Se o pior diretor de cinema do mundo – o norte-americano Ed Wood (1924-1978) – tornou-se com o tempo um cultuado ídolo da subcultura trash a ponto de ser incensado por Tim Burton numa não menos cultuada cinebiografia estrelada por Johnny Depp, por que a também norte-americana Florence Foster Jenkis (1868-1944), reputada como “a pior cantora do mundo”, não poderia ser digna de idolatria na mesma religião do “quanto pior melhor” que parece ser um dos sintomas mais divertidos e irreverentes do nosso circo midiático?

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A estreia nesta semana da produção britânica “Florence-Quem é essa mulher?” de Stephen Frears, com Meryl Streep e Hugh Grant, enquanto o filme francês “Marguerite” ainda está em cartaz, vai permitir ao público brasileiro comparar duas abordagens bem diferentes da mesma personagem que agitou a vida musical novaiorquina durante a primeira metade do século XX: Florence Foster Jenkis (1868-1944), a “pior cantora do mundo” (Foto: Divulgação)

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A produção francesa “Marguerite”, de Xavier Giannoli, estrelada por Catherine Frot, estreou oito meses antes da sua concorrente britânica ao candidatar-se ao Leão de Ouro do Festival de Veneza de 2015, de onde saiu apenas com o Prêmio Padre Nazareno Taddei. Em compensação, o longa francês consagrou-se no seu próprio país ao ser indicado a 10 categorias do César, o Oscar francês, entre as quais venceu quatro (Foto: Divulgação)

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O grande e fascinante enigma que cerca a “carreira” de Florence Foster Jenkis é este: até que ponto a reação das pessoas às suas escandalosas dificuldades de entonação, ritmo, alcance, o sotaque aberrante, além das críticas degradantes e sarcásticas que lhe eram dirigidas, chegavam a incomodá-la? Qualquer que tenha sido a sua verdadeira percepção, esta não impediu que Florence gravasse dois discos em 75rpm, hoje cultuados (Foto: Reprodução)

Pois bem, o cinema finalmente descobriu Florence, curvou-se à sua descarada e corajosa falta de talento e encontrou uma mulher que – muito além do rótulo de “ridícula” – percorreu uma trajetória de altos e baixos que permite vários níveis de leitura e algumas lições de vida, agora transformadas em duas evocações de qualidade que ganham as telas brasileiras ao mesmo tempo. Curiosamente, nenhuma delas produzida nos Estados Unidos.

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Graças à sua fortuna pessoal e a um numeroso grupo de amigos complacentes ou bajuladores, Florence apresentava-se insistentemente em luxuosos saraus por ela mesma patrocinados em que o acompanhamento musical tinha que ser adaptado às suas insuperáveis deficiências. Sua emissão vocal, segundo uma testemunha, assemelhava-se aos ruídos de uma “briga entre um gato e um pato” (Foto: Reprodução)

Deleite-se com esta gravação abaixo, na qual própria Florence Foster Jenkins “esquartejando” a célebre Ária da Rainha da Noite da ópera “A flauta mágica”. Que Mozart nos perdõe!

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A verdadeira Florence Foster Jenkis – no centro da foto, ladeada pelas duas mais recentes intérpretes nas telas da sua vida trágico -cômica – foi uma socialite milionária de Nova York, pianista-prodígio na infância e generosa mecenas da cena musical operística da cidade, mas também uma cantora amadora completamente sem noção da sua falta absoluta de recursos vocais, possivelmente sequela de um distúrbio neurológico originado de uma sífilis mal curada contraída do seu primeiro marido (Foto: Reprodução)

A primeira, que já estreou nos cinemas da cidade há duas semanas, é a sombria e complexa Marguerite” (idem, 2016, Canal+/France 3 Cinéma entre outros produtores) do diretor Xavier Giannoli. Trata-se de uma versão francesa apenas baseada nos traços e nos fatos da Florence original, mas livremente personificada numa ficcional Marguerite Dumont (Catherine Frot) e ambientada na Paris dos Anos Loucos, reproduzida em requintadas locações de Praga por uma equipe mista franco-tcheca. A segunda versão, que no Brasil ganhou o discutível título de Florence – Que mulher é essa? (Florence Foster Jenkis, 2016, Pathé/BBC Films)/Qwerty Films) é britânica e foi lançada nesta última quinta-feira (7/7), disputando assim as atenções do público ao lado da sua “concorrente” francesa.

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O trabalho de Pierre-Jean Larroque – o mesmo figurinista do encantador “As férias do pequeno Nicolau” (2014), de Laurent Tirard – para “Marguerite” foi agraciado com o César de Melhor Figurino. Seu olhar, diferentemente do de Consolata Boyle, não apela para o brilho vistoso onipresente em todo costume picture de inspiração hollywoodiana, e sim ao clima de requintada e sombria perversidade da elite parisiense dos anos 1920 (Foto: Reprodução)

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“Marguerite” arrebatou quatro estatuetas da edição de 2016 do César: Melhor Som, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e, evidentemente, a de Melhor Atriz para a estupenda Catherine Frot, já conhecida do público brasileiro através do delicioso filme de Christian Vincent “Os sabores do palácio” (2012) em que encarnou a figura de Danièle Delpeuch, cozinheira particular do presidente François Mitterrand no Palácio do Eliseu (Foto: Reprodução)

Enquanto esta pode ser considerada uma transposição da vida de Florence para o contexto parisiense dos anos 1920 em que artistas vanguardistas se misturavam a uma aristocracia decadente, “Florence – Que mulher é esta?” é uma biografia assumida da verdadeira socialite novaiorquina, gravada inteiramente em Londres, dirigida pelo festejado diretor britânico Stephen Frears e estrelada pela super oscarizada diva das caracterizações e seus sotaques exóticos: Meryl Streep. Entretanto, os roteiristas de ambos os filmes – o próprio diretor Xavier Giannoli e Marcia Romano, na produção francesa, e Nicholas Martin, na inglesa – decidiram centrar o retrato de Florence nos seus últimos meses de vida, quando completamente iludida pelas suas risíveis pretensões artísticas, Florence/Marguerite decide por uma exibição profissional em grande escala – uma terrível imprudência pela qual pagará muito caro.

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Um dos pontos altos das duas versões da vida de Florence F. Jenkis é, sem dúvida, o guarda-roupa. Para recuperar a elegância dos novaiorquinos dos early forties, Stephen Frears convocou Consolata Boyle, sua colaboradora em “A rainha” (2006), filme pelo qual foi nominada ao Oscar de Melhor Figurino e “Philomena” (2013). Consolata também já vestira Meryl Streep em “A dama de ferro” (2011) de Phyllida Lloyd (Foto: Divulgação)

Desde o momento em que o conceito de “espetáculo” foi criado, o seu contrário – “o anti-espetáculo” – não só nasceu junto como também passou a fazer parte da cena, mas como aberração, como desvio marginal que proporciona para o público um tipo de gratificação muitas vezes mais intenso do que o oferecido pelo talento consagrado. Talvez a popularidade e a resistência do grotesco residam precisamente nas suas conexões com o nosso sadomasoquismo secreto que igualmente nos leva a vibrar tão desenvoltamente com a humilhação e os constrangimentos aos quais são submetidos os desavisados calouros de programas de auditório, alvos de vaias monumentais, de gongadas solenes, de jatos d’água, de banhos de farinha, de decapitações e de insultos de jurados tão patéticos quanto eles mesmos.

Assista abaixo os trailers oficiais das duas produções (Divulgação):  

Entretanto, Florence Foster Jenkis não passou por nada disso ao longo das décadas em que se pôs a “interpretar” as grandes peças do repertório lírico como uma gralha ensandecida em saraus beneficentes privados ou públicos por ela mesma organizados para a fina flor de Nova York. E isto por uma só razão: ela era rica ou – melhor dizendo – milionária, além de generosa patronnesse de vários clubes musicais dedicados à promoção do gênero operístico. Certamente essa complacência oferecida pelos amigos, pelo seu círculo social e por todos os talentos musicais contratados para “aperfeiçoar” o seu canto deveu-se – em grande parte – a uma mistura de cortesia, com bom-tom, piedade, hipocrisia e também altas doses de suborno, mais ou menos disfarçado. Essa hipótese, todavia, parece não esgotar completamente as explicações para “o fenômeno Florence Foster Jenkis” que até hoje nos surpreende e nos diverte acompanhado que seja de um pouquinho de dó e tristeza.

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A imagem caricatural de Florence Foster Jenkis acabou se associando, desde a década de 1930, à dos personagens vividos na tela pela oscarizada atriz norte-americana Margaret Dumont (1882-1965), figura obrigatória nas comédias malucas dos Irmãos Marx, em que sempre encarnava o protótipo da socialite ridícula e pretensiosa, alvo dos deboches do quarteto endiabrado. O título do filme francês “Marguerite” é uma merecida homenagem à fabulosa comediante, hoje esquecida (Foto: Reprodução)

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Caricata: Para compor sua Florence Foster Jenskins, Meryl Streep faz uso das típicas caras e bocas que lhe rendem pencas de indicações ao Oscar, desde a virada dos anos 1980 e sobretudo quando começou a fazer comédias, no inicio dos anos 1990 (Foto: Divulgação)

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Com atuação densa e cheia de nuances, Catherine Frot prova com sua versão de Marguerite/Florence Foster Jenkins o porquê de ter ganho o César, equivalente ao Oscar na terra de Brigitte Bardot (Foto: Divulgação)

E um dos grandes méritos das duas versões cinematográficas atuais é exatamente o de tentar sinalizar para o público a possibilidade de uma ambiguidade nas relações que Florence teceu com o que poderíamos chamar de “seu público”. Afinal, seria ela apenas uma mulher completamente desprovida de noção e ingenuamente explorada por um meio que se aproveitava das suas diversas carências, ou Florence Foster Jenkis também foi uma grande gozadora e exímia manipuladora das fraquezas de todos aqueles que a cercavam e das contradições do showbiz a ponto de assegurar para si – mais de 70 anos após a sua morte – a condição da mais adorável e escancarada fraude artística do século?

Para poder lançar tal personagem nesse outro campo de possibilidades interpretativas, os diretores Giannoli e Frears não tinham outra alternativa a não ser a de contar com o concurso de duas atrizes insuperáveis: Catherine Frot e Meryl Streep. E no confronto direto entre as duas, é a francesa que se sai melhor – sem desmerecer a americana – quando o critério é precisamente essa capacidade de romper a caricatura do ridículo para nos permitir vislumbrar os abismos de solidão, medos e misérias que fizeram de Florence uma figura tão única, tão próxima e tão digna de nossa compaixão.

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Em 2009, a dupla Cláudio Botelho e Charles Möeller produziu e dirigiu “Gloriosa”, montagem brasileira da comédia “Glorious!” do britânico Peter Quilter, que narra a fase final da vida de Florence Foster Jenkis. A montagem original foi um gigantesco sucesso no West End londrino. No Brasil, o papel de Florence só poderia ser assumida por uma única atriz e cantora – Marília Pera –, embora a peça se ressinta de uma fraqueza incontornável: toda a sua graça é estruturada em cima de apenas uma piada que se repete até o final (Foto: Reprodução)

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