O cartaz oficial do 69º Festival de Cannes com a surrealista escadaria da Casa Malaparte, atração arquitetônica da ilha de Capri usada por um transgressor Jean-Luc Godard, em 1963 no seu hoje clássico O desprezo”, como metáfora da ilusão cinematográfica, poderia sinalizar que esta edição iria contemplar as correntes mais inventivas e menos consagradas da cinematografia mundial, da mesma forma que Cannes sacramentou a jovem e revolucionária nouvelle vague, em 1959, com o triunfo de Os incompreendidos de François Truffaut. Mas isto, de fato, não vai acontecer. A grandiosidade do evento, seu papel paralelo como local de mercado e os altos custos para mantê-lo impõem – inapelavelmente – uma associação de dependência em relação ao mainstream da indústria audiovisual.

Festival de Cannes 2016 cartaz final

A base do cartaz oficial do festival este ano é um fotograma do clássico da nouvelle vague “O desprezo” (1963) de Jean-Luc Godard, estrelado por Brigitte Bardot, rodado na espetacular Villa Malaparte, na ilha de Capri, construída em 1937 e ícone da arquitetura moderna italiana (Divulgação)

Cannes 2016 final

Após os recentes atentados cometidos este ano por grupos terroristas islâmicos na Europa, a Prefeitura de Cannes e os organizadores do festival se uniram ao Ministério do Interior da França para garantir a segurança dos 200.000 visitantes que passarão pelo balneário durante os 12 dias do evento (Foto: Flávio Di Cola)

E o termo mainstream aqui aplicado não se refere apenas às grandes produções dos estúdios de Hollywood que usam Cannes como trampolim para os seus lançamentos de verão, que ocupam com seus executivos de marketing andares inteiros dos hotéis mais chiques da Riviera e que patrocinam as festas mais luxuosas da temporada. Existe, também, um mainstream dos grandes nomes do cinema autoral, uma espécie de establishment da “grande arte cinematográfica” composta por diretores que vão e voltam a Cannes ao longo de décadas, como aves migratórias, e que – apesar do prestígio artístico de que gozam – acabam por sufocar a maior vitrine do cinema mundial com a constância e a repetição do seu talento. Neste ano, esse establishment dos “medalhões” volta a comparecer com força, ocupando grande parte da competição pela Palma de Ouro com nomes que poderiam formar um time de futebol: Ken Loach, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Cristian Mungiu, Jim Jarmush, Pedro Almodóvar, Paul Verhoeven, Xavier Dolan, Olivier Assayas e Nicolas Winding Refn.

Cafe-Society Woody Allen Cannes 2016 final

O 47º filme de Woody Allen“Café Society” recebeu a missão de abrir a edição 2016 do Festival de Cannes fora de competição, marcando a estreia do diretor no formato digital, depois de muita insistência do diretor de fotografia Vittorio Storaro – o mesmo de “Apocalypse Now” (1979). Nessa “homenagem” à Hollywood dos anos 1930, Allen recrutou um elenco estelar: Jesse Eisenberg, Steve Carell e Kristen Stewart (Divulgação)

Assista abaixo ao trailer oficial de “Café Society” (Divulgação):

Woody Allen concorrido: jornalistas se acotovelam para conferir a coletiva de imprensa de "Café Society" nessa manhã de abertura do Festival de Cannes (Foto: Flávia Guerra)

Woody Allen concorrido: jornalistas se acotovelam para conferir a coletiva de imprensa de “Café Society” nessa manhã de abertura do Festival de Cannes (Foto: Flávia Guerra, direto de Cannes)

The Best Friend Giant Cannes 2016 final

Outro peso-pesado de Hollywood que desembarca em Cannes é Steven Spielberg que veio atrás da pompa e da circunstância de Cannes para dar visibilidade à sua última fantasia “O bom gigante amigo”, também fora de competição, estrelado pelo formidável Mark Rylance, que arrebatou este ano o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por “Ponte dos espiões” do mesmo Spielberg (Divulgação)

Confira abaixo o trailer de “O bom gigante amigo” (Divulgação):  

Festival de Cannes 2016

Em Cannes, tudo tem que ser bombástico. Até os jurados da Competição Oficial. Estes, além de entenderem de cinema também precisam reinar no mundo das celebridades. Siga, a partir da foto maior e no sentido horário, os componentes do juri deste ano: George “Mad Max” Miller, presidente; a atriz italiana Valeria Golino; o ator Donald Sutherland; Katayoon Shahabi, produtora iraniana; o húngaro Lásló Nemes, diretor de “Filho de Saul”, premiado em Cannes 2015; Vanessa Paradis, cantora-e-atriz e ex-srª Johnny Depp; a eterna noiva de “O Homem Aranha” Kristen Dunst; o atorzão dinamarquês Mads Mikkelsen e o diretor francês Arnaud Desplechin (Divulgação)

Juri Festical de Cannes 2016

O júri do Festival de Cannes 2016 se reúne para conversar com a imprensa. Presidido por George Miller (de Mad Max), conta ainda com Vansessa Paradis, Donald Sutherland, Kirsten Dunst, Valeria Golino, Mads Mikkelsen, Lásló Nemes (Oscar de Melhor filme estrangeiro por ‘Filho de Saul’), Katayoon Shahabi, Arnauld Desplechin. (Foto: Flávia Guerra, direto de Cannes)

Thierry Frémaux, Delegado Geral do festival, defende-se como pode nas entrevistas que vem dando à grande imprensa ao longo dos dias frenéticos que antecederam a abertura de hoje à noite. Afinal, as comissões de triagem de Cannes selecionam estritamente o que lhes é enviado a cada ano, e na edição de 2016 calhou de haver um grande número de candidaturas de filmes de auteurs consagrados e com elencos recheados de nomes famosos, justifica ele. Outro dardo lançado contra o line up em competição é o que fere a hegemonia das cinematografias européia e norte-americanas em detrimento do cinema asiático, latino-americano e africano.

Segundo Frémaux, essa quantificação da procedência dos países em competição deve ser tabulada ao logo de cinco ou dez anos de festival para que se tenha uma idéia real de quantas cinematografias periféricas já foram contempladas por Cannes, e não à luz de uma só edição com pouca participação terceiro-mundista como este. De certa forma, o Delegado Geral tem razão em apelar para o acaso e os caprichos de cada safra da produção cinematográfica mundial na hora de fechar a lista de competidores pelo prêmio principal. Um caso flagrante de irregularidade é o da Itália: no festival de 2015, os italianos emplacaram três grandes produções de qualidade na Seleção Oficial, o que resultou numa revoada maciça de jornalistas do país de Fellini para a cobertura. Este ano o desapontamento foi total: a Itália não tem nenhum representante em Cannes. Como explicar?

OS ETERNOS QUERIDINHOS DO FESTIVAL

A safra de filmes selecionados para a Seleção Competitiva de Cannes 2016 traz de volta à Croisette – a badalada avenida à beira mar do balneário – uma revoada de caras conhecidas ou consagradas em outras edições deste festival. Acompanhe:

Toda essa discussão acaba por soar um tanto tola quando se lembra que Cannes não se reduz ao red carpet das seções de gala, ou à montée des marches – a tradicional subida das escadarias – ou ao vencedor da Palma de Ouro. O grosso mesmo do maior evento cinematográfico é tocado pelas várias seções paralelas com seus prêmios específicos – como a badalada mostra Un certain regard, que contempla obras com “pegada” mais experimental; a seleção da Cinéfondation, reservada à produção de estudantes de cinema; a Cannes Classics que cresce a cada ano na sua missão de premiar os documentários que têm como tema o próprio cinema (no qual concorre Cinema Novo de Eryk Rocha, filho de Glauber); e as melhores restaurações dos grandes filmes do passado. Já o prêmio Caméra d’Or recompensa o melhor “primeiro filme” apresentado ou na Seleção Oficial, ou na Quinzena dos Realizadores ou na Semana da Crítica.

Todas essas manifestações, que ocorrem simultaneamente nos 12 dias de festival, podem deixar muita gente confusa e exausta, mas não esgotam completamente a agenda de eventos do Festival de Cannes, onde ainda cabem as diversas homenagens a personalidades vivas ou mortas que elevaram a Sétima Arte, as seleções de curtas-metragens, o Mercado do Filme – um verdadeiro “atacadão” de produções de todas as partes do mundo e que vem sendo ocupado pelos chineses ou pela Amazon que neste ano já comprou cinco filmes concorrentes da Seleção Oficial para distribuir. Para não falar da Vila Internacional, onde cada país produtor pode, individualmente, apresentar o melhor da sua cinematografia nas tendas montadas ao longo da charmosa promenade que bordeja o Palácio dos Festivais.

CANNES BUSCA EM HOLLYWOOD AS CELEBRIDADES PARA POVOAR SEU RED CARPET

As críticas ao gigantismo crescente do Festival de Cannes e à sua dependência cada vez maior em relação aos filmes e às celebridades americanas que vão à Croisette para se promover repetem-se a cada ano. Mas esse mau humor é inócuo pois o tapis rouge de Cannes precisa brilhar, caso contrário não se paga. Veja quem é esperado no Palácio dos Festivais, além dos astros e estrelas dos filmes em competição:

Cannes é isso mesmo: uma vitrine gigantesca para a qual não faltam detratores e tijolos a serem arremessados, e as reações hostis fazem tão parte do evento como o seu lado mais fútil e mundano. Mas no meio disso tudo sobrevive indestrutível o lugar que motivou a citação de abertura do célebre filme de Godard inspirador do cartaz deste ano: “Só o cinema substitui o mundo que deveria existir dos nossos desejos”.

EM DESFILE, LA CRÈME DE LA CRÈME DO CINEMA

Confira a relação completa dos 21 longas-metragens da Seleção Oficial do Festival de Cannes 2016 candidatos à Palma de Ouro, e assista a alguns dos trailers ou trechos já liberados pelos produtores. Todas as obras serão exibidas em sessões de gala no Grand Théâtre Lumière, um colosso com capacidade para 2.281 pessoas:

Festival de Cannes 2016 Grand Théâtre Lumière final

Grand Théâtre Lumière: dentro do Palácio dos Festivais, o suntuoso cinema dá a exata noção do quão espetacular pode ser uma edição de Cannes, mesmo quando Hollywood toma o evento de assalto (Foto: Divulgação)

American honey, 2016, de Andrea Arnold, Reino Unido.

Aquarius, 2016, de Kleber Mendonça Filho, Brasil.

Bacalaureat [Baccalauréat] (Graduation), 2016, de Cristian Mungiu, Romênia.

Trecho: https://www.youtube.com/watch?v=0jDYPMr_6h0

Elle, 2016, de Paul Verhoeven, França.

Trailer oficial: http://www.festival-cannes.com/fr/films/elle

Forushande [Le client] (The salesman], de Asghar Farhadi, Irã.

I, Daniel Blake (Moi, Daniel Blake), 2016, de Ken Loach, Reino Unido.

Julieta, 2016, de Pedro Almodóvar, Espanha.

Trailer oficial: http://www.festival-cannes.com/fr/films/julieta

Juste na fin du monde (It’s only the end of the world), 2016, de Xavier Dolan, Canadá.

Trecho: http://www.festival-cannes.com/fr/films/juste-la-fin-du-monde

La fille inconnue (The unknown girl), 2016, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Bélgica.

Loving, 2016, de Jeff Nichols, Estados Unidos.

Ma’Rosa, 2016, de Brillante Mendoza, Filipinas.

Trecho: http://www.festival-cannes.com/fr/films/ma-rosa

Mademoiselle [Agassi] (The handmaiden), 2016, de Park Chan-Wook, Coréia do Sul.

Trailer oficial : http://www.festival-cannes.com/fr/films/agassi

Ma loute (Slack bay), 2016, de Bruno Dumont, França.

Trailer oficial: http://www.festival-cannes.com/fr/films/ma-loute

Mal de pierres (From the land of the moon), 2016, de Nicole Garcia, França.

Paterson, 2016, de Jim Jarmush, Estados Unidos.

Personal shopper, 2016, de Olivier Assayas, França.

Rester vertical (Staying vertical), 2016, de Alain Guiraudie, França.

Trecho: http://www.festival-cannes.com/fr/films/rester-vertical

Sieranevada, 2016, de Cristi Puiu, Romênia.

Trecho: http://www.festival-cannes.com/fr/films/sieranevada

The last face, 2016, de Sean Penn, Estados Unidos.

 

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