*Por Maria Claudia Pompeo

Historiadora da arte e artista plástica, Ana Cristina Nadruz sabe de tudo. Por isso, a moça costuma dar aulas para uma equipe de 200 pessoas na Rede Globo, que depois se encarrega de distribuir sua expertise pelas produções na emissora. O exemplo mais recente é Deus salve o rei“, a novela das 19h cuja qualidade de acabamento anda encantando o Brasil. A pesquisadora teve um papo exclusivo com o ÁS, e aproveitou para nos presentear com uma aula de história sobre a Idade Média.

Ana Cristina Nadruz é historiadora da arte e artista plástica. Ela enriqueceu de conhecimento da equipe da novela “Deus salve o rei” com informações essenciais para o trabalho da produção de arte. (Foto: Divulgação)

Cartelas de cores terroso-avermelhada: a corte do Reino de Montemor – Afonso (Rômulo Estrela), Rodolfo (Johnny Massaro) e Crisélia (Rosamaria Murtinho) à frente  – abusa de gamas terrosas na composição do figurino a fim de acentuar o aspecto de “feudo minerador” expresso na trama (foto: TV Globo / GShow / Divulgação)

Atualmente, esse período anda em alta em séries como Game of Thrones (HBO), Vikings (History Channel) e Outlander (Starz/Netflix), todas com a preocupação em resgatar a atmosfera medieval e recriar, através de fábulas, suas próprias histórias de reis e rainhas, plebeus e plebeias misturadas às muitas lutas de espada, temperadas por paixões arrebatadoras! Um modismo que anda impregnando a TV a cabo, já que a qualidade dramatúrgica de GoT rende à HBO o título de maior sucesso de sua grade de todos os tempos. Por isso, fica a pergunta: até que ponto “Deus salve o rei”, que bebe dessa tendência através da esmeradíssima reconstituição de época, trabalha a fidelidade histórica? A novela apenas usaria elementos históricos para estabelecer sua fantasia, sem tanto rigor assim ou não? Ana Cristina conta tudo. Confira, pega o caderninho e caneta (ou sua pena de nanquim), que essa aula de história é babado, merece anotações!

Rômulo Estrela e Marina Ruy Barbosa em plena gravação: novela das 19h da TV Globo se esmera no requinte estético cênico para passar a sensação de veracidade histórica ao público, mesmo com uma produção repleta de concessões (Foto: TV Globo / GShow / Divulgação)

ÁS: Como conhecedora dos costumes da Idade Média, onde você enxerga em “Deus Salve o Rei” a convergência histórica, ou seja, a representação fidelizada dos costumes da época? E onde, na sua opinião, ocorrem as licença poética, na produção, figurinos, cenários, em geral?

Ana Cristina Nadruz: Evidentemente a novela é uma ficção bem adaptada ao horário em que está sendo exibida, às 19h. Atos heroicos, amores difíceis, personagens romantizados, personagens engraçados, vilões… e não se trata de uma obra histórica, nem de um documentário. É uma bela e divertida fábula ambientada em uma data imprecisa, no final do período medieval, período esse que vai até meados do século 15.

A produção, como acontece em todos os produtos da emissora, é extremamente cuidada. Os profissionais envolvidos – figurinistas, costureiras, caracterizadores, cenógrafos, marceneiros, aderecistas – são preparados com meses de antecedência antes do produto ir ao ar, com palestras sobre os costumes e a estética do período, com imagens de referência, sejam históricas ou de filmes e séries consagrados, que abordem o mesmo período.

“Deus salve a informação”: em uma de suas aulas de história da arte, Ana Cristina Nadruz apresenta imagens de referência à equipe da novela global das 19h para enriquecer o conhecimento sobre a Idade Média e seus costumes (Foto: Divulgação)

ÁS: Você deu aula de história sobre a Idade Média para a equipe da novela. Quais pontos você acha que foram os principais e os mais levantados nesta aula? Quais foram as maiores preocupações da equipe?

ACN: Na verdade, dou um curso regular de história da arte para todos os profissionais dos Estúdios Globo/Projac, desde os mais recentes estagiários até assistentes de direção, incluindo todo o pessoal que produz cenários, figurinos e caracterização. O curso abrange desde a Arte Rupestre até a Arte Contemporânea, passando por todos os períodos da arte ocidental, com direito a material impresso, uma apostila fartamente ilustrada e com textos complementares às aulas, organizados por mim. É uma visão geral e abrangente. Mas, a cada novela ou minissérie de época, os profissionais diretamente envolvidos naquela produção  recebem aulas ou palestras de reforço específico naquele assunto. Neste caso de “Deus salve o rei”, houve palestra específica para mais de 200 profissionais sobre arte e arquitetura dos períodos Românico e Gótico, dos séculos 10 a 15. Um exemplo da preocupação: a produção queria saber qual era o tipo de alimento usado no período. Batatas e algumas frutas não existiam na Europa daquela época, cuja base alimentar eram pães, carne de caça, raízes, alguns frutos silvestres e folhas. 

Quitutes all-star: a Rainha Crisélia (Rosamaria Murtinho) circula em cena por um dos mercados populares que pululam na narrativa de “Deus salve o rei”. A produção de arte da atração global capricha na apresentação de ingredientes que existiam na realidade histórica medieval. Itens que chegaram à Europa somente após a descoberta da América – batata, café, tomate e milho, por exemplo – estão fora! (Foto: TV Globo / GShow / Divulgação)

ÁS: A novela usa de muita tecnologia digital para recriar cenários e cenas inteiras. Esses recursos muitas vezes são vistos também em produções de cinema internacional e fartamente presentes hoje em séries consagradas como “Game of Thrones” e “Outlander”. Como e onde entra a contribuição histórica neste processo (paisagens, castelos, clima, povo nas ruas)?

ACN: A produção de “Deus salve o rei” viajou por diversos países colhendo belíssimas imagens que são usadas através  de chroma key, para compor as paisagens e cenários dos reinos imaginários, o que dá veracidade eencanto às cenas. Há na Europa diversas cidadezinhas ainda preservadas  no seu aspecto medieval e castelos praticamente intactos, que serviram belamente na pesquisa e acervo de imagens. Nas palestras, procuro enfatizar através das imagens de afrescos, vitrais e iluminuras justamente o clima da  época, abordando os costumes, os hábitos alimentares, as músicas, a produção artística e artesanal do período.

Da Inglaterra para Jacarepaguá: o Castelo de Warwick na Inglaterra, dentre outros cenários históricos, serve para as imagens de chroma key que recriam os cenários épicos de “Deus salve o rei“,se fundindo à cidade cenográfica construída nos Estúdios Globo, no Rio (Foto: Reprodução/Pesquisa: Ana Cristina Nadruz)

Pintura de Lorenzetti Ambrogio (1337) foi usada como referência na pesquisa de arte de “Deus salve o rei” (Reprodução).

ÁS: O figurino de “Deus salve o rei”, a cargo de Mariana Sued e equipe, transporta o público diretamente para esse período da História, além de ajudar os atores e atrizes a entrarem nos personagens. Que destaques você poderia dar sobre as principais características do vestuário da nobreza na Idade Média? Como era a indumentária de pessoas comuns, da plebe, quais eram seus hábitos de vaidade, higiene e outras curiosidades que você destacaria deste período?

ACN: A novela tem um figurino primoroso, e existe claro, o uso de códigos de representação semiológicos. O Reino de Artena, que possui a água, foi todo criado em tons de azul que vão até o roxo. O Reino de Montemor, que tem o minério, foi criado em tons de vermelho que vão até o marrom escuro. Tive a oportunidade de ver algumas dessas peças logo que vieram das mãos das costureiras e fiquei impressionada com a qualidade.

Pelo que podemos perceber pelas imagens históricas disponíveis daquele período, há diferenças fundamentais entre uma classe social e a outra. A nobreza, como sempre, se adorna mais com adereços preciosos, símbolos de seu poder, com tecidos de maior viço e qualidade para seu maior conforto e peles para abrigar-se do frio. A plebe fazia uso de tecidos mais rústicos de cores nada vistosas. Vale ressaltar que as pessoas, mesmo das altas classes, não possuíam variedade de vestuário. Eram poucas as peças. Outro aspecto que não entra na composição da novela é o fato de que as pessoas morriam muito cedo, fosse por falta hábitos mais saudáveis, da higiene escassa, fosse pelas pestes que assolavam reinos inteiros após guerras e batalhas, ou pela própria alimentação precária e mal balanceada, sempre à mercê da caça e das intempéries.

Figurino de “Deus salve o rei” traz tons terrosos e avermelhados para o Reino de Montemor e mais frios para o Reino de Artena. (Foto: Isabella Pinheiro/ GShow / Divulgação)

Minúcia extrema: cenários e figurinos são cuidados nos mínimos detalhes, com riqueza de composição que aproxima a produção global do nível de qualidade visual atual da televisão norte-americana, comparável a Hollywood (Foto: Estúdios Globo / Divulgação)

ÁS: Quais as inspirações (dança, cabelos, figurinos, cenários) pescadas de suas aulas que você consegue ver que estão sendo usadas na novela?

ACN: De uma maneira geral, podemos perceber o apuro na pesquisa de caracterização com as devidas liberdades poéticas para compor personagens, dentro da preocupação de uma “usina de sonhos” em usar arquétipos para dar cabo da narrativa. Na caracterização da  vilã Catarina (Bruna Marquezine), tudo é ‘frio’ e ‘agudo’ para reforçar sua personalidade “cortante, perigosa”, desde o decote em V até a cintura até a tiara de três triângulos. Um decote como aquele, disfarçado pelo colar volumoso, não se usava historicamente na época, mas é perfeito para destacar sua identidade malvada e sedutora.

Riqueza de materiais: detalhes do figurino de Catarina, vilã vivida por Bruna Marquezine em “Deus salve o rei”. Formas pontudas acentuam a maldade da personagem (Foto: Isabella Pinheiro/ GShow / Divulgação)

Protagonistas a serviço da narrativa: componentes do figurino de Bruna Marquezine (esq.), Marina Ruy Barbosa (centro) e Tatá Werneck (dir.) têm ponto de partida na pesquisa histórica, pero no mucho. O importante é codificarem a essência de cada personagem, sem se amarrarem à fidelidade histórica (Foto: TV Globo / GShow / Divulgação)

ÁS: Se por um momento, você pudesse voltar no tempo, ia preferir ser uma nobre ou plebeia medieval? Por que?

ACN: Preferiria ser um homem e, de preferência, da nobreza. A visão que temos hoje desse período, na ficção, é um tanto fantasiosa. Nada de armaduras reluzentes sobre cavalos brancos assépticos, à la Disney. A vida era duríssima. Praticamente se vivia para comer, procriar, fazer guerras e morrer, com algumas festividades rituais no meio tempo que, na verdade, eram estímulos para os atos acima citados.  Os homens nobres tinham um pouco mais de  privilégios. Mas, se não fossem os herdeiros diretos do feudo, por exemplo, ou se dedicariam à vida eclesiástica ou colocariam suas armas a serviço de outros reinos, tornando-se cavaleiros andantes.

ÁS: Então, quando a partir de quando você gostaria de ser mulher?

ACN: Só a partir do Renascimento, nos períodos dos séculos 15 e 16, e assim mesmo uma mulher como a poetisa e filósofa italiana Cristina di Pisano (1363-1430). Ela viveu na França e criticava a misoginia no meio literário, que tinha a predominância masculina. Defendeu o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher francesa de letras a viver do seu trabalho. Ou, a Teresa d’Ávila (1515- 1582), que foi Doutora da Igreja – religiosa mística da Igreja Católica e que deixou várias obras escritas, como “Livro da Vida”, “Caminho da Perfeição” e “Moradas e Fundações” entre outros, e uma bela e poética correspondência com o religioso místico São João da Cruz.

Empoderamento renascentista, sem precisar queimar sutiãs: Cristina di Pisano foi feminista bem antes do feminismo (Foto: Reprodução Google Images)

ÁS: Dentre as licenças poéticas da novela, as mulheres têm papel importante na trama da novela. Como era a posição da mulher nesse período e qual era a sua importância nas tomadas de decisão, tanto nas questões familiares quanto na estrutura da sociedade como um todo?

ACN: As mulheres não tinham nenhuma voz ativa, casavam-se imediatamente após a primeira menstruação e sua função era procriar no caso da nobreza e, no caso da plebe,  além de procriar, fazer todo o árduo trabalho doméstico, além de plantar, colher, buscar água, cozinhar,  amamentar… como hoje em dia! A novela é uma fábula de amor e poder e não um documentário sobre a época. Sob esse aspecto, poderíamos mesmo dizer que é uma abordagem romântica sobre o período, como se pretende a ficção, repleta de simbolismo e encantamento.

Em tempo: até o dia 8/2, Ana Cristina Nadruz ministra o curso As mulheres do Olimpo – Mitologia e Arte” no  Espaço Arte, Cultura e Psicanálise, no Vogue Square. São encontros, às quintas-feiras, para falar desde os principais arquétipos das deusas e heroínas da mitologia grega até a representação dessas figuras na arte ao longo da história. Vale muito.

Serviço

Espaço Arte, Cultura e Psicologia

Local: Avenida das Américas, 8585, Loja 127 – Vogue Square, Barra da Tijuca

Email para contato: espaço.asp@gmail.com

Datas: Do dia 18/01 até o dia 08/02

Horário: 11h às 13h

*Carioca escorpiana formada em estilo e gestão, ama observar o mundo com olhos de hárpia, mas doçura de panda. Sabe ser contraditória: viajar é prazer, mas morre de medo de avião;  Prefere o som ligado à TV, mas se rende às séries com produção de arte e figurino caprichados. Ganha a vida com criação de moda e figurinos, com soluções criativas que lhe enchem de orgulho. Gosta de gente, ama bichos e nutre paixão pela comunicação, que começou como hobby e virou vida. Escrever sobre moda e cultura é mais que profissão, virou ar que respira. 

 

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.