Logo na cerimônia de abertura do Festival do Rio 2016 há 13 dias [acesse aqui à cobertura do ÁS para essa cerimônia], as diretoras do maior evento cinematográfico do país Ilda Santiago e Walkíria Barbosa deixaram bem claras duas coisas: primeiro, que não iriam permitir qualquer queda de qualidade da mostra, apesar do encurtamento da sua duração – reduzida de 14 para 11 dias.  Segundo: não deixariam a festa do cinema se contaminar com as divisões político-ideológicas e o clima de intolerância que estão jogando os brasileiros uns contra outros. As duas iniciativas – pelo menos durante essa verdadeira maratona cinematográfica – foram bem-sucedidas.

Afinal, a subtração de três dias, segundo Ilda, alinha o Festival do Rio com a duração dos grandes festivais do mundo, como os de Cannes, Veneza e Berlim, cujas jornadas ocorrem entre 10 e 12 dias. Já a redução do número de obras exibidas trouxe vantagens, segundo sua diretora artística: primeiro, porque o patamar de 250 filmes é bem mais razoável, pois não frustra nem assusta um público diante de números impossíveis de serem assimilados, como já foram os 400 títulos programados num dos eventos passados. Além disso, o importante não é propriamente a quantidade, mas sim a qualidade e a diversidade dos títulos reunidos para compor a mostra.

" DOMINION " Photo by Philippe Bosse

Geralmente visto em longas como um coadjuvante de luxo, o galês Rhys Ifans (à esquerda, ao lado de Romola Garai) protagoniza “Dominion”, filme independente de Steven Bernstein que narra os últimos momentos do poeta Dylan Thomas na produção que abriu o festival. (Foto: Philippe Bosse / Divulgação)

HÁ QUINZE ANOS ATRÁS…

Se o Troféu Redentor celebra a produção mais recente do cinema brasileiro, o Festival do Rio – através das homenagens paralelas – não se esquece do nosso passado cinematográfico. A edição de 2016 foi escolhida para uma exibição comemorativa dos 15 anos de “Lavoura Arcaica” (2001), obra-prima de Luiz Fernando Carvalho, baseada no romance de mesmo nome de autoria de Raduan Nassar, escritor brasileiro de origem libanesa. 

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Walter Carvalho, diretor de fotografia de “Lavoura Arcaica” tenta explicar, entre uma lágrima e outra e 15 anos depois, como criou uma das fotografias mais primorosas do cinema brasileiro, construída de contrastes entre luz e sombra que remetem a pintores como Vermeer e Goya, sem deixar de lado as experimentações com o foco e as cores, enquanto Ilda Santiago, a produtora Raquel Couto e o intérprete principal do filme, Selton Mello, derretem-se com a fala dele (Foto: Divulgação)

No quesito tolerância, mais um ponto para o Festival do Rio, verdadeira Babel cinematográfica cujas diversas tribos conseguem conviver num clima de gozo estético adotando uma única língua: a do cinema. Foi assim que a estigmatizada produção Pequeno segredo (2016), dirigida por David Schurmann conseguiu seu lugar na mostra Première Brasil do festival depois de ter sido escolhida para representar o nosso país na candidatura ao Oscar da Academia para ‘Melhor Filme Estrangeiro’. Essa honra, entretanto, vem custando caro ao filme estrelado por Julia Lemmertz, Maria Flor e Marcello Antonny: depois dessa indicação, “Pequeno segredo” tem sido perseguido por uma versão tropical da Ku Klux Klan que faz lembrar as abomináveis “patrulhas ideológicas” que infernizaram a vida de alguns cineastas brasileiros durante os anos 1970 que apostaram na abertura política da ditadura militar. Se o filme ainda está pagando o pato pelo Fla-Flu em que se transformaram os debates no meio cultural brasileiro, pelo menos conseguiu uma janela exibidora durante o Festival do Rio.

E por falar em “patrulhas ideológicas”, Cacá Diegues – o diretor que cunhou a expressão depois dos massacres que suas obras Xica da Silva (1976) e Chuvas de verão (1977) sofreram por não atender aos requisitos ideológicos de determinados grupos de pressão – foi o artista escolhido pela organização do festival para receber um Prêmio de Carreira pelo seu conjunto único de obras. Merece.

Agora, só resta esperar pela edição de 2017! Pois cariocas e brasileiros sabem que – quando o próximo outubro chegar – a aposta no cinema será renovada mais uma vez, com ou sem crise.

DE ASTRO A JURADO

 Rodrigo Santoro, nosso Brazilian bombshell, brilhou duplamente durante o Festival do Rio: primeiro como um dos protagonistas de “Dominion” (2016), do diretor americano Steven Bernstein, um dos filmes mais aguardados da mostra. Em segundo lugar, como membro do Júri de Premiação da Seleção Oficial do Festival.

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Logo após a sessão de gala de “Dominion”, no Cine Odeon, o ator Rodrigo Santoro conta como foi atuar ao lado de feras como Rhys Ifans e John Malkovitch. O filme narra as horas finais da vida do genial poeta galês Dylan Thomas (1914-1953) que morreu depois de ingerir 18 doses de uísque (Foto: Divulgação)

UM BANQUETE DOS DEUSES

O Festival do Rio exibiu verdadeiras pérolas colhidas e premiadas nos maiores e mais importantes festivais do mundo como Cannes, Veneza, Berlin, Toronto, Sundance e Locarno. Se você perdeu alguns deles ao longo da maratona cinematográfica que tomou conta do Rio de Janeiro de 6 a 16 de outubro, fique de olho, pois algumas obras já foram adquiridas por distribuidoras brasileiras.

“Eu, Daniel Blake” (I, Daniel Blake, 2016, Reino Unido), o violento libelo político  de Ken Loach arrebatou a Palma de  Ouro do Festival de Cannes 2016:

O inferno familiar dissecado pelo canadense Xavier Dolan “É apenas o fim do mundo” (Juste la fin du monde, Canadá/França, 2016) levou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2016. Conta com um elenco super estelar: Léa Seydoux, Marion Cotillard, Vincent Cassel, Nathalie Baye e Gaspard Ulliel, que já foi Yves Saint Laurent no filme de 2014 de Bertrand Bonello:

O aclamado diretor russo Andrei Konchalovsky recebeu o Leão de Prata (Melhor Direção) do Festival de Veneza 2016 por “Paraíso” (Rai, Rússia/Alemanha, 2016), devastadora crônica sobre a condição humana em tempo de guerra:

O belíssimo e corajoso documentário de longa-metragem  “Mapplethorpe: Look  at the pictures” (Estados Unidos/Alemanha, 2015), da dupla Fenton Bailey e Randy Barbato, é a primeira realização séria  sobre o polêmico e genial fotógrafo americano desde a sua morte (1989) e foi muito bem recebido em Sundance e Berlim 2016:

A comédia dramática  alemã “Toni Erdmann” (Idem, Alemanha/Áustria, 2016) da diretora Maren Ede recebeu o pêmio FIPRESCI do último Festival de Cannes e representa a Alemanha no Oscar de Melhor Estrangeiro de 2016:

Confira abaixo a lista completa dos vencedores da “Première Brasil” e demais prêmios do Festival do Rio 2016:

“Première Brasil” :

Troféu Redentor (Seleção Oficial):

JÚRI: presidido por Charles Tesson, crítico e Diretor da Semana da Crítica do Festival de Cannes, e composto por Maria Augusta Ramos, diretora, Rodrigo Santoro, ator e Sandra Kogut, diretora:

MELHOR LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO – Fala Comigo”, de Felipe Sholl

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Em “Fala comigo”,  o personagem de Tom Karabachian (esq.) reúne a excitação do primeiro relacionamento às típicas situações da adolescência. Por isso mesmo, o longa-metragem também dialogo com um público jovem. “Quando escrevi o roteiro, pensei em um filme mais cerebral, tipo circuito de arte”, revelou o diretor Felipe Sholl, que, porém, admitiu que é impossível não se ligar no Diogo e suas descobertas. “Parte da plateia pensa: ‘ora, ele está se envolvendo com uma maluca’ e a outra metade torce para eles darem certo. Mas, as duas parcelas dos espectadores estão envolvidas com a história.”, completa. (Foto: Divulgação)

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Em cerimônia que aconteceu no domingo (16/10) à noite no Espaço BNDES, no Rio, o Troféu Redentor de Melhor Longa de Ficção foi entregue para “Fala comigo”, primeiro longa-metragem do diretor carioca Felipe Sholl (o último à direita) que se surpreendeu visivelmente pela vitória com o drama estrelado por Karine Teles e Denise Fraga. Com o troféu na mão, o produtor Daniel Van Hoogstraten celebra a vitória (Foto: Divulgação)

[Concorreram: “Comeback“, de Erico Rassi; Era o Hotel Cambridge“, de Eliane Caffé; Mulher do Pai“, de Cristiane Oliveira; O Filho Eterno“, de Paulo Machline; Redemoinho“, de José Luiz Villamarim; Sob Pressão“, de Andrucha Waddington; Vermelho Russo“, de Charly Braun]

MELHOR LONGA-METRAGEM DE DOC – A Luta do Século”, de Sérgio Machado

O Troféu Redentor de Melhor Documentário foi para o sensacional “A luta do século”, do baiano Sérgio Machado – o mesmo diretor de “Abril despedaçado” (2001) e “Cidade Baixa” (2005) – que explora uma das mais acirradas e impagáveis rivalidades do boxe mundial, entre Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfeild. Saiba mais na matéria da Trip TV:

[Concorreram: Curumim“, de Marcos Prado; Divinas Divas“, de Leandra Leal; O Jabuti e a Anta“, de Eliza Capa; Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos“, de Sergio Oliveira; Waiting for B.”, de Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel]

MELHOR CURTA-METRAGEM –  O Estacionamento”, de William Biagioli

Menção Honrosa curta-metragem – Demônia, um Melodrama em 3 atos”, de Fernanda Chicollet e Cainan Baladez

MELHOR DIREÇÃO DE FICÇÃO – Cristiane Oliveira por  Mulher do Pai

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Cristiane Oliveira recebe o prêmio de Melhor Direção de Ficção por “Mulher do pai”, co-produção com o Uruguai, que ainda levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Verónica Perrotta (Foto: Divulgação)

MELHOR DIREÇÃO DE DOC – Sérgio Oliveira por Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos” 

Menção Honrosa Direção de Documentário – Marcos Prado, por Curumim

MELHOR ATRIZ – Karine Teles, por Fala Comigo

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A petropolitana Karine Teles, a eterna vilã de “Que horas ela volta?”, recebe o prêmio de Melhor Atriz por “Fala comigo” no papel de uma “quarentona deprimida e com histórico de suicida” que se envolve com o filho adolescente de Denise Fraga (Foto: Divulgação)

MELHOR ATOR – Nelson Xavier, por Comeback e Julio Andrade por Redemoinhoe Sob Pressão

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O prêmio de Melhor Ator foi dividido entre Júlio Andrade (na foto) pelo seu trabalho em dois filmes – “Redemoinho” e “Sob pressão” -, e Nelson Xavier, por “Comeback”, que não compareceu à cerimônia (Foto: Divulgação)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – Verónica Perrotta, por Mulher do Pai

MELHOR ATOR COADJUVANTE – Stepan Nercessian, por Sob Pressão

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O veteraníssimo Stepan Nercessian conquista, aos 62 anos, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por “Sob pressão”, drama de Andrucha Waddington que narra o dia a dia prá lá de estressante de um hospital público (Foto: Divulgação)

MELHOR FOTOGRAFIA – Fernando Lockett, por Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanose Heloisa Passos, por Mulher do Pai

MELHOR MONTAGEM –  Marcio Hashimoto, por Era o Hotel Cambridge

MELHOR ROTEIRO –  Martha Nowill e Charly Braun, por Vermelho Russo

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI – Redemoinho”, de José Luiz Villamarim

“Première Brasil” :

NOVOS RUMOS (Seleção Paralela):

JÚRI: composto por Beth Sá Freire, curadora, Eron Cordeiro, ator e Marina Meliande, produtora e diretora.

MELHOR FILME –  Então Morri”, de Bia Lessa e Dany Roland

MELHOR CURTA – Não me prometa nada”, de Eva Randolph

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI –  Deixa Na Régua”, de Emílio Domingos

Menção Honrosa – Layla Kayã Sah pela atuação  em Janaína Overdrive”, de Mozart Freire

VOTO POPULAR:

A VOZ DO POVO

Os três vencedores do Prêmio do Público é apurado ao longo das exibições abertas dos filmes da Seleção Oficial.

Confira o grito das urnas:

MELHOR LONGA FICÇÃO: Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

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A diretora paulista Eliane Caffé abraça o ator José Dumont enquanto agradece o prêmio de Melhor Longa Ficção Voto Popular por “Era o Hotel Cambridge” sobre a ocupação de um edifício abandonado por refugiados e sem-teto no centro de São Paulo. O Melhor Curta de Ficção Voto Popular ficou para “Demônia, um melodrama em 3 atos”, de Fernanda Chicollet e Cainan Baladez (Foto: Divulgação)

MELHOR LONGA DOCUMENTÁRIO:  Divinas Divas”, de Leandra Leal

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O povão não teve dúvidas: mandou o troféu de Melhor Documentário Voto Popular diretamente para as mãos de Leandra Leal, diretora de “Divinas divas”, que celebra a primeira geração de artistas travestis do Brasil formada por Rogéria e Jane Di Castro (ambas no palco), Divina Valéria, Camille K e Eloína dos Leopardos, entre outras (Foto: Divulgação)

E POR FALAR EM DIVINAS…

Leandra Medeiros Cerezo, conhecida por Lea T., foi a primeira tras a participar oficialmente de um mega evento global como foi a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio 2016. Além disso, é “the face” de grifes como Benetton, Givenchy e Redken. Lea T também foi considerada pela revista de negócios Forbes como uma das mulheres mais poderosas da moda italiana. Muito além destes predicados, foi sua luta contra o preconceito e a discriminação de orientação sexual e de gêneros que lhe valeu o Prêmio Suzy Capó-Personalidade Felix do Ano, homenagem do Festival do Rio a personalidades de destaque da cena LGBTQ brasileira.

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As “divinas divas” do documentário de Leandra Leal cercam Lea T no momento da homenagem, sob o olhar das não menos divinas diretoras do Festival do Rio, Walkíria Barbosa e Ilda Santiago (Foto: Divulgação)

MELHOR CURTA DE FICÇÃO:  Demônia, um melodrama em 3 atos”, de Fernanda Chicollet e Cainan Baladez

PRÊMIO DA CRÍTICA FIPRESCI:

JÚRI: Klaus Eder, Ivonete Pinto e Filippo Pitanga

Viejo Calavera”, de Kiro Russo

 “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

PRÊMIO FELIX:

JÚRI: Katia Adler, organizadora e diretora do Festival de Cinema Brasileiro de Paris e dos Festivais de Toronto e Montreal, Milton Cunha, jornalista, carnavalesco internacional e comentarista da TV Globo, e Gilson Packer (Gerente Geral do CineSESC e também coordenador  do Projeto Tchorfland que retratará 20 anos da militância LGBT em São Paulo)

Melhor Longa Ficção:  Rara (Estranha)”, de Pepa San Martin

Melhor Longa Doc: Divinas Divas”, de Leandra Leal

Prêmio Especial do Júri: Love Snaps”, de Daniel Ribeiro e Rafael Lessa

Prêmio Suzy Capó Personalidade Felix de 2016:  Lea T.

MOSTRA GERAÇÃO – VENCEDOR DO JÍRI POPULAR:  Bruxarias” (Brujerías), de Virginia Curiá –  Animação/ Espanha / Brasil

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