Uma “carta de amor”, um “manifesto em prol do desejo”, uma “celebração da sensualidade”. Clichês, ou não, são com expressões derramadas como estas que o último filme de Luca Guadagnino Me chama pelo seu nome”(Call me by your name, 2017, Itália/EUA/Brasil/França) vem sendo recepcionado pelo exigente público de mostras internacionais dos Estados Unidos e Europa, a ponto de esta adaptação do romance homônimo do escritor americano André Aciman (publicado originalmente em 2007) estar sendo chamada de “queridinha dos festivais”. Um sucesso que não cancela todas as dificuldades e atrasos envolvidos em sua longa fase de pré-produção, conforme Guadagnino vem revelando em entrevistas.

Dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, “Me chame pelo seu nome”, delicado drama sobre a passagem para a maturidade com fundo gay, chega ao Festival do Rio como uma das suas principais atrações depois de recepções calorosas em importantes festivais e mostras internacionais (Foto: Divulgação)

A equipe de “Me chame pelo seu nome”: o diretor Luca Guadagnino, os atores Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg e o editor Walter Fasano no Festival Sundance de Cinema, em janeiro deste ano, onde estreou mundialmente, arrebatando logo de cara o público no contexto de um evento considerado bastante fraco pela imprensa americana (Foto: Reprodução)

Quase um mês depois, no Festival de Berlim, a equipe reuniu-se novamente para mais uma première triunfal. A imprensa alemã chamou a atenção para a atmosfera solar e otimista de “Me chame pelo seu nome” num momento em que os filmes artisticamente mais ambiciosos produzidos mundo afora mergulham no pessimismo (Foto: Reprodução)

Para começar, depois de o projeto ter sido apreciado e descartado por diversos diretores, chegou-se a pensar numa co-direção de Guadagnino ao lado do consagrado James Ivory, que trabalhou no roteiro depois de vários meses fazendo ajustes que facilitassem a captação de recursos. Após essa etapa, o próprio Guadagnino peregrinou durante cinco anos no Festival de Cannes com o projeto em mãos atrás de financiamento.

O roteiro original de “Me chame pelo seu nome” é de autoria do celebrado James Ivory, diretor de costume pictures oscarizados como “Uma janela para o amor” (1985), “Maurice” (1987) e “Retorno a Howard’s End” (1992), todos baseados em romances de E. M. Forster (1879-1970). Ivory, assim como Forster, celebram a Itália como o território preferencial para a vivência de um amor solar e sensualista (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial (Divulgação):  

Quando alguns produtores finalmente se entusiasmaram, como o brasileiro Rodrigo Teixeira, foi necessário ajustar o seu orçamento – para baixo, claro – a fim de vencer as resistências de um argumento com temática gay, mas abordado com delicadeza, humor sutil e sem apelação a tórridas cenas de nu frontal ou sexo selvagem. Nessa brincadeira, os recursos caíram drasticamente de US$ 12 milhões para US$ 3 milhões, e a ideia de co-direção foi abandonada para se evitar uma nova onda de negociações e atrasos.

O intenso mas hesitante romance de verão entre Elio (Thimothée Chalamat), um adolescente de 17 anos e filho único de uma culta e cosmopolita família de origem judaica, e Oliver (Armie Hammer) um acadêmico americano, não apela em nenhum momento para cenas explícitas de sexo ou mesmo de nudez frontal, apesar dos muitos beijos e da intensa atividade masturbatória (Foto: Divulgação)

Entretanto, todos esses contratempos parecem não ter impregnado um filme que desde o primeiro minuto emana uma aura de alegre picardia e solar positividade perante as possibilidades do amor, tudo banhado pela luz do verão italiano e por um discreto registro de arte e cultura que perpassa cada angulação ou diálogo.

“Me chame pelo seu nome” propõe ao público mais avisado uma saborosa galeria de referências musicais, literárias e visuais que cobrem 2.000 anos de cultura clássica. A cena da descoberta de uma estátua romana sob as águas do Lago de Garda pode ser vista tanto como uma celebração idealizada do corpo masculino como uma metáfora das pulsões ocultas que emergem para nos surpreender (Foto: Divulgação)

A arrancada da carreira do ator californiano Armie Hammer aconteceu graças aos efeitos especiais que o duplicou nas figuras dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, sócios de Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, no filme “A rede social” (2010) de David Fincher. Ultimamente, em Hollywood, circularam rumores de que Hammer seria o próximo Lanterna Verde, um dos super herois da DC Filmes (Foto: Divulgação)

Para qualquer ator ou atriz estrangeiro o convite para filmar na Itália é garantia de que as fronteiras entre trabalho e férias logo se embaralharão. Foi o que aconteceu com Armie Hamer que publicou no seu Instagram esta foto ao lado da mulher num momento de pausa entre as filmagens de “Me chame pelo seu nome” na cidade lombarda de Crema (Foto: Reprodução)

Essa busca pela leveza e pela suavidade estava presente desde o início do projeto, como se depreende da declaração de Guadagnino ao The Hollywood Reporter, quando decidiu evitar atores gays ao escalar a dupla central de amantes: “Com esta história busquei uma ligação profunda do público com essa viagem emocional de protagonistas que estão tendo as sensações do amor pela primeira vez. Não quis que as pessoas diante do filme alimentassem qualquer estranheza ou discriminação em relação aos personagens. Para mim, o objetivo principal era narrar uma história que passasse uma poderosa universalidade e a ideia fundamental de que uma pessoa pode despertar em nós a beleza, pode nos iluminar e nos elevar”.

Como não se encantar com esse propósito e, ainda por cima, com todo o charme de um produto Made in Italy?

Um dos mais belos momentos de “Me chame pelo seu nome” ocorre quase no final, quando o Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) faz revelações íntimas e surpreendentes ao filho Elio. Aliás, Stuhlbarg – ator já requisitado pelos irmãos Coen, Scorsese, Spielberg e Woody Allen – comparece em dose dupla no Festival do Rio pois ele também atua em “A forma da água” (leia mais aqui) , de Guillerme del Toro, que abriu o evento (Foto: Divulgação)

UM DIRETOR E SUA MUSA

O siciliano Luca Guadagnino tem se destacado no cinema italiano e internacional através de obras como “Um sonho de amor” (2009) com Tilda Swinton e Flavio Parenti e “Um mergulho no passado” (2015), novamente com Tilda, além de Ralph Fiennes. Esse prestígio fez com que ele fosse escolhido para dirigir o esperado remake do giallo de horror de Dario Argento “Suspiria” (1977), atualmente em finalização e estrelado por….Tilda Swinton.

UMA ECLÉTICA VIAGEM MUSICAL

Ambientado em 1983, em plena explosão da new wave, a trilha musical de “Me chame pelo seu nome” não se restringe a colar sucessos da época como “Love my way” do The Psychedelic Furs. Bach e Debussy  também comparecem ao lado de canções criadas especialmente para o filme pelo compositor, cantor e instrumentista americano Sufjan Stevens, como o simpático tema principal do filme “Mystery of love”. Ouça aqui:

Mas também volte aos early eighties aqui:

Serviço:

Próximas exibições de “Me chame pelo seu nome” no Festival do Rio:

Dia 14/10, sábado, 21h30, Estação Net Rio 3

Dia 15/10, domingo, 15h10, Reserva Cultural Niterói 4

Estreia nacional: 18 de janeiro de 2018.

Sobre a mostra Foco Itália e o Prêmio Felix acesse: www.festivaldorio.com.br

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