As qualidades de A garota dinamarquesa (The danish girl, 2015, Working Title), dirigido pelo britânico Tom Hooper, o mesmo dos oscarizados O discurso do rei (The King’s speech, 2010) e Les misérables (Idem, 2012), que estréia nesta quinta-feira (11/2) nos cinemas brasileiros, são inegáveis: um roteiro que se constrói com suavidade e segurança, direção firme e elegante, interpretações soberbas da dupla de protagonistas, cenários e figurinos perfeitamente evocativos da época em que se situa o enredo (1927-1931), uma trilha musical que enfatiza os climas emocionais sem destruí-los de autoria do francês Alexandre Desplat, o preferido por nove entre dez diretores da grande indústria, e por aí vamos… Mas, exatamente por ter se contentado em ocupar a cadeira cativa reservada a cada ano no cinema mainstream para um costume production de estirpe britânica, é que o drama biográfico de Hooper perdeu a chance de se tornar um filme muito maior diante da esplêndida história que tinha em mãos.

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“A garota dinamarquesa” já arrecadou 50 milhões de dólares nas bilheterias do mundo todo, e concorre, no próximo dia 28, a quatro categorias do Oscar 2016. Mesmo com esse cacife, o filme foi proibido em vários países muçulmanos sob a acusação de “moralmente depravado” (Foto: Divulgação)

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A produção de “A garota dinamarquesa” foi concluída uma semana antes da première na mostra competitiva do Festival de Veneza, em setembro do ano passado. Antes da sessão de gala do filme, desfilaram pelo tappeto rosso veneziano (a partir da esquerda) a atriz e ativista LGBTT americana Amber Heard, que fez a bailarina Ulla Poulson, o diretor Tom Hooper, Alicia Vikander, Eddie Redmayne e o galã belga Matthias Schoenaerts, que interpretou o fictício marchand Hans Axgil (Foto: Reprodução)

Para se ter idéia do material sensacional disponível para os criadores do filme, deve-se lembrar que a referida “garota dinamarquesa” existiu de verdade, mas com outro nome e sexo: ela se chamava Einar Magnus Andreas Wegener (1882-1931), um conhecido pintor de paisagens bucólicas de Copenhagen. Mas só até 1930, quando o rei da Dinamarca anulou seu casamento com a pintora Gerda Wegener depois de comprovada sua mudança de gênero através de uma operação que modernamente denominamos Cirurgia de Redesignação Sexual (CRS), passando, então, a ser chamada de Lili Ilse Elvenes. A operação de Lili não pode ser considerada a pioneira no campo transgênero. Antes dela, o alemão Rudolph Richter teve o seu sexo “reatribuído” de masculino para feminino (o mesmo percurso de Einar Wegener), em 1922, quando voluntariamente pediu para o renomado médico e sexólogo de origem judaica Magnus Hirschfeld que fosse castrado para que seu corpo se tornasse mais congruente com a identidade feminina que aflorara nele desde a mais tenra infância.

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O momento do “click”: nesta cena fundamental de “A garota dinamarquesa”, Einar (Eddie Redmayne) começa a se dar conta de que é uma mulher aprisionada num corpo masculino ao posar para sua mulher Gerda no lugar da bailarina Ulla Poulsen para este célebre quadro de 1927. Eddie precisou emagrecer 10 quilos com a ajuda de uma dieta de sucos e sushis a fim de viver o papel duplo Einar Wegener-Lili Elbe (Foto: Divulgação)

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Tom Hooper, aqui dirigindo Eddie Redmayne, investiu sete anos na realização de “A garota dinamarquesa” movido pelo desejo de contar uma história de amor incondicional e de coragem diante dos riscos, da dor e da incompreensão decorrentes dessa batalha entre os lados masculino e feminino no interior de uma pessoa. O convite para Redmayne protagonizar a produção foi feito por Hooper durante as filmagens de “Les misérables” (Foto: Divulgação)

Em 1931, Rudolph – já batizado como Dora e trabalhando como doméstica no mesmo Instituto de Estudos da Sexualidade do Dr. Hirschfeld, em Berlim – teve o seu pênis amputado (penectomia) para que desse lugar a uma vaginoplastia, procedimento cirúrgico que (re)constrói a anatomia vulvo-vaginal. A mudança de sexo de Rudolph para Dora foi um grande sucesso, tornando-se o primeiro caso de operação transgênero da História da Medicina, se bem que já fossem conhecidos relatos de desconforto e impropriedade em relação ao sexo anatômico que remontavam ao Império Romano, ou também presentes na mitologia e na etnografia dos mais diferentes povos. Mas, foi só na década de 1970 que a transexualidade foi oficialmente aceita como uma síndrome após décadas em que a própria psiquiatria atuou na repressão, no controle e na sujeição dos corpos às normas conservadoras, como lembra o Dr. José Roberto Abbês, psiquiatra presente em sessão especial de “A garota dinamarquesa”.

A trajetória de Einar Wegener na Clínica Municipal Feminina de Dresden não só repetiu os passos de Rudolph em Berlin – castração, penectomia e vaginosplastia – como foi mais longe. Lili Elvenes, então vivendo com o marchand francês Claude Lejeune, queria filhos, aos 48 anos de idade. Assim, uma quinta e fatal intervenção precisou ser realizada: o transplante de útero. Lili morreu em setembro de 1931 devido à rejeição ao órgão implantado e às infecções que se generalizaram no seu corpo numa época em que ainda não existiam os antibióticos como a penicilina. Mas suas vivências e impressões ficaram registradas graças a uma longa entrevista que ela concedeu a um jornalista dinamarquês, transformada em livro publicado em 1933, quase dois anos depois da morte de Lili, sob o título bem direto de “Man into woman”. Entretanto, toda a documentação médico-científica, assim como a biblioteca do Instituto de Estudos da Sexualidade do Dr. Hirschfeld foi barbaramente incendiada por estudantes de medicina nazistas. Portanto, pouco se sabe sobre esses momentos heróicos das pesquisas sobre transexualidade.

A VERDADEIRA LILI E SUA RECRIAÇÃO POR EDDIE REDMAYNE:

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“A garota dinamarquesa” é a adaptação para o cinema do livro homônimo de David Ebershoff, lançado em 2000 (editado agora no Brasil pela Fábrica231/Editora Rocco). Tanto o livro como o filme foram criticados pelos puristas devido a pesadas omissões, reduções e licenças poéticas. Grupos LGBTT europeus e americanos também condenaram a escolha de um ator heterossexual, ao invés de um intérprete transexual, para dar corpo a Einar-Lili (Foto: Reprodução)

O fato de Einar-Lili ter protagonizado no início do século passado o segundo caso de cirurgia transgênero da História, com todos os seus riscos, dores e obstáculos de ordem social não é o mais surpreendente. O que realmente nos desconcerta e confere a esta trajetória uma qualidade humana única e espetacular é que a mudança de sexo de Einar Wegener só aconteceu por que sua mulher, Gerda Wegener, não só desencadeou o processo que fez Einar despertar para a sua verdadeira identidade sexual, como também o apoiou integralmente no conturbado, sofrido, duvidoso e arriscado processo de consumação da mudança, mesmo sabendo que seu gesto significaria a “morte” da identidade original do seu marido e o fim de um casamento bem-sucedido que durou – pelo menos no papel – 26 anos.

Confira abaixo o trailer de “A garota dinamarquesa” (Divulgação): 

Mas a história do triângulo Einar-Lili-Gerda não foi sui generis apenas nos planos sexual, afetivo e matrimonial. Ela também faz parte de um dos momentos mais férteis da arte ocidental: Einar e Gerda Wegener já formavam um casal de pintores razoavelmente bem sucedidos na provinciana Copenhagen quando, em 1912, decidiram rumar para a capital do mundo e Meca de todos os artistas – Paris.

Foi nesse ambiente liberal, hedonista, licencioso, provocador e caracterizado por todo tipo de ruptura em relação ao passado que Gerda Weneger tornou-se uma disputada pintora e ilustradora de obras que expressavam a nova mulher que surgia e reinava na Era do Jazz. Em mais um gesto de atrevida modernidade e de total indiferença ao escândalo, Gerda elegeu seu antigo marido Einar Wegener – agora transformada na fabulosa Lili Elvenes – como uma das musas inspiradoras das centenas de quadros que representavam a garçonne moderna, esnobe, sofisticadíssima e sexualmente ambígua dos Anos Loucos, obras já disputadas a tapa no então efervescente mercado de arte de Paris e que hoje valem milhões de dólares.

GERDA WEGENER: A LADY GAGA DOS ANOS 1920

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Lady Gaga dos 1920’s: assim a historiadora de arte Andrea Rygg Karberg definiu a pintora e ilustradora dinamarquesa Gerda Wegener (1886-1940) que se tornou uma das sensações dos anos loucos de Paris através dos seus exuberantes retratos art nouveau e déco de mulheres em poses orgásticas, esplendidamente vestidas e maquiadas, como a sua famosa série de erotismo lésbico. Andrea Karberg também é curadora da grande mostra de obras de Gerda em exibição no Arken Museum of Modern Art de Copenhagen até 16 de maio (Foto: Reprodução)

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O público parisiense ficou simplesmente escandalizado quando descobriu que muitas das maravilhosas garçonnes pintadas por Gerda Wegener era o seu próprio marido caracterizado como femme fatale (Foto: Reprodução)

Embora totalmente satisfatório e muito bem-sucedido como espetáculo cinematográfico, “A garota dinamarquesa” de Tom Hopper optou por domar, filtrar e enobrecer grande parte da fúria, da dor e da loucura inerentes aos dois artistas que – como muitos daqueles que mergulharam de cabeça nas tremendas e traumáticas mudanças da época – “viveram com o ethos de criar, visualizar e formar sua própria realidade”, nas palavras de David Ebershoff, o autor do relato ficcional homônimo inspirado na história de Lili Elvenes (alterado para Lili Elbe) e Gerda Wegener e que deu origem ao roteiro cinematográfico de Lucinda Coxon.

Eddie Redmayne stars as Lili Elbe, in Tom Hooper’s THE DANISH GIRL, released by Focus Features. Credit: Focus Features

Os cenários e o guarda-roupa de “A garota dinamarquesa” são simplesmente deslumbrantes e foram nominados ao Oscar 2016. Para essas áreas, Tom Hooper convocou dois colaboradores com quem trabalhara em outras grandes produções: a diretora de arte Eve Stewart já fora indicada três vezes ao Oscar por “Topsy-Turver-O espetáculo” (1999, de Mike Leigh), “O discurso do rei” (2010) e “Les misérables” (2012); já o figurinista espanhol Paco Delgado, depois de se destacar em “Biutiful” (2010, de Alejandro Iñárritu), foi indicado por “Les misérables” (Foto: Divulgação)

Talvez tenha sido ao longo desse árduo processo de adaptação e recriação pelo qual passou “A garota dinamarquesa” que uma parte do referido ethos tenha se diluído e se perdido através de decisões de concessão ao gosto do grande público, como – por exemplo – a de transformar os experientes e quarentões Einar e Gerda do final dos anos 1920 em dois jovens lindos e sadios como Eddie Redmayne e Alicia Vikander, ou de esterilizar o lesbianismo da verdadeira Gerda Weneger, ou – principalmente – de impor ao filme um quase happy end tão sublime que acaba deixando o público confuso sobre o real destino dessas duas mulheres tão extravagantes como pioneiras.

DUAS “MULHERES” DE RAÇA NA CORRIDA PELO OSCAR:
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A jovem atriz e bailarina sueca Alicia Vikander defendeu o papel de Gerda Wegener com unhas e dentes, depois das desistências de Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Marion Cotillard e Nicole Kidman. Candidata ao Oscar 2016 de ‘Atriz Coadjuvante’, ela enfrenta bravamente adversárias da pesada como Jennifer Jason Leigh (“Os oito odiados”), Rooney Mara (“Carol”), Rachel McAdams (“Spotlight”) e Kate Winslet (“Steve Jobs”). Já as chances de Eddie Redmayne são menores: ele já recebeu a estatueta de Melhor Ator no ano passado por “A teoria de tudo”, além de ter contra si a campanha para que os grunhidos de Leonardo DiCaprio em “O regresso” levem o prêmio máximo de interpretação masculina (Foto: Divulgação)

TAMBÉM EM CARTAZ:
“TANGERINE”, A LOUCA ODISSEIA DE DUAS TRANSEXUAIS DE LOS ANGELES:
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O desmonte do Programa Estadual Rio Sem Homofobia, que teve 65 dos seus 85 funcionários demitidos em pleno Carnaval, afasta ainda mais o Rio de Janeiro da condição de cidade “gay friendly” como Montevidéu, considerada a mais amigável da América Latina segundo o guia de viagem Lonely Planet. Entretanto, o mercado exibidor brasileiro mostrou-se sensível às qualidades de “Tangerine”, filmado por Sean S. Baker com três iPhone 5 nas ruas de West Hollywood e que se transformou no mais recente fenômeno da cultura queer depois do estouro no Sundance Film Festival. Hoje, “Tangerine” roda o mundo em mostras LGBTT com as estrelas underground Mya Taylor e Kitana Kiki Rodriguez (Foto: divulgação Magnolia Pictures)

Em 2010, a França foi o primeiro país do mundo a não mais considerar o transexualismo como transtorno mental. A Organização Mundial de Saúde também está “despatologizando” um comportamento que não pode ser reduzido a uma mera mudança de sexo, mas sim ser encarado como uma correção do corpo daqueles que sofrem com a incongruência entre o sexo anatômico e sua identidade de gênero. E quando o clipe com cenas da graciosa Lilli recriada por Eddie Redmayne for exibido para dois bilhões de pessoas mundo afora que assistirão à transmissão da festa do Oscar no próximo dia 28, mais um grande passo terá sido dado pelos direitos e pela dignidade de todos aqueles que lutam para serem vistos como realmente são, mesmo que sob a luz romântica e delicadamente deturpada de “uma garota dinamarquesa”.

O TROPEÇO SIDERAL DE EDDIE REDMAYNE
O celebrado ator londrino de 34 anos vai viver uma situação, no mínimo, esdrúxula e completamente inédita na história das premiações cinematográficas no final deste mês: a de ser indicado como Melhor e Pior Ator de 2015, podendo receber os respectivos prêmios num espaço de 24 horas. Acompanhe:

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