Depois de quase duas décadas de existência que o transformaram num dos eventos culturais mais bem-sucedidos e esperados do país, o Festival do Rio esbanja, mesmo com a crise, cacife suficiente para abrir as suas mais recentes edições com obras que são o filé mignon da produção cinematográfica mainstream de Hollywood, como foi o caso de 2016, com o celebrado A chegada”, de Denis Villeneuve, e agora com A forma da água (The shape of water, 2017, Double Dare You Productions/Fox Searchlight Pictures), roteirizado (com Vanessa Taylor) e dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro, que arrebatou o Leão de Ouro do último Festival de Veneza e se avulta como um forte candidato a várias estatuetas do Oscar na cerimônia de 4 de março do ano que vem.

RESISTÊNCIA CULTURAL: PALAVRA DE ORDEM NA LARGADA DO FESTIVAL
Durante a abertura do Festival do Rio 2017, na última quinta-feira (05/10), a incansável dupla que organiza há 19 anos o maior evento cinematográfico do país, Ilda Santiago e Walkíria Barbosa, ressaltaram que a sobrevivência do festival neste momento de crise aguda só foi possível graças aos empenho redobrado de agentes culturais do Rio, de empresas e de embaixadas. Assista ao clipe de abertura:

As nuvens do obscurantismo que estão passando há alguns anos sobre o nosso país geram, por outro lado, preocupações e articulações de resistência. Mariana Ximenes, apresentadora do evento, e Débora Bloch empunharam mensagens pela liberdade de expressão na noite da última quinta-feira no cine Odeon (Foto: Reprodução)

Se no centro da trama de “A forma da água” temos uma criatura híbrida que mistura características humanas e anfíbias disputada por americanos e russos, o próprio filme de Guillermo del Toro também envereda pelo hibridismo, embaralhando sem nenhum pudor vários gêneros popularizados pelos filmes “B” produzidos pela fábrica de sonhos de Hollywood – a ficção científica, o melodrama, o musical, o thriller de espionagem ou a comédia pastelão.

“A forma da água”, último filme do mexicano Guillermo del Toro, abriu belamente o Festival do Rio e tornou a Cinelândia carioca – após os festivais de Veneza e o de Toronto – o terceiro lugar do mundo que saboreou essa mistura inusitada de ficção científica, melodrama, fantasia e filme noir. Mas a estreia comercial da obra no Brasil só acontecerá em janeiro de 2018 (Foto: Divulgação)

Richard Jenkins, Octavia Spencer, Sally Hawkins e o diretor Guillhermo del Toro posam no red carpet do último Festival de Cannes, em agosto passado, antes da première de gala de “A forma da água”, de onde saiu com quatro prêmios, incluindo o Leão de Ouro de Melhor Filme. Aliás, os grandes títulos americanos que estrearam ou foram premiados ultimamente em Veneza acabam sendo muito bem sucedidos, meses depois, na cerimônia do Oscar (Foto: Reprodução)

Confira abaixo o trailer oficial de “A forma da água” (Divulgação): 

E assim apostando nesse ecletismo estilístico e referencial, tudo naturalmente filtrado pelo seu peculiar surrealismo, del Toro pode ir à luta sem se preocupar em disfarçar que o seu objetivo é homenagear o cinema como território do escapismo, da tolerância e da liberdade para as almas indefesas, segregadas, atropeladas e descartadas pela brutalidade do mundo, aqui representada pela Guerra Fria que transformou o planeta num jogo cínico de xadrez entre duas superpotências em que ciência e tecnologia viraram meras ferramentas para a sujeição de um império pelo outro.

O amor que une a muda Elisa ao homem-anfíbio é movido por um conjunto de sentimentos nobres que não excluí a forte sensualidade que a criatura exerce sobre a moça com poucos atributos físicos. Num momento em que o politicamente correto, leis, estatutos, redes sociais e credos religiosos monitoram cada segundo das nossas vidas, “A forma da água” pode até correr o risco de ser acusado de promover a zoofilia! (Foto: Divulgação)

Remetendo à mesma atmosfera opressiva, taciturna e nostálgica de A rosa púrpura do Cairo”, obra-prima de Woody Allen de 1985, acompanhamos as peripécias deste pequeno “exército de Brancaleone” formado por Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira muda e feiosa, e seus dois solidários amigos: Zelda (Octavia Spencer), sua colega de trabalho negra e irônica, e Giles (Richard Jenkins), vizinho no decadente prédio onde mora Elisa, ilustrador desempregado gay que vive do culto aos velhos musicais da Fox reprisados na TV.

A química entre as atrizes Sally Hawkins, Urso de Prata em Berlim por “Simplesmente feliz”, e a oscarizada Octavia Spencer ajudou na composição da amizade entre as personagens Elisa e Zelda, as duas faxineiras que desafiam a segurança de um misterioso laboratório do governo norte-americano e espionado pelos russos. Aliás, Octavia Spencer vem de um outro sucesso – “Estrelas além do tempo” (2016) – que também explora a Guerra Fria e a competição bélico-tecnológica entre americanos e soviético nos anos 1960 (Foto: Divulgação)

O projeto dessa gente humilde e humilhada, mas do bem, é salvar a criatura capturada na Amazônia que está prestes a ser vivisseccionado por um brutal agente do governo (Michael Shannon) incumbido pelos militares de extrair na “marra” as faculdades regenerativas do anfíbio para serem testadas nos astronautas do programa espacial da Era Kennedy, enquanto os russos agem no sentido de roubá-lo dos americanos com o mesmo objetivo. Mas será a premissa romântica que vai conferir ao filme seu poder emocional e arrebatar o coração do público: Elisa atrai, seduz e se apaixona pela criatura que – por sua vez – corresponde aos interesses da solitária e erotizada moça.

Em “A forma da água”, a recriação da Baltimore de 1963 mesclada à atmosfera gótica de ficção científica no estilo de H. G. Wells (1866-1946) foi possível graças aos talentos de Paul D. Austesberry, que bolou o visual de “A Saga Crepúsculo: Eclipse” (2010), Nigel Churcher responsável pela arte de “Homem-Formiga” (2015) e o figurinista Luis Sequeira de “A coisa” (2011) (Foto: Divulgação)

No contraponto de todas essas linhas dramáticas, Guillermo del Toro ainda exibe uma longa galeria de referências cinematográfica recrutadas no panteão de estrelas da 20th Century Fox, como Shirley Temple, o sapateador Bill Bojangles, Alice Faye, Betty Grable, Carmen Miranda, Benny Goodman, ou no universo televisivo da época como – pasmem! – o cavalo-falante Mister Ed, que não deixa de ser um dos precursores da fantasia de que os limites entre a esfera humana e a “animal” são bem tênues.

As criaturas fantásticas que povoam o mundo barroco-onírico de Guillermo del Toro devem muito à atuação do ator norte-americano Doug Jones, especializado nesse tipo de caracterização. Em 2006, com o seu 1m92 de altura, ele deu corpo a vários personagens de “O labirinto do fauno” do mesmo diretor de “A forma da água” que o escalou novamente para viver o homem-anfíbio (Foto: Reprodução)

Essa divertida evocação culmina com uma arriscada sequência de sonho em preto e branco – com o potencial de afundar completamente o seu filme, diga-se – em que Elisa dança com o anfíbio como tivesse sido transportada para um dos antigos musicais art déco da RKO com Fred Astaire e Ginger Rogers. Neste ponto de “A forma da água”, um murmúrio de incredulidade pairou sobre plateia reunida na sessão desta noite de quinta-feira (5/10) no Odeon, e foi quando muitos devem ter pensado: “Bem, Guillermo Del Toro já pode tudo”.

“A FORMA DA ÁGUA”: UM MAR DE REFERÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS

Um dos atrativos mais charmosos da obra de Guillermo del Toro é a homenagem que ele presta à Hollywood camp das décadas de 1930 a 1960 através de clássicos populares da 20th Century Fox, desde Shirley Temple. Acompanhe algumas das referências que pontuam boa parte do filme: 

“O MONSTRO DA LAGOA NEGRA”

Ao longo da década de 1950, Hollywood investiu pesado em filmes de ficção-científica protagonizados por uma variadíssima fauna de criaturas bizarras que, segundo os críticos, simbolizavam a paranoia americana perante os perigos da radioatividade e de um conflito atômico com os russos. “O monstro da Lagoa Negra”, clássico de 1954 de Jack Arnold, assim como o homem-anfíbio de “A forma da água” é fruto da descoberta de uma expedição científica na Amazônia.

“A HISTÓRIA DE RUTH”

Este bíblico kitsch foi lançado em 1960 estrelado por uma novata com o inacreditável nome de Elana Eden. Em 1963, ele é o filme ainda em cartaz no velho cinema de bairro Orpheum, no fantasmagórico prédio art nouveau onde moram Elisa (Sally Hawks) e seu vizinho gay Giles (Richard Jenkins). No final dos anos 1950, os épicos bíblicos pareciam uma saída para a crise financeira dos estúdios de Hollywood. Mas “A história de Ruth” fracassou nessa tentativa de salvamento da Fox.

“UMA NOITE NO RIO”

Entre as antigas estrelas da 20th Century Fox, Carmen Miranda é a que recebe o maior quinhão no filme de Guillermo del Toro. Uma sequência inteira de “A forma da água” é animada pela deliciosa canção “Chica Chica Boom Chic” que abre o clássico “Uma noite no Rio” (1941), um dos sucessos espetaculares de Carmen que a transformou na “Rainha do Technicolor”.

AS LOURAS DA FOX

A 20th Century Fox era conhecida como o “estúdio das louras”. No seu mitológico exército de blondies pontificaram Alice Faye e Betty Grable – aqui juntas no grande sucesso de 1940 “A vida é uma canção” –, a patinadora norueguesa Sonja Henie e – o arquétipo absoluto da loura cinematográfica – Marilyn Monroe.

A SOLIDÃO AMERICANA

Considerado um dos mais geniais artistas americanos, Edward Hopper (1882-1967) retratou como ninguém o vazio fantasmagórico da vida americana, como neste célebre quadro de 1939 em que um enorme palácios cinematográficos torna-se a própria expressão da solidão urbana como o fictício cine Orpheum que aparece em “A forma da água”.

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