*Por Lucas Montedonio

Depois de um longo hiato, os eventos de moda parecem aos poucos retomar o espaço na Cidade Maravilha. Há duas semanas, a revista Elle promoveu um desfile-happening com a prévia do inverno de oito grifes no Aeroporto Santos Dumont. Agora é a vez do salão de negócios Fashion Business Rio ganhar sua esperada nova edição, dessa vez no Armazém nº 2 do renovadíssimo Píer Mauá, de 27 a 29/10, trazendo as coleções de outono inverno de 51 grifes e oferecendo a exata medida entre vendas e badalo, com exposição de artistas plásticos, workshops de gastronomia e até desfile de novos criadores. O tema escolhido agora por Eloysa Simão – a empreendedora por trás do acontecimento – é “Tempo, tempo, tempo” e sugere que a moda na capital fluminense passa por um momento de transição. ÁS fez um ronda básica pelos estandes na feira e procurou captar aquilo que os criadores e empresários de moda – essa turma cansada de guerra, mas que não desiste da batalha e acredita na vitória – pensam da atual conjuntura do mercado num Brasil combalido por escândalos, corrupção, recessão e investimentos pífios em educação e cultura.

A pergunta só poderia ser uma: como explorar o fabuloso potencial da Cidade Maravilha, com sua vocação de polo lançador de tendências e em toda a sua pluralidade artística, neste momento de rédeas curtas, com a economia brasileira em frangalhos e o Brasil em polvorosa dentro de um grave contexto político? Como se sentir seguro na hora de criar, investir e produzir moda, no país e no Rio, mesmo flanando dentro do desconforto financeiro atual, com potenciais patrocinadores à míngua? Confira as respostas!

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Maratona fashion à entrada (ou saída) do evento, no terminal de passageiros do porto: depois de rodar o salão, público de compradores aguarda o transporte (Foto: Zeca Santos)

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Coexistência pacífica: pertinho dali, na nova Praça Mauá, o blockletter que a Prefeitura do Rio ergueu para sinalizar a Olimpíada, evento que em boa parte desviou para si os investimentos do empresariado, prejudicando a moda carioca e nacional (Foto: Zeca Santos)

Ela é chamada de Meirinha pelos amigos e está no batente desde a época em que comandava a Folly Dolly, na virada dos anos 1980. Apaixonada por art déco, Mary Zaide, 68, comanda um clã familiar que toca a marca homônima com afinco e afirma com orgulho que está no mercado há mais de 40 anos: “A moda é fantástica! Todo movimento cultural é válido e o Rio tem uma beleza que traz à tona muitas benfeitorias”, conta, se dizendo totalmente a favor da renovação. E profetiza: “O Rio tem tudo para se consolidar como capital da moda brasileira”. E aproveita para mandar um recado: a loja em Ipanema está em liquidação! “Hora boa para montar aquele look do fim de ano”, comenta ao lado da filha e braço direito Flávia.

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Estilo-família: Ao lado da filha e sócia Flávia (à esquerda), Mary Zaide acredita na cidade: “O Rio tem vocação para a moda” (Foto: Zeca Santos)

Ele é o rei do print. E, com todas as dificuldades de uma terra sem lei, encontrou sua própria fórmula para deixar o mulherio lindo, sexy e elegante: elas não abrem mão de seus modelitos arrasa-quarteirão, com shape que valoriza as curvas e aquelas estampas exóticas que as brasileiras tanto amam. Para o inverno, Victor Dzenk aposta num aroma medieval, intensificado pelo clima de princesa e a pintura da época. Mas nem sempre a espada é a lei: o designer anda louco para conferir in loco o soberano master de todos os quadrinhos. Quer ver o Mickey de perto e até comemorar seu niver na Disney: “Amo o Busch Gardens e não vejo a hora de ir. Vou sozinho mesmo porque é a melhor forma de viajar para me divertir sem preocupações”, revela. O estilista acredita que a capital fluminense sempre foi uma conexão importante para a pluralidade de estilos: “A diversidade aqui é muito rica e o Rio é a urbe mais internacional do Brasil. Depois de estar presente por anos no Fashion Rio, afirmo isso com convicção.”

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Victor Dzenk mostra uma das estampas da nova coleção enquanto se rende ao sistema de suserania e vassalagem: monarca dos prints, ele tem planos para pedir a benção ao rei maior dos cartoons! (Foto: Zeca Santos)

Ester Feldman, 55, diretora criativa da Afghan, conta nos dedos os 28 anos de sucesso da grife. Ela não perde o entusiasmo: “Essa cidade é fascinante. É um prazer trabalhar com moda e criação e me sento na obrigação de participar destes eventos em um lugar tão inspirador”. Mas adverte: “A cidade precisa recuperar o lado artsy que sempre esteve presente. Ele anda um pouco apagadinho. Agitos como este devem acontecer com mais frequência”, incentiva, indo longe: “O lado cultural, aquele que engloba moda, arte & gastronomia influencia muito o público daqui e de fora do país. Mas precisamos de mais apoio!”

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Artsy lady: Ester Feldman aposta na tradição que une moda e cultura da Cidade Maravilhosa (Foto: Zeca Santos)

Marcel Gonçalves, 31, é cabra-macho: acredita porque acredita na moda, mesmo com as adversidades, e por isso montou a Cabron, que desfila junto com outras quatro nesta quarta-feira (28/10) dentro do evento. E traz no seu sangue novo o entusiasmo da mais recente geração de criadores: “Acredito que o Rio está se transformando e se consolidando como cidade urbana, apesar da praia. A tendência agora é o casual street que contrasta com o beachwear tão presente. Nosso conceito é tropical-urbano e uma das linhas de camisaria, inclusive, se chama ‘Obsessão Tropical’, está linda!”, esclarece. E completa: “Trabalhamos com um conceito bem cosmopolita. Somos uma marca de vanguarda.”

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O estilo urbanoide de Marcel Gonçalves: designer que desfile nesta quarta acredita que a moda carioca transcende o calçadão (Foto: Zeca Santos)

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A Cabron aposta no mix entre o casual wear e o apreço pelo asfalto (Foto: Zeca Santos)

Diretora comercial responsável pela importação e exportação da Blue Man, Priscila Lago, 37, afirma que a moda precisa de mais união: “Para concretizar o Rio como urbe lançadora de tendências, as marcas precisam dar as mãos. Só assim será possível fortalecer eventos como o Fashion Business, reativando e a economia carioca e brasileira. A cidade tem que voltar a ter o reconhecimento que merece”, complementa, meio busy e às voltas com clientes e pedidos.

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Priscila Lago, da Blue Man, valoriza a máxima que diz que a união faz a força (Foto: Zeca Santos)

Baluarte da moda nacional, a gaúcha com alma carioca Mara Mac Dowell é pioneira na moda brasileira. Com 52 anos de trajetória com sua Mara Mac, ela se diz perfeccionista e confessa: “Estou maravilhada por expor minha nova coleção no evento”. E, enquanto incentiva os empreendimentos no setor, traça um perfil da mulher: “Adoro esse ar despretensioso com que a carioca se exibe ao circular pela cidade. Aqui, há um sabor diferente”

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Após temporada em Barcelona, a marca de moda masculina Sagrada Família Brazil foi convidada por sugestão de Patrícia Viera a participar do salão. Quem conta é o estilista e dono da marca, Breno Oliveira, 36, que quer mudar o cenário de moda no Brasil: “Chega de caveiras! A moda masculina caiu na mesmice e é preciso inovar. Vamos nos destacar com peças de conceito e exclusividade”, revela, mostrando a coleção inspirada no mistério dos clãs sagrados: Nova Totivs, Maçons, Illuminati, Coptos e Templários, que desenvolveu com consultoria do stylist Felipe Veloso.

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Spiritus sancti: Breno Oliveira traz códigos sacros para sua moda profana com total apoio de Patrícia Viera e Felipe Veloso (Foto: Zeca Santos)

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Sagrada Família: cruzes skyline da catedral inacabada de Gaudi é print para palmilha de sandália de dedo (Foto: Zeca Santos)

Mas a grife não para por aí e também aposta nos clãs familiares do rap: a Sagrada Família oferece uma linha de camisetas em homenagem ao Tupac brasileiro, o rapper Sabotage, assassinado em 2003. Seu filho, Anderson Rocha, 22, conhecido como Sabotinho, fala com emoção: “Me sinto feliz por ver esse antigo desejo realizado. Eu e minha irmã estamos aqui representando nosso pai. Ele tinha esse sonho de fazer moda e agora virou realidade”, revela o rapaz.

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O pai, o filho e o spiritus sancti da Sagrada Família: filho do rapper Sabotage, Sabotinho investe na moda para preservar a santa imagem do clã (Foto: Zeca Santos)

Cara de pau: aliando responsabilidade socioambiental e alta tecnologia, os óculos produzidos em madeira são a cartada do designer Luiz Eduardo Rocha, 26 (dir.), na Zerezes, que costuma realizar parceria com grifes como a Salinas. É ele quem revela: “Oferecemos um produto de excelência e o Fashion Business é uma ótima pedida como plataforma de lançamento. A proposta é renovar a maneira de enxergar o produto nacional, mostrando óculos que possam competir de igual para igual com as grifes gringas.

Nessa mesma vibe, Kaue Maciel, 29 (esq.), da marca de calçados Odde, evita excessos e é pontual na hora de vender o seu peixe: “Somos genuínos na hora de seguir uma ideologia e pensar em um produto com acabamento perfeito. O Rio está pobre de identidade própria, mas aos poucos esse cenário pode ir mudando, pois o mercado aceita novas propostas. O brasileiro é curioso, diversificado, crítico e aberto a novidades”, arremata.

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Kauê Maciel (esq.) e Eduardo Rocha (dir.): designers apostam no co-standing como forma de viabilizar a exposição de seus produtos no Fashion Business (Foto: Zeca Santos)

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Zerezes: armações de madeira são o segredo da marca para competir no mercado de óculos de sol (Foto: Zeca Santos)

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Jacquard étnico: cabedais diferenciados são highlight na coleção da Odde (Foto: Zeca Santos)

Designer da Aba, Marcelo Sarquie, 49, tira o chapéu para o Rio: “São doze 12 anos de marca e muito reconhecimento no Brasil e lá fora. Sou convidado a participar de feiras em São Paulo e Belo Horizonte, mas faço questão de vir sempre para cá. O carioca tem a cara do meu produto”, revela o empresário, que desenvolve tudo no Equador. “Esse píer é nossa cara e a cidade, perfeita.” O cenário desfavorável na economia não o desanima: “Persistência e talento tem provado serem minha dobradinha essencial na fórmula para driblar a crise”.

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Pantone: Marcelo Sarquie desenvolve chapéu no Equador, mas prefere vender no Rio: o carioca combina com meu produto (Foto: Zeca Santos)

Benta Studio promete sacudir a moda com desfile nesta quarta no Fashion Business, sem lenço e sem documento. Consultora da marca, Fernanda Junqueira, 33, explica: “As cariocas Gabriela GarciaMaitê Lacerda faziam lencinhos para dar às amigas. O sucesso foi tanto que o lançamento de roupas foi um pulo bem orgânico”, especifica garantindo que a matéria-prima é composta totalmente de fibras naturais: “Nada de sintético, xô!” Quanto à conjuntura atual, ela é otimista: “A moda no Rio precisa de uma levada de leveza e não será por brigas políticas que vamos nos intimidar. Queremos dar um tapa na cara da sociedade porque, afinal, o Brasil tem muito caldo para dar.” E completa: “Criatividade, qualidade e preço são nosso tripé de sucesso, uai!”.

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Fernanda Junqueira, da Benta Studio: moda começou como brincadeira de amigas e virou coisa séria no Fashion Business (Foto: Zeca Santos)

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Trofeu abacaxi: manequim exibe um dos lencinhos que já é ícone na nova grife (Foto: Zeca Santos)

Em tempo: a partir das 17h, cinco novas marcas cariocas fazem seu début em uma passarela a céu aberto na nova Praça Mauá: Benta Studio, Cabron, Haight, Handred e Helena Pontes. As coleções outono/inverno 2016 esbanjam criatividade e visam driblar o contexto crítico que a indústria e o país enfrentam, oferecendo acessibilidade e preço de combate, que justifique seu valor.

 

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.

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