto? Ele brinca, porém sério, quase como um lascivo algoz de ‘Game of Thrones’ vislumbra o final de suas vítimas: “Não posso revelar o alvo, pois estou planejando ainda. Inclusive, estou me escondendo aqui nesse teatro; posso ter que fugir a qualquer momento”, expõe seus planos maquiavélicos enquanto é reprovado pela própria esposa. Contudo, o ator contesta a cara-metade: “Mas, querida, sou um marginal atualmente. Somos brasileiros, logo, completamente envolvidos com o crime’, polemiza. “É algo perfeitamente natural e aceitável em nosso país”, completa enquanto carinhosamente tranquiliza a mulher que revira os olhos ao ouvir esta inegável verdade, nua e crua.

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Tipo entusiasta de bolero: Roberto Maya seria capaz de enterrar fundo uma adaga do peito do seu desafeto no trabalho, se confessando “criminoso em um país onde todos são marginais” (Foto: Lucas Montedonio)

Poderosa, a sócia e produtora do espetáculo Renata Borges recebe todos com toda simpatia, mesmo sendo chefe nesta empreitada teatral. Depois de desejar bom espetáculo e oferecer sorrisos mil, a loura se diz revoltada com os políticos, ao invés de um mero chefinho: “Atualmente, eliminaria vários, principalmente no Congresso. Eles não se dizem ‘chefes do Brasil’. Então, faça-me rir. A arma seria o impeachment de todos, com convocação de novas eleições”, dispara a moça, que se diz a favor de uma total reforma política.

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O iluminador Maneco Quinderé posa ao lado da big boss Renata Borges, que prefere ampliar a questão e eliminar os “chefões do Brasil” via impeachment (Foto: Divulgação)

Atriz que capricha no look para a noite e faz a linha Marion Cotillard, Ingrid Gaigher sai pela tangente, mas fundamenta: “Não posso dizer que é um ‘chefe’ exatamente, mas eliminaria o meu ego.” Como assim, fofinha? “Ah, uma boa noite de bebidas com os amigos, resolve qualquer desarmonia!” filosofa, enaltecendo a equanimidade e deixando claro que certos meandros do “eu interior” podem ser o pior de todos aqueles que estão no comando.

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Ingrid Gaigher beberia poucas e boas para afogar no álcool o mais maléfico de todos aqueles que dão as cartas: o próprio ego (Foto: Lucas Montedonio)

Pensador de suprema categoria, o professor Carlos Alberto Serpa eleva o naipe da primeira fila e sugere o poder transformador da retórica como a melhor arma para se livrar de um chefete daqueles: “A palavra é a única arma que podemos utilizar, não para eliminar chefes, mas transformá-los. Só isso”, soluciona o mestre, cheio de classe e sempre no indefectível look preto que o caracteriza.

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Quase alquimia: Carlos Alberto Serpa acredita que o convencimento pela palavra é a melhor arma não para eliminar um chefe, mas para transmutá-lo em alguém melhor (Foto: Lucas Montedonio)

Tássio Ramos é o baixista que levanta o público no espetáculo, que traz direção musical de Liliane Seco. Ele confessa que eliminaria a própria chefe! Oi?!? Antes mesmo de o barbudo explicar, ÁS se certifica: a maestrina não vai ficar chateada? “Ela é muito má e exigente. É brincadeira, claro. Mas, com um cabo de algum instrumento musical, daria meu jeitinho”, admite, quase como que jogando “Detetive”. E ainda discute com outros músicos brincalhões à sua volta, que em seguida revelam-se claramente tensos ao ouvir o terceiro sinal, que indica o recomeço da peça após o intervalo.

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Tássio Ramos daria fim da diretora musical Liliane Secco com “o cabo de um instrumento musical”. Ui! Jacarandá ou mogno, meu bem? (Foto: Lucas Montedonio)

Morenaça da cor do pecado, atriz e cantora, Cássia Raquel não suporta a falta de profissionalismo: “Eu acabaria com alguns diretores musicais que não escrevem arranjos no prazo, a ponto de termos que atrasar alguma estreia. Eu os mataria de desgosto, escrevendo um arranjo ainda melhor! Aí, sim, eu assumiria o posto!”, se diverte, elaborando o passo a passo de uma possível e futura oportunidade.

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A atriz e cantora Cássia Raquel tiraria da juba uma estratégia digna de marechal em campo para tirar de cena um chefe relapso (Foto: Lucas Montedonio)

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.

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