“Me inspirei nos Stones”, manda logo na lata a fera Marília Carneiro, responsável pelo figurino de Ligações Perigosas a minissérie global que tem bombado nos últimos dias na telinha. E, no papo exclusivo por telefone com o ÁS, a costume designer continua: “Aquilo tudo que eles fazem na história é muito rock’n’roll, mais contracultura impossível”, pontua se referindo ao comportamento despudoradamente libertino dos vilões Isabel D’Ávila de Alencar (Patricia Pillar) e Augusto de Valmont (Selton Mello), capazes de vender a alma ao cramulhão para darem cabo de seus propósitos de sedução e vingança.

Ligações Perigosas Marília Carneiro Selton e Patricia final

Isabel D’Ávila (Patricia Pillar) e Augusto de Valmont (Selton Mello): dupla de vilões ardilosos de “Ligações Perigosas” são “vampiros”, na opinião da figurinista Marília Carneiro (Foto: Divulgação / TV Globo)

“Nesse caso, o diabo não veste Prada. Fugi o que pude do Grande Gatsby”, conta Marília, afirmando que suas referências não foram as duas últimas versões do romance de F. Scott Fitzgerald para o cinema. Mesmo com a beleza dos mais de 200 deslumbrantes vestidos criados por Miuccia Prada para a recente adaptação dirigida por Baz Luhrmann e com a realização da Globo transposta para os anos loucos, Marília admite que procurou passar ao largo da interpretação literal dos anos 1920, embora tenha pensado muito em Chanel: “Ela era uma revolucionária nesse tempo: vestia uma chemise branca ou um tubinho de jérsei preto enquanto estava todo mundo na onda pós-vitoriana de Paul Poiret. Coco (Chanel) era moderna e tinha a cabeça aberta como os protagonistas do romance de Choderlos Laclos ou a turma que viveu o misto de desbunde com glam rock dos early seventies”, conta.

Marilia Carneiro 2 final

Pegada seventies em ação passada nos anos 1920: para Marília Carneiro, existe um aroma rock’n’roll na trama de “Ligações Perigosas”, atualmente no ar (Foto: Divulgação)

Entre uma deliciosa gargalhada e outra, a figurinista comenta que não vê o personagem de Selton Mello como um almofadinha daquela época, com os cabelos moldados por litros de gomalina: “Ele tem a libido de quem viveu a revolução sexual. Ele precisava ter uma cara mais de roqueiro, daqueles que enfiam o pé na jaca, do que de um Douglas Fairbanks sedutor”.

Para tanto, ela admite que a figura de Keith Richards, dos Rolling Stones, foi quem lhe veio à mente: “Aquele olho marcado com cajal, o aspecto de vampiro, o shape longilíneo com cara de quem se veste em Carnaby Street (Londres). Muito mais que o Mick (Jagger), ele é o verdadeiro sanguessuga” brinca, deixando claro que enxerga Augusto de Valmont e Isabel D’Ávila como criaturas da noite: “São vampiros. O que eles fazem com todos à sua volta é vampirismo”.

Ligações Perigosas Marília Carneiro Keith Richards final

Keith Richards: dos olhos marcados à postura de sanguessuga, para a figurinista Marília Carneiro o pop star é “sem dúvida uma inspiração” para o figurino de ‘Ligações Perigosas’ (Foto: Reprodução)

Ligações Perigosas Marília Carneiro the rolling stones 3 final

Rolling Stones: segundo da esquerda para a direita, Keith Richards representaria no visual a quintessência predatória do Augusto de Valmont interpretado por Selton Mello em “Ligações Perigosas” (Foto: Reprodução)

Ligações Perigosas Marília Carneiro Selton final

Valmont por Marília Carneiro: visual atemporal do protagonista amoral de “Ligações Perigosas” não representa anacronismo, mas uma leitura do comportamento libidinoso da obra de Laclos, que ela encontra paralelo na revolução de costumes dos anos 1970 (Foto: Divulgação / TV Globo)

Sem dúvida, é curiosa sua visão nada literal do estilo dos twenties, embora seja lógica: foi na virada de 1960/70 que os libertários anos vinte foram resgatados: “O art déco voltou à moda nessa época”, enfatiza. De fato, essa passagem da recente história do comportamento se caracteriza por esse retorno: tornaram a decorar as casas os vitrais, peças em pasta de vidro, o lalique, as luminárias com mosaico em vidro colorido e até as cúpulas de abajur acabadas por borlas.

Marília vai fundo na hora de associar esses dois momentos: “A turma começou a revisitar o período entre guerras no limiar dos setenta, com essa presença reproduzida no cinemão: ‘Golpe de Mestre’ (1973), ‘Os Anos verdes’ (1969), ‘Nosso Amor de Ontem’ (1973), ‘Bonnie and Clyde’ (1967), ‘A Estrela’ (1968), ‘Assassinato no Expresso do Oriente’ (1974), ‘Positivamente Millie’ (1967) e ‘Cabaret’ (1972), cujo visual eu amo. Até a versão mais famosa de ‘O Grande Gatsby’ é a do Jack Clayton, de 1974″, arremata.

Marilia Carneiro The Star Julie Andrews final

Julie Andrews encarna a atriz Gertrude Lawrence no clássico “A Estrela” (The Star, de Robert Wise, 1968), um dos longa-metragens da fornada de produções hollywoodianas que aproximou a liberalidade dos anos 1920 à nova era de hedonismo sintetizada pela revolução sexual (Foto: Divulgação)

E, como se não bastasse, é ao longo dos 1920/30 que o imaginário do vampiro se formata na cabeça do grande público, através de longas como Nosferatu (1922) e Drácula (1931). “Vale frisar que no início de ‘Ligações’ os personagens vão ao teatro assistir ao clássico de Murnau. Tudo a ver; não está no roteiro por acaso”, destaca Marília.

Ligações Perigosas Marília Carneiro dracula final

Bewaaaare”: a famosa frase proferida pelo astro húngaro Bela Lugosi no clássico de terror que definiu a estética do vampiro moderno, “Drácula” (1931) serviria perfeitamente para alertar os incautos quanto às maquinações do frio e calculista Augusto de Valmont (Selton Mello) em “Ligações Perigosas” (Foto: Reprodução)

“No fundo, muitos looks das minissérie têm uma pegada contemporânea e poderiam ser usados atualmente, tirando os chapéus e alguns elementos de produção”, ressalta a designer. Ela se refere inclusive ao visual de Aracy Balabanian (a Tia Consuelo, Madame de Rosemonde na obra original): “Podia ser uma senhora com um caftã ou um vestido amplo indo para um badalo hoje em dia. As montagens vestidas por Marjorie Estiano, Alice Wegmann e Patricia Pillar também são up to date. A Moda influencia meu trabalho, mesmo quando é de época”.

ligações perigosas globo 2 final

Modelitos contemporâneos: saem os chapéus, tiaras, faixas,na cabeça, boás e… Voilà! Surge produções atuais também para os novos tempos. “Para o visual branco de Patricia Pillar logo no início de ‘Ligações Perigosas’ pensei no estilo da vênus platinada Jean Harlow”, define Marília Carneiro, responsável pelo figurino da trama (Foto: Divulgação / TV Globo)

Nessa hora, a figurinista da TV Globo afirma não se interessar pelo historicismo, a vertente que opta pela representação literal de uma época ou civilização na direção de arte: “Digamos que eu poderia ter tido brigas homéricas com Luchino Visconti“, cita o cineasta italiano, morto em 1976 e famoso por um apuro quase arqueológico em suas realizações, sobre as quais versam registros inacreditáveis, como o de quando obrigou o costume designer Piero Tosi (habitual colaborador, indicado a 5 Oscars e e premiado com um honorário em 2014) a se entregar a um périplo de visitas intermináveis a antiquários, à caça de camisas sociais masculinas do século 19.

Reza a lenda que o diretor impingiu o profissional a garimpar em brechós itens de época originais para vestir, sob as fardas militares, todos os extras que participavam de uma cena de guerra em “O Leopardo” (1963), mesmo sabendo que o público jamais conseguiria percebê-las. Diante desse rigor de pesquisa com pouco devaneio criativo, Marília é categórica: “Não gosto dessa vibe, mas teria me divertido muito trabalhando com Fellini“.

Marília Carneiro Luchino Visconti O leopardo final

Burt Lancaster a Claudia Cardinale à frente da cena de baile em “O Leopardo”, de Luchino Visconti: para a figurinista Marília Carneiro, o excesso de amarras na rígida composição histórica das produções do diretor italiano “não é nada estimulante!” (Foto: Reprodução)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.