O mundo teatral é um dos mais povoados com lendas e superstições. Uma das mais célebres é a que cerca Macbeth”, tragédia de William Shakespeare (1564-1616), escrita provavelmente entre 1603 e 1607. Desde a sua estreia em 1611, uma série impressionante de acidentes vem acompanhando – através dos séculos – inúmeras montagens da obra que é tida como um dos mais violentos estudos sobre a ambição política, a ponto de ser considerada “maldita” e a simples menção ao seu nome um passaporte seguro para mortes e desastres para as companhias que a encenam. Isso explica o porquê do pessoal do teatro ter sido obrigado a buscar um jeito de se proteger da maldição do sanguinário casal Macbeth, passando a nomeá-la apenas como “aquela peça escocesa”.

A recente e inesperada morte, aos 70 anos, do grande diretor Héctor Babenco – autor de consumadas obras-primas do cinema brasileiro como Pixote: a lei do mais fraco (1981) e Carandiru (2003) – parece ter modernizado essa funesta tradição através de uma das mais conhecidas e encenadas obras de Tennessee Williams Gata em teto de zinco quente”: tanto a sua mulher, a atriz Bárbara Paz, como Elizabeth Taylor – então casada com o empresário do showbiz, Michael Todd – perderam os seus respectivos companheiros enquanto estavam sob a pele de Maggie, “a gata”. Além desse terrível paralelo, há outro ponto em comum entre as duas atrizes: tanto Bárbara como Liz perderam companheiros bem mais maduros do que elas, com diferenças de idade que oscilam entre 28 anos na relação Paz-Babenco, e 23 anos entre Taylor e Todd. E para sacramentar esse paralelismo, é lícito lembrar que também nos dois casos, os dois casais desenvolveram uma criativa e estimulante parceria artístico-profissional no campo do espetáculo.

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Bárbara Paz no velório do diretor argentino de cinema e teatro, naturalizado brasileiro, Héctor Babenco (1946-2016), ontem (15/07), na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, vítima de uma parada cardíaca. A união de Héctor com Bárbara não foi apenas artística e profissional: além de estrela de duas peças dirigidas por Babenco, “Hell” (2010) e “Vênus em Visom” (2013), a atriz foi sua companheira desde 2007 (Foto: Reprodução)

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Elizabeth Taylor (1932-2011) chega ao enterro do seu marido, o mega produtor de teatro e cinema Michael Todd (1909-1958), amparada pelo seu médico e pelo irmão Howard Taylor, em março de 1958. Todd, celebrizado pela produção do blockbuster “A volta ao mundo em 80 dias” (1956) e pelo desenvolvimento do sistema Todd-AO de projeção em tela larga, morreu vitimado por um acidente aéreo com o seu avião (Foto: Reprodução)

A história de Elizabeth Taylor com a peça de Tennessee Williams é bem conhecida: depois do sucesso estrondoso na Broadway, em 1955, o texto foi logo comprado a peso de ouro pela Metro-Goldwyn-Mayer que destinou o papel-título à sua mais valiosa estrela: Elizabeth Taylor. No final de abril de 1958, quando as câmeras mal tinham começado a rodar o soturno drama sulista, agora levado às telas pelas mãos do diretor Richard Brooks, o avião do produtor Michael Todd – marido de Liz –espatifava-se nas montanhas nevadas do Novo México, transformando a jovem estrela, aos 26 anos, na mais trágica e bela viúva dos Estados Unidos, com três filhos para criar, incluindo a recém-nascida Liza que jamais conheceria o pai.

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Bárbara Paz, assim como Elizabeth Taylor, perdeu o seu amado companheiro no exato momento que encarnava a ardente Maggie Pollitt ,”a gata”, uma dos mais célebres personagens femininos criados pelo dramaturgo sulista Tennessee Williams (1911-1983), e pivô da peça “Gata em telhado de zinco quente”, montagem do Grupo Tapa dirigida por Eduardo Tolentino, que estreou no CCBB do Rio de Janeiro em 30 de junho. As apresentações estão interrompidas desde quinta-feira (14/07) (Foto: Divulgação)

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Michael Todd faleceu poucos dias depois de Elizabeth Taylor iniciar as filmagens de “Gata em teto de zinco quente” nos estúdios da MGM, em Hollywood. Completamente arrasada, Liz não só perdeu o grande amor da sua vida (até encontrar Richard Burton), como também o pai de Liza Todd, a filha recém-nascida do casal. A atriz retornou bravamente ao trabalho 24 dias depois da tragédia e cinco quilos mais magra para transformar “Gata” no maior sucesso do estúdio de 1958 e num dos pontos altos da sua carreira (Foto: Reprodução)

Embora devastada pela dor, Liz compreendeu que logo enlouqueceria se não voltasse ao seu trabalho como atriz. Isso significava lançar-se de cabeça no papel de Maggie, a desprezada e solitária heroína de Williams, enredada numa trama familiar de cobiça, hipocrisia, repressão sexual, doença e morte. O clima pesadíssimo da própria peça associado à tragédia particular da estrela deixaram a sensibilidade e as emoções de Liz à flor da pele, resultando numa das suas mais finas e intensas atuações, o que credenciou a sua candidatura ao Oscar de Melhor Atriz de 1958, mas derrotada pela veterana Susan Hayward do dramalhão Quero viver!”.

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Brick Pollitt (Augusto Zacchi) e Maggie (Bárbara) formam o casal disfuncional de “Gata em telhado de zinco quente” envolvido nos jogos de poder e de dissimulação no interior de uma poderosa família do Mississipi excitada pela perspectiva da morte do patriarca do clã, tomado pelo câncer. A visão que Williams apresenta sobre as relações íntimas e familiares no quadro das tradições sulistas é devastadora, além de ser uma das primeiras peças a abordar a homossexualismo (Foto: Divulgação)

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O ex-atleta Brick (Paul Newman) passa a peça inteira resistindo ao assédio de sua frustrada mulher Maggie (Taylor). O rapagão evita fazer sexo com ela usando como barreiras o alcoolismo e as memórias idealizadas de uma ambígua amizade com o seu “amigo íntimo” Skipper. “Gata” foi uma das peças favoritas de Tennessee Williams, não só pela fortuna que rendeu ao autor como pela sua sólida e equilibrada carpintaria teatral (Foto: Reprodução)

Entretanto, a dor da nossa Bárbara Paz apenas começou. E assim como aconteceu com Elizabeth Taylor há quase seis décadas atrás, esperamos que ela a supere voltando à Maggie Pollitt. E, talvez, ao descer aos abismos da bela e atormentada sulista de Tennessee Williams, Bárbara encontre o mesmo tipo de alento que ajudou Liz a continuar seu caminho.

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Elizabeth Taylor afirmava que a personagem Maggie a salvou da loucura em meio à maior desgraça da sua vida pessoal, a morte do marido Michael Todd. Liz soube mesclar habilmente toda a solidão, autopiedade, ambição e desespero de Maggie com uma sensualidade à beira da explosão, ressaltada pela famosa e decotada combinação com aplicações de bordados, desenhada pela figurinista Helen Rose e que mudou o conceito de roupa íntima da época (Foto: Reprodução)

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Na época da estreia do último filme de Héctor Babenco “Meu amigo hindu” (2015), falado em inglês e com Willem Dafoe no papel de um diretor de cinema abatido por um câncer linfático – como o próprio Héctor -, o casal já vivia a reconciliação após 10 meses de separação (Foto: Reprodução)

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O casamento de Michael Todd e Elizabeth Taylor não chegou a durar dois anos, mas foram – talvez – os mais intensos da vida da última estrela da fábrica de sonhos de Hollywood. Todd sempre incentivou Liz a lutar por papéis mais densos e complexos, como o de Maggie. Mal sabia ele que “a gata” seria um marco simultâneo de triunfo e dor na trajetória da sua adorada companheira (Foto: Reprodução)

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