* Por Flávio Di Cola, direto de Cannes

Cinebiografia? Homenagem? Ensaio? Documentário ou mockumentary? Um filme sobre um filme? Realmente, o longa-metragem Barbara (2017, produção da Waiting for Cinéma) do ator e diretor Mathieu Amalric, que abriu na noite de quinta-feira (18/05) a mostra Un Certain Regard de obras com pegada mais singular selecionadas oficialmente pelo Festival de Cannes, está trazendo uma dificuldade muito grande a todos os jornalistas, críticos e amantes do cinema que gostam de classificar os filmes por gênero. A saída então tem sido “classificá-lo sem classificar” através de conceitos como “filme-experiência”, “jogo de espelhos” ou “puzzle nostálgico”, o que torna ainda mais divertida a fruição deste “filme-brincadeira”, se a nós também é permitido forjar uma nova definição para o sexto longa-metragem de Amalric.

“Barbara”, filme de Mathieu Amalric sobre a diva da canção francesa, foi escolhido para abrir a mostra competitiva Un Certain Regard, a segunda mais importante do Festival de Cannes dedicada a obras mais singulares e autorais (Foto: Divulgação)

Confira o trailer de “Barbara”, filme de abertura da mostra  Un Certain Regard do Festival de Cannes (Divulgação):


Apesar de toda essa deliciosa ambiguidade que paira sobre “Barbara”, uma suposta e enganosa biografia para os desavisados da mítica figura da canção francesa Barbara (1930-1997), uma sensação é unânime logo após as suas disputadas sessões aqui em Cannes: o trio criativo fundamental do filme representado por Mathieu Amalric, Jeanne Balibar e pelo roteirista Philippe Di Falco (com o próprio Amalric) agarrou com paixão e sem medo de arriscar um projeto que tinha tudo para cair em duas das armadilhas mais comuns que vitimam as cinebiografias de celebridades do show biz, principalmente as musicais: ou a caretice insuportável das narrativas lineares e burocráticas que seguem o batido percurso infância-juventude-ascensão-e-queda – e quem acompanha as biografias encenadas nos palcos e telas brasileiras sabe exatamente do que se está falando –, ou o pecado pior, partir para a esculhambação e a desconstrução cegas da figura biografada e de tudo ao seu redor.

A atriz e cantora Jeanne Balibar não foi escolhida para viver Barbara na tela apenas pelas sua evidentes semelhança com a célebre cantora-compositora desaparecida em 1997, mas pela sua capacidade de se entregar de corpo e alma à exploração profunda de uma artista que foi um ídolo para ela mesma desde os oito anos de idade (Foto: Reprodução)

“Barbara” foi muito bem recebido em Cannes, o que era de se esperar: o filme, que brinca de forma irreverente e criativa com os limites da cinebiografia, fala de uma artista e de uma tradição musical cara à França e a todos aqueles que amam a canção francesa (Foto: Divulgação]

“Barbara” salva-se desses perigos com muita bossa e charme ao se embrenhar por um caminho que nem de longe pode ser chamado de “narrativo” porque o que se vê na tela é tudo muito fragmentado, parecendo mais um fluxo lúdico de imagens organizadas pelo prazer, pelo humor e pela emoção de se construir um “retrato” ora fixo, ora embaçado pela paródia de uma star, de uma voz, de uma personalidade ou de uma sombra projetada na parede – singular e talentosa, é verdade -, mas que só podemos afirmar seguramente se referirem a Barbara quando ocorre eventualmente o cruzamento habilidoso e irônico entre os fotogramas da “verdadeira” Barbara com as da atriz Brigitte (Jeanne Balibar) que a interpreta neste filme dentro do filme.

“Barbara” brinca todo o tempo com projeções de imagens da verdadeira Barbara sobre a sua intérprete ou desta sobre ela mesma, instaurando um divertido e confuso jogo de sombras (Foto: Divulgação)

Aliás, ao adotar a fórmula do falso “filme dentro do filme”, “Barbara” é mais uma criação que bebe da fonte de “8 ½” (1963) e da sua célebre construção “em abismo” – “mise en abyme” como dizem os franceses – magistralmente construída por Federico Fellini nessa obra-prima refundadora da história do cinema. Brigitte/Jeanne interpretam o papel principal num filme sobre uma estrela da canção chamada Barbara sob a batuta do diretor Yves Zang (o próprio Mathieu Amalric) que padece de uma grave dúvida: ele não sabe direito se o filme que está fazendo é uma cinebiografia de Barbara ou o relato de seu próprio trabalho de diretor em relação à biografada. Num dos seus momentos mais engraçados, a atriz Brigitte pergunta a Zang se ele está dirigindo um filme sobre o ídolo ou sobre ele mesmo, ao que o diretor responde dando de ombros: “Não sei… Tanto faz”.

A carreira de Barbara na cena francesa e mundial estende-se por 40 anos, depois de uma infância e uma adolescência marcadas pelas perseguições aos judeus durante a Segunda Guerra e pelo drama do incesto causado pelo seu pai. Socialista de carteirinha, algumas de suas canções tornaram-se temas das campanhas de François Mitterrand (Foto: Reprodução)

Digna herdeira de uma linhagem ilustre que remonta a nomes como Édith Piaf, Juliette Gréco e Jacques Brel, Barbara também desenvolveu um estilo único no cantar, no gestual e no próprio look, até hoje moderníssimo, marcado pelos figurinos pretos, pelos cabelos curtos e pelo pesado delineamento dos olhos atualizado por Amy Winehouse (Foto: Reprodução)

A placa comemorativa afixada na fachada de um imóvel humilde de Paris onde Barbara viveu numa fase difícil da sua vida revela o culto de que é objeto. A artista faleceu em 24 de novembro de 1997 de um choque tóxico-infeccioso – considerado nebuloso por alguns biógrafos. Conforme se aproximam os trinta anos do seu desaparecimento, muitos eventos estão sendo programados entre 2017-2018 em sua memória (Foto: Reprodução)

Para avançar com todas essas ousadias e piadas de circuito-fechado, Amalric felizmente encontrou o respaldo de uma equipe afiadíssima, sem a qual “Barbara” cairia na mera pretensão de jogar para aquela parte da crítica afeita a frissons estéticos sem se preocupar com o gozo do público, numeroso no caso dos fãs jovens e maduros da artista Barbara espalhados na França e no mundo.

Pascaline Chavanne, uma das mais importantes e premiadas figurinistas do cinema francês e colaboradora habitual de François Ozon em filmes como “Potiche”, “8 mulheres” e “Swimming pool”, foi a responsável pelos figurinos de “Barbara” (Foto: Reprodução)

Nesse campo, os destaques são o diretor de fotografia belga Christophe Beaucarne, o mesmo de Coco antes de Chanel (2009), que harmonizou a desarmonia de tantas camadas visuais que incluem compilações documentais de décadas passadas, o prodigioso editor François Gedigier, o mesmo que montou o canto do cisne de Björk no cinema em Dançando no escuro (2000) de Lars von Trier, a figurinista do momento e já premiada com um César Pascaline Chavanne e, finalmente o trio do som, Olivier Mauvezin, Nicolas Moreau e Stéphane Thiébaut, área em que os franceses são especialmente craques.

Mathieu Amalric, diretor de “Barbara” e a protagonista Jeanne Balibar, ex-companheiros entre 1996 e 2003, chegam para a première de gala no Palácio dos Festivais (Foto: Divulgação)

Com esse timaço, qualquer “filme-experiência”, “jogo de espelhos”, “puzzle nostálgico” ou “construção em abismo” não pode dar errado. Então, viva a experimentação, mas com charme, alegria e competência.

MOMENTO LOUNGE COM BARBARA: DUAS CANÇÕES PARA SEREM OUVIDAS COM UM BOM VINHO

As composições e interpretações de Barbara traduzem a alma mais profunda da canção francesa através de títulos  clássicos como “Nantes”, “Au bois de Saint-Amand”, “La solitude”, “Ma plus belle chanson d’amour” ou as duas selecionadas abaixo, “Dis, quand reviandras-tu”, composta após uma separação amorosa e “L’aigle noir” (Reproduções):

BARBARA E A GEOPOLÍTICA FRANCO-ALEMÃ
Em 1964, Barbara foi convidada a se apresentar na Alemanha Ocidental e lá foi tão bem sucedida que compôs “Göttingen” em retribuição à recepção calorosa que recebera no país que já fora um ferrenho adversário da França. Com o tempo, a canção tornou-se um símbolo da nascente amizade franco-alemã, base da União Europeia. Será que Emmanuel Macron e  Angela Merkel andam namorando ao som de Barbara? Confira este vídeo de 1967 com a própria compositora:

GERARD DEPARDIEU E BARBARA: UMA GRANDE AMIZADE

 No mesmo ano (1982) em que Barbara recebeu o Grande Prêmio da Canção Francesa por sua contribuição à cultura gaulesa, ela iniciou uma forte relação artística e de amizade com o ator, então em ascensão, Gerard Depardieu. No início deste ano, exatamente duas décadas depois do desaparecimento da cantora, o ator lançou um “disco homenagem” com canções de Barbara, seguido de uma série de shows. Confira:

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