É a soberania absoluta das mídias sociais: não deu outra coisa neste final de semana nos smartphones, senão o casamento de princesa Disney da realeza britânica, o do Príncipe Harry com a plebeia Meghan Markle, sob a benção da avó, a Rainha Elizabeth II, e do pai, o eterno Príncipe Charles. Afinadíssimas com os tempos das vozes plurais da interação digital, as bodas realizadas neste sábado (19/5) no Castelo de Windsor provam que até a monarquia mais famosa do mundo se rendeu ao caldo irrestrito do absolutismo imperial de um mundo globalizado que põe o cetro na mão da diversidade usando o tribunal mais poderoso do planeta, os aplicativos capazes de cortar cabeças em guilhotinas online, numa cerimônia que pretende assumir a representação definitiva do tal sopro de renovação de uma linhagem real que sempre corre o risco de ser tirada do trono por correntes republicanas.

Casamento do novo milênio: as núpcias do Príncipe Harry com a plebeia afro-americana divorciada Meghan Markle promete fazer pela realeza britânica a injeção de mídia positiva que o casamento de Rainier II com a estrela hollywoodiana Grace Kelly fez pela dinastia Grimaldi em Mônaco nos anos 1950. Ao invés de figura de proa da Velha Hollywood, Markle pode vir a ocupar o pedestal absoluto das mídias sociais. Detalhe: a noiva usou Givenchy! (Foto: Reprodução)

Quando a igualmente plebeia Kate Middleton teve seu noivado anunciado com o herdeiro do trono Principe William, em novembro de 2010, e adentrou vestida de Barbie-noiva na Abadia de Westminster em 29 de abril seguinte, o fato foi alardeado como o desejo consumado de se unir matrimonialmente à opinião pública de uma monarquia que sobreviveu à modernidade, à consolidação do Novo Regime, a duas revoluções industriais, uma digital, duas guerras mundiais e a todos os rebuliços dos séculos 19 e 20. Okay, mas nessa época a força das mídias sociais ainda estava sendo desenhada a nanquim, como letras de um calígrafo num convite de casamento.

As bodas do Príncipe Willian com Kate Middleton em 2011 foram a primeira brisa de renovação a oxigenar a monarquia inglesa desde Lady Di (Foto: Divulgação)

Ao que tudo indicava, finalmente então havia caído a ficha para a Rainha Elizabeth II – e todas as instituições que ela representa – de que era preciso se render ao circo do espetáculo para sobreviver, num processo gradual que levou quase 15 anos, entre a morte abrupta da mais popular ex-integrante da monarquia de todos os tempos, a Princesa Diana, e o enlace do seu filho com Kate.  Sim, ao longo da segunda metade do século 20, a realeza britânica foi mudando de função, com seus integrantes passando a ocupar o posto de pop stars oficiais, lado a lado com as centenas de astros e estrelas da música pop, showbiz, cinema, televisão e esporte que a Inglaterra costuma produzir.

Hoje contando com altos índices de aprovação nas pesquisas populares, a Rainha Elizabeth II saiu da posição de vilã, à época da morte de Lady Di, para a de personagem amada pelo povo após um demorado processo de reconstrução de sua imagem. No casamento de Meghan e Harry, ao lado do Príncipe Philip, ela compareceu nas cores da moda, lavanda e verde, mostrando que seus publicistas andam afiados (Foto: Reprodução)

Demorou para a monarquia entender que a tradição precisava tirar o fascinator da cabeça e deixar pisar no red carpet a diversidade – não a diversidade qualquer, mas aquela que comove a opinião pública através dos Instagrams, Twitters e Facebooks da vida  –, e Kate cumpre desde então esse desígnio. Agora, com seu rostinho de Barbie Malibu, ela corre o risco de ser ofuscada pela nova cunhada, mais bem talhada para a representação em carne e osso de um daqueles removedores de cheiro de naftalina que podem ser comprados em qualquer Mark & Spencer.

Da corte real à realeza do showbiz: no cruzamento entre a nobreza europeia e a altíssima estirpe do espetáculo, Amal e George Clooney (à esq.) e Victoria e David Beckham (à dir.) dominam a paisagem deste final de semana nas núpcias mais mundanas já realizadas no Castelo de Windsor, fruto dos novos tempos de transgressão das tradições. Cabiam apenas 70 convidados na capela na qual foi realizada a cerimônia, e grande parte dos convidados acabou ficando mesmo ao lado, no amplo salão de 500 lugares, se contentando em escutar o desenlace (Fotos: Reprodução)

Com a nova Duquesa de Sussex, a estratégia de renovação de imagem é levada ao extremo: a esposa do sexto na linha sucessória é a pá de cal que pretende calar a boca daqueles detratores que consideram a instituição da monarquia britânica demodê, anacrônica e faustosa, a despeito dos fabulosos lucros que sua existência fornece à Grã-Bretanha, maiores que os custos de sua manutenção – fontes oficiais estimam que só as núpcias reais trouxeram uma injeção de um bilhão de libras na economia do país.

Em 1936, o Príncipe Edward (2º à dir.), então o primeiro na linha sucessória, precisou abdicar ao trono britânico para poder se poder se casar com a americana divorciada Wallis Simpson, respeitando as rígidas convenções da época, num imbroglio que se tornou rumoroso. Seu irmão mais novo George, pai de Elizabeth II, assumiu no seu lugar, enquanto o novo casal de Duques de Windsor se recolheu em Paris, e depois, durante a 2ª Guerra, em Portugal e Espanha (Foto: Reprodução)

Ao lado da Rainha Elizabeth II, a mãe da noiva Doria Loyce Ragland chamou atenção. Sua posição de negra e assistente social rapidamente a transformou em estandarte dos novos tempos, sinalizando presenças mais democráticas na convivência com a nobreza europeia (Fotos: Reprodução)

Ex-atriz de séries de TV divorciada, nascida nos Estados Unidos, afro-americana, filha de uma assistente social negra e um diretor de televisão branco que já declarou que, pelo seu mix de seus traços étnicos, sente dificuldade em se classificar, Meghan pode atuar num papel que nenhuma dramaturgia televisiva lhe ofereceria: símbolo master da vassalagem da corte britânica à suserania da diversidade geral, contribuindo para romper barreiras.

Seus traços não são diferentes da multiplicidade de tipos multirraciais que hoje dominam todos os espaços, em especial a moda. Vide os catwalks  da piauense Laís Ribeiro na passarela da Victoria’s Secret, ou as presenças fashion da chinesa Liu Wen, da americana com traços latinos Chrissy Teigen, ambas entre as mais bem pagas do mundo, da trans brasileira Valentina Sampaio e da bela negra Winnie Harlow, primeira top model da história com vitiligo.

A top model piauense Laís Ribeiro brilhou esta semana na première de “Han Solo -uma história Star Wars” – na 71ª edição do Festival de Cannes. A modelo representa a diversidade global que hoje domina a paisagem do mundinho das celebridades, na qual Meghan Markles se insere (Foto: Divulgação)

Ninguém questiona a história real de amor entre ela e Harry. Aliás, o moço, cada vez mais distante de ocupar o trono e dentro do que lhe é possível na liturgia do cargo, procura fazer o que quer, tendo se dado o  direito de experimentar tudo aquilo um jovem de sua idade faria: foi flagrado em bebedeiras homéricas, fumando maconha, se entregou ao bafão de baladinhas regadas sabe-se lá a quê, foi fotografado nu em rega-bofes assanhados, passou o rodo. Nada que os millennials ou gerações anteriores não metessem o pé no atacado. Não fosse ele um digno representante de uma mercadoria raríssima pouco encontrada no varejo, suas estripulias na noite nem teriam rendido tanta manchete. Daí, fato que ele pode se apaixonar mesmo por uma mulher que foge do padrão Buckingham. Mas, que seu casamento com Meghan Kate cai como uma luva para tapar a boca dos que quiseram decapitar Elizabeth por seu silêncio na ocasião da morte de Lady Di, ora se cai! E se prepare para, daqui para frente, a enxurrada de posts, selfies e memes de Meghan Markle.

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.