Atriz de vastos recursos dramáticos, Glenn Close foi o grande destaque da edição 2019 do Globo de Ouro, como ‘Melhor Atriz em Drama’ por “A esposa(The wife, de Björn Runge, 2018), derrotando a favorita Lady Gaga, que concorria por sua interpretação na quarta versão do clássico “Nasce uma estrela“. Avassaladora num look na cor da moda – lavanda –, Gaga teve de contentar em subir ao palco somente para celebrar a vitória de sua Shalow“, canção de trabalho do longa, como ‘Melhor Música para Filmes’, algo que já era tido como certo.

Discreta, a grande dama do cinema, televisão e Broadway forçou um pouco na emotividade na hora de receber seu Globo de Ouro, na noite desse domingo (6/1). Houve até que achasse que o entusiasmo quase de novata fosse teatrinho para impressionar a plateia e sedimentar o caminho rumo ao esperado Oscar. as não há como negar sua qualidade cênica, muito menos como não reconhecer que, assim como Gary Oldman no ano passado, já está mais que hora de a veteraníssima Glenn Close ter o seu talento reconhecido (Foto: Divulgação)

O reconhecimento da eterna Marquesa de Merteuil de “Ligações Perigosas” (1988) como bola da vez eclipsou os grandes vencedores da noite: Bohemian Rapsody (de Brian Singer, 2018) – a irresistível biografia do pop star Freddie Mercury à frente do Queen –, que deu ao competente Ramy Malek a estatueta de ‘Melhor Ator em Drama’ e levou ‘Melhor Filme – Drama’ nessa categoria; “Green Book: O Guia“, que levou três prêmios (‘Melhor Filme – Musical ou Comédia), ‘Melhor Ator Coadjuvante’ para Mahershala Ali, e ‘Melhor Roteiro para Filme’ para Peter Farrelly; e “Roma“, a produção-cabeça da vez que ganhou as categorias ‘Melhor Filme Estrangeiro’ e “Melhor Diretor’ (Alfonso Cuarón).

Globo de Ouro de cotas: a premiação continua dando destaque à questão da representatividade. No palco, da esquerda para a direita, compareceram um Mahershala Ali vencedor (além da grande  quantidade de negros como apresentadores), o americano de ascendência egípcia Rami Malek sintetizou o mundo árabe o a lírica produção “Roma” (dir.) fez o mesmo pela latinidade (Fotos: Divulgação)

Nessa levada multicultural do Globo de Ouro, da esquerda para a direita subiram ao palco tipos tão diversos – e fora do padrão europeu – quanto Lady Gaga, Sandra Oh, Rami Malek, a feiosa Olivia Colman e John David Washington (Fotos: Divulgação)

Considerando a vitória do mexicano Cuárón –, que já havia sido agraciado com o Globo de Ouro e o Oscar de ‘Melhor Diretor’ em 2014 por “Gravidade(Gravity, 2013) – e levando em cona que o prêmio veio na semana em que a nova presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, deixou claro que o Partido Democrata, agora maioria, não vai permitir a construção do muro que separaria o país do México, fica evidente que a classe cinematográfica norte-americana continua seu fogo cruzado contra Donald Trump.

Partner de Glenn Close no thriller de Adrian Line que consolidou a carreira da atriz – “Atração fatal” (1987) -, Michael Douglas  papou o Globo de Ouro de ‘Melhor ator em série – Musical ou Comédia’ . Houve troca de cumplicidade no palco entre os dois velhos companheiros de filmagem (Foto: Divulgação)

Visivelmente emocionada, Glenn Close, que já concorreu ao Oscar seis vezes e ao Globo de Ouro 13, só ganhou este duas vezes por papeis televisivos, jamais até então graças ao cinema. A má-vontade da indústria com seu talento é famosa, e a estrela de hoje 71 anos, mesmo com cera fama de pernóstica, faz parte do panteão de injustiçados tanto da Associação da Imprensa Estrangeira quanto da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Nesta, pelo menos, ela vem bem-acompanhadíssima, diga-se de passagem: ao seu lado nesta lista infame figuram expoentes do calibre de Chaplin e Hitchcock, que também nunca foram arroz de festa nessas celebrações, e até  pouquissimo tempo atrás o mestre das trilhas sonoras Ennio Morricone (leia mais aqui).

Na produção que a consagrou no Globo de Ouro, Glenn Close interpreta uma esposa, Joan, que desistiu do sonho de escrever  para viver à sombra do marido  (Jonathan Pryce), um escritor famoso (Foto: Divulgação)

Pior, se nos anos 1980 ela era páreo para outra loura com aspecto cerebral assexuado, Meryl Streep, ao longo das décadas ela viu a concorrente de physique du rôle parecido receber todas as honrarias, ultrapassando a lendária Katherine Hepburn no número de indicações, enquanto ia ficando no chinelo. Agora, pode ser que o jogo comece a virar. Na noite passada, seu semblante ofuscou não só o seu discretíssimo pretinho básico, quanto o espalhafato de Lady Gaga.

Cada um no seu quadrado: vestida por Valentino, Lady Gaga foi o grande destaque fashion do Globo de Ouro. No frigir dos ovos, a celebração acabou esnobando sua capacidade de atriz, mas, na contrapartida, reconheceu o seu talento de cantora e compositora, apesar de o evento se utilizar da sua aura pop, como um todo, para reforçar a visibilidade internacional (Foto: Divulgação)

Gaga fez de tudo para causar: arrasou no visual, a começar pelo “vestido bombom”,  com cauda gigante que levou o elenco de “Pantera Negra” a desviar de rota quando cruzou com ela no palco, logo no início da cerimônia. Abusou da tendência, com direito a penteado arrematado na mesma cor do look, todo trabalhado na monocromia. E ainda botou sua assessoria de imprensa para ralar quando resolveu modernizar o styling com cara de buquê de hortênsia do vestidão envergado na mesma cerimônia 63 anos antes, por Judy Garland, a segunda a viver na telona o papel principal de “Nasce uma estrela”. Se Judy arrebatou o Globo de Ouro em 1955, a cantora agora no máximo provou que só funciona mesmo quando incorpora o exagero, em performances como a premiação, e não quando surge de cara lavada, na película, caso de sua personagem Ally no filme dirigido e coestrelado por Bradley Cooper (leia mais aqui). Só não foi embora de mãos abanando porque o vozeirão é inegável e a ‘Melhor Canção’ foi merecida.

Jogo de War: no conjunto de ações que Lady Gaga traçou para brilhar no Globo de Ouro, o destaque vai para a releitura do vestido usado por sua antecessora Judy Garland para receber a estatueta pela segunda versão na telona de “Nasce uma estrela”. Quem em cacife como Gaga, contrata um ótimo time de stylists e publicistas (Fotos: Divulgação)

Ela bem que tentou imprimir densidade: assumiu o carão de atriz séria e discreta (na atitude!), sentada lá na frente, para inglês ver. Cumpriu sua função, e os telespectadores do mundo inteiro sintonizados na telinha puderam satisfazer a curiosidade de conferir se a loura conseguiria ou não a façanha que a outra, Madonna, nunca alcançou: a de ser levada a sério como atriz dramática a ponto de ser reconhecida numa premiação desse porte. Bom, ela até já levou o Globo de Ouro três anos atrás por sua atuação e “American Horror Story“, mas isso não tem peso de ser agraciada como melhor atriz  dramática no cinema. Os números da audiência ainda vão dizer se a estratégia dos organizadores deu certo. Por hora, Lady Gaga serviu para amealhar a audiência televisiva cada vez mais baixa nesse tipo de celebração.

Em tempo: se Lady Gaga apelou para o lavanda, a Calvin Klein apostou no azul profundo para vestir astros e estrelas. Confira abaixo: 

De Calvin Klein, Lupita Nyong’o chega à 76ª edição do Globo de Ouro (Foto: Divulgação)

De Calvin Klein, Troye Sivan chega à 76ª edição do Globo de Ouro (Foto: Divulgação)

De Calvin Klein, Amy Adams chega à 76ª edição do Globo de Ouro (Foto: Divulgação)

 Confira abaixo, em negrito, os ganhadores do Globo de Ouro 2019:

Melhor filme – Drama 

  • “Infiltrado na Klan”
  • “Pantera Negra”
  • “Bohemian Rhapsody”
  • “Se a Rua Beale Falasse”
  • “Nasce uma estrela”

Melhor ator de filme – Drama 

  • Bradley Cooper, “Nasce uma estrela”
  • Willem Dafoe, “At Eternity’s Gate”
  • Lucas Hedges, “Boy Erased”
  • Rami Malek, “Bohemian Rhapsody”
  • John David Washington, “Infiltrado na Klan”

Melhor atriz de filme – Drama                                                                      

  • Glenn Close, “The Wife”
  • Lady Gaga, “Nasce uma estrela”
  • Nicole Kidman, “Destroyer”
  • Melissa McCarthy, “Poderia Me Perdoar?”
  • Rosamund Pike, “A Private War”

Melhor Filme – Musical ou Comédia 

  • “Podres de ricos”
  • “A Favorita”
  • “Green Book: O Guia”
  • “O Retorno de Mary Poppins”
  • “Vice”

Melhor atriz em filme – Musical ou Comédia 

  • Emily Blunt, “O Retorno de Mary Poppins”
  • Olivia Colman, “A favorita”
  • Elsie Fisher, “Oitava Série”
  • Charlize Theron, “Tully”
  • Constance Wu, “Podres de Ricos”

Melhor série limitada ou filme para TV 

  • “The Alienist”
  • “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story”
  • “Escape at Dannemora”
  • “Sharp Objects”
  • “A Very English Scandal”

Melhor série – Musical ou Comédia 

  • “Barry”
  • “Kidding”
  • “The Good Place”
  • “O Método Kominsky”
  • “The Marvelous Mrs. Maisel”

Melhor atriz em série – Musical ou Comédia 

  • Kristen Bell, “The Good Place”
  • Candice Bergen, “Murphy Brown”
  • Alison Brie, “Glow”
  • Rachel Brosnahan, “The Marvelous Mrs. Maisel”
  • Debra Messing, “Will & Grace”

Melhor diretor de filmes 

  • Bradley Cooper, “Nasce uma estrela”
  • Alfonso Cuarón, “Roma”
  • Peter Farrelly, “Green Book: O Guia”
  • Spike Lee, “Infiltrado na Klan”
  • Adam McKay, “Vice”

Melhor ator em série limitada ou filme para TV 

  • Antonio Banderas, “Genius: Picasso”
  • Daniel Bruhl, “The Alienist”
  • Darren Criss, “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story”
  • Benedict Cumberbatch, “Patrick Melrose”
  • Hugh Grant, “A Very English Scandal”

Melhor filme em língua estrangeira 

  • “Capernaum” (Líbano)
  • “Girl” (Bélgica)
  • “Never Look Away” (Alemanha)
  • “Roma” (México)
  • “Shoplifters” (Japão)

Melhor ator em filme – Musical ou Comédia 

  • Christian Bale, “Vice”
  • Lin-Manuel Miranda, “O Retorno de Mary Poppins”
  • Viggo Mortensen, “Green Book: O Guia”
  • Robert Redford, “The Old Man and the Gun”
  • John C. Reilly, “Stan & Ollie”

Melhor atriz coadjuvante em série, série limitada ou filme para TV 

  • Alex Borstein, “The Marvelous Mrs.Maisel”
  • Patricia Clarkson, “Sharp Objects”
  • Penélope Cruz, “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story”
  • Thandie Newton, “Westworld”
  • Yvonne Strahovski, “O conto da Aia”

Melhor roteiro para filme 

  • Barry Jenkins (“If Beale Street Could Talk”)
  • Adam McKay (“Vice”)
  • Alfonso Cuarón (“Roma”)
  • Deborah Davis and Tony McNamara (“A favorita”)
  • Peter Farrelly, Nick Vallelonga, Brian Currie (“Green Book: O Guia”)

Melhor ator coadjuvante em filmes 

  • Mahershala Ali, “Green Book: O Guia”
  • Timothée Chalamet, “Beautiful Boy”
  • Adam Driver, “Infiltrado na Klan”
  • Richard E. Grant, “Poderia Me Perdoar?”
  • Sam Rockwell, “Vice”

Melhor atriz em série – Drama 

  • Caitriona Balfe, “Outlander”
  • Elisabeth Moss, “O conto da Aia”
  • Sandra Oh, “Killing Eve”
  • Julia Roberts, “Homecoming”
  • Keri Russell, “The Americans”

Melhor atriz coadjuvante em filmes 

  • Amy Adams, “Vice”
  • Claire Foy, “O primeiro homem”
  • Regina King, “Se a Rua Beale Falasse”
  • Emma Stone, “A Favorita”
  • Rachel Weisz, “A Favorita”

Melhor música para filmes 

  • “All the Stars”, “Pantera Negra”
  • “Revelation”, “Boy Erased”
  • “Girl in the Movies”, “Dumplin”
  • “Shallow”, “Nasce uma estrela”
  • “Requiem for a Private War”, “A Private War”

Melhor trilha original para filmes 

  • Marco Beltrami, “Um lugar silencioso”
  • Alexandre Desplat, “Ilha de cachorros”
  • Ludwig Göransson, “Pantera Negra”
  • Justin Hurwitz, “O primeiro homem”
  • Marc Shaiman, “O retorno de Mary Poppins”

Melhor atriz em série limitada ou filme para TV 

  • Amy Adams, “Sharp Objects”
  • Patricia Arquette, “Escape at Dannemora”
  • Connie Britton, “Dirty John”
  • Laura Dern, “The Tale”
  • Regina King, “Seven Seconds”

Melhor ator em série – Musical ou Comédia 

  • Sacha Baron Cohen, “Who is America?”
  • Michael Douglas, “O Método Kominsky”
  • Donald Glover, “Atlanta”
  • Bill Hader, “Barry”
  • Jim Carrey, “Kidding”

Melhor animação 

  • “Os Incríveis 2”
  • “Ilha dos Cachorros”
  • “Mirai”
  • “WiFi Ralph: Quebrando a Internet”
  • “Homem-Aranha no Aranhaverso”

Melhor ator em série – Drama 

  • Jason Bateman, “Ozark”
  • Stephan James, “Homecoming”
  • Billy Porter, “Pose”
  • Richard Madden, “Bodyguard”
  • Matthew Rhys, “The Americans”

Melhor ator coadjuvante em série, série limitada ou filme para TV 

  • Alan Arkin, “O Método Kominsky”
  • Kieran Culkin, “Succession”
  • Edgar Ramírez, “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story”
  • Ben Whishaw, “A Very English Scandal”
  • Henry Winkler, “Barry”

Melhor série – Drama 

  • “The Americans”
  • “Bodyguard”
  • “Homecoming”
  • “Killing Eve”
  • “Pose”

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