* Por Flávio Di Cola, direto de Cannes

Um clima de surpresa tomou conta de parte da plateia que lotou a gigantesca Sala Louis Lumière, nesta quarta-feira (24/5) de manhã em Cannes, depois da première de O estranho que nós amamos (The beguiled, 2017, Universal Pictures) de Sofia Coppola que também roteirizou o romance de Thomas Cullinan com o mesmo nome que deu origem ao seu sexto filme. Conhecida por suas visões do mundo contemporâneas, a ponto de transformar a própria rainha Maria Antonieta numa irônica metáfora do consumismo que nos assola, muita gente não esperava que a filha mais talentosa de Francis Ford Coppola um dia abraçasse um filme de gênero – neste caso um drama de época ambientado no final da Guerra da Secessão americana (1861-1865) – e ainda por cima recrutando um punhado de estrelas entre as mais valiosas do atual horizonte hollywoodiano, com Nicole Kidman à frente, quase replicando uma antiga fórmula da Era de Ouro dos estúdios e dos grandes épicos sulistas como Jezebel (1938), “…E o vento levou(1939) ou A árvore da vida (1957).

O drama ambientado na Guerra Civil Americana “O estranho que nós amamos”, que concorre à Palma de Ouro e teve recepção apenas respeitosa em Cannes, é o sexto longa-metragem de Sofia Coppola que frequenta o festival desde 1979, quando acompanhou o seu pai à première de “Apocalypse Now” (Foto; Divulgação)

Confira abaixo o trailer de “O estranho que nós amamos” que tem estreia prevista no Brasil só em agosto deste ano (Divulgação):


Como se não bastasse esse distanciamento do seu habitual universo temático – o que Sofia nega –, a diretora ainda por cima cometeu a audácia de apresentar uma obra com uma feitura rigorosamente clássica, em que todos os elementos da sua mise en scène buscam uma narração fluida e completamente harmonizada com o imaginário “gótico sulista” ligado aos grandes latifúndios e às suas esplendorosas mansões, agora abatidas e abandonadas durante a mais sanguinária das guerras travadas em solo americano.

Personalidades estelares de “O estranho que nós amamos” para a photo call num dos terraços do Palácio dos Festivais depois da projeção especial para os jornalistas hoje de manhã: Elle Fanning, Nicole Kidman, Colin Farrell, Sofia Coppola e Kirsten Dunst, que continua engordando depois de ter se recusado a emagrecer para as filmagens conforme declarou à revista Variety (Foto Divulgação)

Enquanto isso, no interior do Palácio, os jornalistas saíam da sessão em debandada para garantir um lugar na fila da entrevista coletiva de um dos filmes mais badalados do Festival (Foto: Flávio Di Cola)

Troca de roupa rápida para a clássica montée des marches (subida da escadaria) do Palácio dos Festivais: Ferrell, Dunst, Fanning e Kidman (num look “Copacabana”?), acrescidos do produtor Youree Henley e das atrizes Angousie Rice e Addison Riecke (Foto: Divulgação)

Mesmo contrariando boa parte das expectativas normalmente esperadas de uma obra de Sofia Coppola, “O estranho que nós amamos” acerta em cheio na categoria “entretenimento de qualidade”: durante mais de uma hora e meia de projeção, os 2.400 jornalistas e críticos de cinema – um público que em geral se considera imune às seduções fáceis de um espetáculo bem feito – pareciam muito entretidos no destino daquelas sete mulheres que em 1864 habitam um internato que a guerra isolou quase que completamente a ponto de transformar a decadente mansão com sua portentosa colunata greco-romana e vasto jardim num território quase mágico, num mini-estado matriarcal habitado por uma abelha-rainha (Kidman), uma jovem professora (Dunst) e suas cinco pupilas obreiras, cuja aparente e virtuosa harmonia pastoral é quebrada logo no início do filme pela entrada em cena de um jovem e atraente soldado nortista (Farrell) encontrado ferido no jardim.

NIcole Kidman lidera um elenco de nomes poderosos da ribalta cinematográfica que conta com Colin Farrell, Kirsten Dunst (vestindo azul), em sua quarta colaboração com Sofia Coppola, e Elle Fanning (no rosa) (Foto: Divulgação)

Indecisas entre acolher o rapaz ferido ou entregá-lo às patrulhas sulistas que batem regularmente à porta à caça de yankees foragidos, a hipocrisia moral e religiosa fala mais alto: para felicidade geral da libido insatisfeita das jovens fogosas, Miss Martha, a preceptora-chefe, acolhe o moribundo em nome da caridade cristã. Na verdade, todas esperam, com maior ou menor grau de consciência, que o jovem cabo se transforme num brinquedo romântico-sexual da instituição. É claro que esse processo que ilude por um tempo todos os personagens traz consigo um crescente acirramento da competição sexual e narcísica entre todas as mulheres, atingindo um ponto de fervura que não vai ser aqui revelado para se evitar o spoiler.

Em “O estranho que nós amamos”, Nicole Kidman é Miss Martha, diretora de um internato onde só restam cinco meninas de fino trato do Sul em meio à devastação da Guerra Civil Americana. Na primeira versão de 1971 dirigida por Don Siegel, esse papel foi da oscarizada e respeitada atriz da Broadway Geraldine Page (1924-1987) que imprimiu ao mesmo personagem uma tintura mais histérica e perversa (Foto: Divulgação)

O grande mérito da versão de Sofia Coppola para “O estranho que nós amamos” é a sutil captura da atmosfera claustrofóbica das decadentes mansões sulistas em que reinavam a repressão sexual e a hipocrisia moral. A fotografia soturna, marcada por composições simétrica e por silhuetas, é do francês Philippe Le Sourd (Foto: Divulgação)

Colin Farrell interpreta um desertor ferido do exército do Norte que é acolhido pelas solitárias belles – como eram chamadas as moçoilas do aristocrático Sul pré-guerra – do internato de Nicole Kidman. A presença de um homem atraente e másculo no pedaço vai fazer subir a temperatura de todas elas (Foto: Divulgação)

Mas para não deixar inacabado o argumento, é necessário informar que “O estranho que nós amamos”, cujo livro de origem foi escrito e lançado nos anos 1960, faz uma releitura bem típica daquele momento contestador das ideias freudianas sobre as relações entre repressão sexual e poder, incluindo nessa cesta a propalada teoria da inveja feminina do pênis e seu projeto de poder com o objetivo de castrá-lo.

Cinco anos depois, em 1971, The beguiled foi levado à tela pela primeira vez, provocando impacto e discussões acaloradas numa época em que tudo era colocado em questão. E após quatro décadas do lançamento do filme estrelado por Clint Eastwood, muitos fizeram a mesma pergunta que Sofia Coppola fez a si quando o projeto do remake foi oferecido a ela: por que fazer de novo aquilo que já fora realizado por outro e muito bem? E, ainda por cima, reprisar uma história que envolve vários compromissos com códigos de gênero que – como ela mesma diz – “não são a minha praia”.

“O estranho que nós amamos” de 1971 foi uma das várias colaborações de Clint Eastwood com Don Siegel. Eastwood aceitou de bom grado o papel do soldado nortista que se torna presa de sete mulheres sulistas pois – segundo ele – “teria a chance de fazer um filme em que não precisava acender um canhão com um cigarro”, ironizando a série de westerns spaghetti da fase anterior da sua carreira (Foto: Reprodução)

Back to the seventies: trailer da primeira versão cinematográfica do romance de Thomas Cullinan com a estética e a estridência típicas da cinematografia dos anos 1970 (Reprodução):

Entretanto, Sofia aceitou a proposta porque achou que poderia acrescentar uma nova dimensão a “O estranho que nós amamos”. Se “The beguiled” pode ser traduzido como “O enganado”, a versão de Sofia para o romance de Thomas Cullinan poderia se intitular “As enganadas”, trocando o ponto de vista do romance e invertendo a equação freudiana eminentemente masculina, ou seja, a tese da vingança feminina contra a virilidade do homem seria acrescida de uma crítica ao condicionamento das mulheres ao mundo dos homens. Segundo Coppola, as belles do internato de Miss Martha em época de guerra, assim como a maioria das mulheres “foram criadas como criaturas femininas que deveriam estar sempre lá, a serviço do homem e, de repente, todos eles desaparecem”. E acrescenta: “E é nessa brecha que se abre a possibilidade de deslocamento do poder do homem para a mulher”.

A produção cult de 1971 de “O estranho que nós amamos” chocou as plateias da época pela violência. Esse apelo foi quase totalmente extirpado na versão de Sofia Coppola cujo estilo prima pela delicadeza e pela valorização da atmosfera. Uma camisola ensanguentada já foi considerada quase campy (Foto: Divulgação)

Um poder de que Sofia Coppola parece estar exercendo com muita coerência, ao empregar na suas equipes de filmagem um número considerável de profissionais mulheres, mas sem se esquecer de que aquele “público maravilhoso, sentado na escuridão” – como diria Norma Desmond, a diva decadente de Crepúsculo dos Deuses – precisa estar interessado e entretido. Duas reações que parecem muito prosaicas diante do que se espera de uma autora como Sofia, que poderia ter ido muito mais além do seu eficiente formalismo narrativo.

Sofia Coppola tem afirmado que quis fugir de alguns clichês dos filmes sobre a Guerra da Secessão como a violência sexual. Associada a essa postura e a pedido de Kirsten Dunst, a única cena sensualmente mais forte de todo filme, ao lado de Colin Farrell, foi interpretada com os dois atores quase totalmente vestidos (Foto: Divulgação)

“O estranho que nós amamos” acrescenta mais um título à cultuada tradição dos filmes com temática e estética do chamado “gótico sulista” que recorre a histórias sinistras em ambientações decadentes do sul dos Estados Unidos como “O mensageiro do diabo” (1955) ou “A chave mestra” (2005) (Foto: Divulgação)

“O estranho que nós amamos” foi rodado em apenas 26 dias em Madewood Plantation House, na Louisiania, a mesma fazenda histórica em que foi gravado o clipe “Lemonade” com Beyoncé e Serena Williams. Kirsten Dunst e Elle Fanning fazem uma bem-humorada referência ao clipe num dos intervalos de filmagem (Foto: Reprodução)

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