* Por Flávio Di Cola, direto de Cannes

Assim como Psicose (1960), clássico absoluto de Alfred Hitchcock, L’amant double (2017, Mandarin Productions), de François Ozon, selecionado para a Competição Oficial do Festival de Cannes, também foi filmado em grande segredo, talvez com a mesma pretensão de salvaguardar dos olhos do público a audaciosa premissa para o momento do lançamento. De fato, Ozon repete aqui a mesma desinibição temática que demonstrara em Jovem e bela (2013) e com a mesma Marine Vacth, deslumbrante no papel da jovem de classe média que depois da primeira experiência sexual com que fora brindada nas férias de verão toma gosto pela coisa, dividindo com a maior naturalidade o seu tempo entre a escola e a profissão de prostituta de luxo.

“L’amant double”, de François Ozon, thriller psicológico com toques estilísticos que remetem aos filmes do gênero “giallo” de Dario Argento, concorre à Palma de Ouro. Na sessão para imprensa, entre momentos de alta tensão e elegante erotismo, o filme também provocou risos pelas suas recaídas no melodrama (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial de “L’amant double” (Divulgação):

Neste novo mergulho no inconsciente feminino, tal como Ozon cinematograficamente o idealiza, Vacth, no papel de Chloé, continua jovem e bela, mas muito mais perturbada e dependente psicologicamente, a ponto de ir viver com o seu terapeuta Paul (Jérémie Renier) para lá de boa gente que – por sua vez – também leva uma vida complicada, embora oculta, pois esconde da moça que tem um irmão gêmeo homozigoto Louis, também psicoterapeuta, mas para lá de perverso.

“L’amant double” não desapontará os admiradores de François Ozon pois o cardápio está completo: beleza e rigor visual impecáveis inspirados na frieza do art déco, erotismo coreografado que beira a estética publicitária, audácia temática e um subtexto impregnado de muita ironia (Foto: Divulgação)

O ator Jérémie Renier executa um verdeiro tour de force ao interpretar dois irmãos gêmeos homozigotos – chamados na genética de “puros”, dado o seu elevado grau de similaridade –, idênticos na aparência, mas completamente antagônicos em todo o resto (Foto: Divulgação)

Nesse quadro, a propalada curiosidade feminina para abrir portas fechadas e proibidas a fim de desafiar seus próprios fantasmas – Barba Azul que o diga – é satisfeita, no caso de Cholé, através da figura duplicada do seu companheiro e do jogo de embaralhamentos entre as figuras gêmeas de Paul e Louis. É essa imprudência cega que vai arrastar Chloé a um turbilhão impressionante de vicissitudes psicológicas e de peripécias eróticas – reais e imaginárias – capaz de dar inveja a um dos seus próprios mestres na arte de explorar os transbordamentos do chamado universo feminino, Pedro Almodóvar. E pronto.

Um dos grandes trunfos de “L’amant double” é a química perturbadora estabelecida entre Jérémie Renier e Marine Vacth, dois habituais colaboradores de François Ozon. O primeiro em “Les amants criminels” (1999) e “Potiche” (2010), e Vacth no maravilhoso “Jovem e bela” (2013) (Foto: Divulgação)

É com essa premissa simétrica que François Ozon monta um imbroglio narrativo que aparentemente pode ser etiquetado como thriller psicológico mas que também aceita caronas de outros gêneros primos como o giallo dos anos 1960-1970 e – é claro – o  onipresente melodrama, devidamente atualizado através de ambientações contemporaneamente elegantes, frias e minimalistas do cotidiano parisiense vivido pelo triângulo Paul-Chloé-Louis.

Para resolver o puzzle labiríntico em que se transforma o final de “L’amant double”, Ozon – grande apaixonado dos clássicos de Hollywood – apelou para uma citação-homenagem à famosa cena do tiroteio na sala de espelhos de “A dama de Xangai” (1947), de Orson Welles, com a diva Rita Hayworth (Foto: Reprodução)

É notório o partido pela estilização visual que François Ozon tomou desde seus primeiros tempos de cinefilia e de estudante da Sétima Arte. Quem ainda for nostálgico do neorrealismo clássico do pós-guerra ou de todos os novos neorrealismos que afloraram desde então, deve se afastar de Ozon como o diabo foge da cruz. Ao enxergar a criação cinematográfica como uma incursão exploratória do cinema como mitologia e campo de releituras, o diretor vem construído uma luxuriante filmografia movido por dois únicos critérios, suas próprias idiossincrasias estético-estilísticas e uma pegada de fina ironia que nos remete principalmente a Billie Wilder e Joseph L. Mankiewicz.

A bela Marine Vactis chegou ao cinema através da moda e da publicidade, tendo sua imagem se popularizado na campanha do perfume Parisienne de Yves Saint Laurent. No provocante “Jovem e bela” (2013) – espécie de “A bela da tarde” do século XXI –também de François Ozon, Vacth foi reconhecida como atriz competente (Foto: Reprodução)

Por essa razão, “L”amant double” dá a impressão de mudar de marcha a cada 20 minutos: arranca como um poderoso thriller psicológico, evoluiu para um drama pornô soft chic do anos 1980, na linha de Nove semanas e meia de amor”, do meio para o final descamba para um melodrama deslavado em que não falta nem uma mãe relapsa arrependida (Jacqueline Bisset), para tudo acabar como num filme noir dos anos 1940, com um turbilhão de confissões reveladoras de última hora que deixam o público mais confuso do que surpreendido.

François Ozon com Jacqueline Bisset no photo call, ontem à tarde, no Palácio dos Festivais. A estrela que brilhou intensamente nas décadas de 1960 a 1980 em sucessos como “Bullitt” (1968), “Aeroporto” (1970), “O Magnífico” (1973), “O fundo do mar” (1977) e “Ricas e famosas” (1982), volta a Cannes aos 72 anos (Foto: Divulgação)

Mais tarde, na montée des marches para a exibição de gala de “l’amant double” , Marine Vacth apelou para um visual boyish e um modelito transparente, na linha audaciosa de Monica Bellucci, ao lado do diretor François Ozon, dos atores Jérémie Renier e a gloriosa Jacqueline Bisset (Foto: Divulgação)

A britânica Jacqueline Bisset foi considerada uma das mais lindas atrizes da tela. François Truffaut soube explorar como ninguém sua beleza pura no clássico “A noite americana” (1973), com Jean-Pierre Léaud, Oscar de ‘Melhor Filme Estrangeiro’ de 1973 (Foto: Reprodução)

Assim, com tantas curvas para percorrer, não é de se estranhar que a assistência de jornalistas que lotou a enorme Sala Debussy do Palácio dos Festivais tenha passado pelos mais variados estados de espírito durante a projeção de “L’amant double”, desde o voyeurismo proporcionado por um Adrian Line, passando pelo suspense hitchcockniano clássico ou pelo sentimentalismo cult de um melodrama de Almodóvar. Difícil mesmo é não conseguir se divertir dentro desse parque de diversões cinematográfico kitsch-elegante de François Ozon com seu arsenal de atrações típico daqueles que se embriagaram e enlouqueceram com o cinema desde crianças.

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