* Por Alexandre Schnabl e  André Vagon

Num primeiro momento, La La Land: Cantando Estações” (La La Land, 2016)  pode ser comparado a uma coreografia de Fred Astaire. Parece simplíssimo de ser feito, com sua história linear, números de dança descomplicados, roteiro sobre um amor que perpassa as estações de um ano como se fosse um filme de Woody Allen e personagens tão esquemáticos que já foram vistos em milhares de produções – uma aspirante a atriz (Emma Stone) que, em seu périplo para alcançar a ribalta, divide seu tempo entre o ganha-pão como garçonete e a participação em inúmeros testes de elenco e um pianista que se encanta pela virtuose do jazz (Ryan Gosling), mas não pretende se render ao mercado. Justamente como um número de sapateado executado por Astaire, o maior brilho de “La La Land” é parecer fácil de ser produzido quando, na realidade, é fruto de um primoroso trabalho de elaboração que esbarra na excelência que lhe rendeu sete Globos de Ouro, inclusive o de ‘Melhor Filme Comédia ou Musical’ e, ao que tudo indica, deve disparar na frente na corrida ao Oscar.

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“La La Land: Cantando Estações”: encontro da Hollywood clássica co as novas gerações através do sentimentalismo e do sonho (Foto: Divulgação)

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“La La Land”: os sonhos continuam os mesmos, não importa a década. Afinal, a humanidade mudou, pero no mucho. Não tem a menor importância se estamos na Era de Ouro ou na do espetáculo, numa sociedade dominada por red carpets e mídias sociais: o desejo de chegar ao sucesso é sempre o mesmo! (Foto: Divulgação)

Ao homenagear Los Angeles como Meca do Sonho através daqueles que desejam galgar o estrelato na feroz Hollywood ou no igualmente seleto mercado do showbiz musical, o diretor Damien Chazelle consegue a proeza de ser tão leve em sua abordagem quanto sensível, sobretudo ao revelar que o desejo de sucesso pode não ser compatível com a felicidade pessoal, resvalando em outras produções tão díspares, mas que se tornaram clássicas por um ponto em comum: expor as entranhas da fama, seja pelo lado suave (“Cantando na Chuva“) seja o aspecto trágico (“Crepúsculo dos Deuses“). E é justamente por aí que o longa-metragem corre o risco de ficar para a história, como mais uma narrativa que revela o doloroso mundo da sucesso e, mais que isso – ou sobretudo isso, já que o tema do filme é esse – um libelo sobre sonhar.

Singing in the Rain

Numa rua criada em estúdio, Gene Kelly afirma o caráter ilusório do cinema em “Cantando na Chuva” numa das cenas mais emblemáticas da Sétima Arte: como na Era de Ouro, “La La Land” abusa do artificialismo dos cenários, amplificado pela técnica atual. Essa linguagem estética é um dos méritos do longa de Damien Chazelle, que pinta e borda com esse tipo de homenagem (Foto: Reprodução)

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Como no clássico “O Picolino” (de Mark Sandrich, 1935) e no final de “Todos dizem eu te amo” (de Woody Allen, 1997), Ryan Gosling e Emma Stone atinge os céus na coreografia mais tecnicamente elaborada de “La La Land”, passada num observatório (Foto: Divulgação)

Obviamente estamos falando de um produto realizado em plena era das relações líquidas, dos carões fáceis da turma closeira que gasta o topete numa enxurrada de selfies baratos, das apropriações de Clarisse Lispector nos twitters e facebooks pessoais com frases que a autora até nem disse, das opiniões metidas a densa na rede, das canções melosas cantadas com voz de criança para parecerem sinceras, entoadas por grupos com nomes pseudo-cabeças como Banda do Mar ou A Banda Mais Bonita da Cidade. Nesse campo, “La La Land” não foge disso: é um filme bonitinho que emociona num patamar tão midiático quanto fugaz. Mas, isso não lhe tira a qualidade: é cinemão de verdade com o mérito de aproximar o público de hoje ao universo dos musicais clássicos. Assim, ao mesmo tempo por isso e independente disso, torna-se um filmaço, mesmo abordando de forma superficial as mazelas da fama. Exatamente como fazia a Velha Hollywood dos musicais levinhos, em estúdios como a Metro ou a Paramount.

La La Land poster

“La La Land”: sete Globos de Ouro em 2017, filme desponta na corrida ao Oscar como um dos favoritos da crítica e público, junto com “Estrelas além do tempo”. A lista de indicados ao prêmio máximo do cinema será anunciada somente no dia 24 (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer (Divulgação): 

Chazelle já havia mostrado ao mundo sua paixão pelo jazz no bom Wiplash: em busca da perfeição” (Wiplash, 2014), que concorreu a cinco Oscars e arrebatou três, inclusive o de ‘Melhor Ator Coadjuvante’ para J.K.Simons, resgatado pelo cineasta para fazer uma deliciosa ponta em “La La Land”.  Agora, o diretor-roteirista reforça esse amor pelo aspecto visceral da virtuose jazzística, mas também adiciona um até então insuspeito amor pela arte de representar, através da mocinha interpretada por Stone.

Wiplash final

“Wiplash: em busca da perfeição”: longa-metragem que deixou o diretor Damien Chazelle em evidência lida com a questão da excelência no cruel embate entre um talentoso baterista novato (Miles Teller) e o maestro carrasco de uma banda (J. K. Simmons). Nas entrelinhas, o argumento do longa anterior do cineasta quer dizer muito sobre ele mesmo: fica notória na execução de “La La Land” a forma como o diretor procura alcançar o virtuosismo cênico (Foto: Divulgação)

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Romance à flor da pele é mais do mesmo em “La La Land”: filme tem o grande mérito de ser emotivo sem cair no lugar comum, mas homenageando aquilo que já foi feito milhares de vezes no cinema ao mesmo tempo que traz um jeitinho de novidade (Foto: Divulgação)

E faz tudo isso sendo extremamente moderno nas tomadas e enquadramentos de câmera, no uso elegante (e nunca exagerado, diga-se de passagem) da edição que o cinema digital permite, estabelecendo uma gostosa homenagem à Era de Ouro dos Grandes Estúdios (e até de realizações que chegaram às telas um pouco depois), através do meticuloso exercício de metalinguagem. Exemplo disso é o colorido vivíssimo das cores primárias e secundárias nos cenários assumidamente fake e nos figurinos kitsch, como se a produção tivesse sido filmada no technicolor dos anos 1940/50, levando à nocaute a estética que se fez lugar comum na Hollywood atual, com cartelas de cores dessaturadas tal qual presunçosas imagens photoshopadas previamente capturadas pelos smartphones, prontas a ocupar as mídias sociais seguindo os cânones da estética publicitária. Ponto para o diretor de arte Austin Gorg e sua equipe.

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Cores primárias na noite amena de Los Angeles, como num clipe: turma do design de produção e figurino de “La La Land” se esbalda na hora de brincar com o colorido, quase esbarrando no camp e evocando o technicolor da Era de Ouro (Foto: Divulgação)

Referências a baluartes da cinematografia como Stanley Donen, Vincente Minnelli ou Jacques Demy comparecem em cenas que evocam produções que fizeram história como Sinfonia de Paris” (An American in Paris, 1951), A Roda da Fortuna” (The Band Wagon, 1953) ou Duas garotas românticas” (Les Demoiselles de Rochefort, 1967).

Sinfonia em Paris

O galã Gene Kelly e francesa Leslie Caron – estrelas seminal dos musicais da MGM antes do seu ocaso – redefinem a elegância de uma Cidade Luz retrô em “Sinfonia de Paris”, clássico de Vincent Minnelli que serve de inspiração para “La La Land”, nova produção de Damien Chazelle (Foto: Reprodução)

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“Duas garotas românticas” (1967): assim como o anterior “Os guarda-chuvas do amor” (1964), também de Jacques Demy, o longa francês traz a estrela Catherine Deneuve num musical francês que se espelha na Hollywood dos anos 1950, mas com características muito próprias, que agora são tomadas emprestado por Damien Chazelle para seu “La La Land: Cantando Estações” (Foto: Reprodução)

Por exemplo: a cena de abertura, filmada em Cinemascope num viaduto tomado por um daqueles engarrafamentos típicos da Cidade dos Anjos, brinda o público com a façanha de mesclar referências da cena da rua no início de “Duas garotas românticas” com a sequência de literalmente parar o trânsito na Nova York de “Fama” (Fame, de Alan Parker, 1980), quando os alunos da escola de artes performáticas dão vazão às suas veias artísticas numa explosão coreográfica no asfalto.

É nesse turbilhão de referências, na abordagem “Geração Z” do lugar comum e sobretudo numa emotividade que atravessa as faixas etárias, que “La La Land” ganha o público a partir do misto entre o bom humor e o piegas, através das gostosíssimas coreografias de Mandy Moore, quase sem complicações como battements, mas embaladas por uma trilha sonora que pega criada por Justin Hurwitz e que se aproxima da sonoridade  de pérolas cinematográficas compostas pelo bamba Michel Legrand.  Seu ápice é a canção City of Stars“, e é impossível não sair do cinema cantarolando essa música tão singela quanto os movimentos coreográficos.

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Egresso de “West Side Story”, George Chakiris emcabeça a coreografia do ferry boat que imprime logo de cara a tônica de “Duas garotas românticas”. É inevitável a comparação com a cena do viaduto que abre “La La Land”

Fame

…que também encontra semelhança na famosa explosão musical de “Fama”, musical que sintetiza a febre do jazz na virada dos anos 1980 e trouxe para a telona a então diva pop Irene Cara (Foto: Divulgação)

No mais, é impossível não mencionar o bom desempenho de Ryan Gosling e Emma Stone. O ator não chega a um milésimo da projeção vocal de Howard Keel, nem é capaz de realizar os movimentos acrobáticos de Gene Kelly, muito menos tem a elegância de Fred Astaire. Mas, com sua interpretação contida, dá conta do recado. Já a mocinha não dispõe dos dotes de Cyd Charisse, das pernocas de Ann Miller, no máximo esbarra no jeitinho de girl next door de June Allyson, e olhe lá! Mas, cumpre seu papel funcionando que é uma beleza, assim como seu par.

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Stone e Gosling, em sintonia nos bastidores de “La La Land”: escolha improvável dos protagonistas acabou se revelando um acerto de casting. Os atores seguram  a narrativa na mesma proporção que Liza Minnelli e Robert De Niro são a síntese de “New York, New York” (1977) (Foto: Divulgação)

No final, os dois comovem, mesmo sem cantar, nem dançar, nem sapatear como deveriam, inclusive  quando perfazem um numerozinho gostoso que começa sentado num banco, com o skyline de Los Angeles ao fundo, emulando de longe a cena da sala de estar de É deste que eu gosto” (I Love Melvin, 1953), eternizado por Donald O’Connor e Debbie Reynolds. É nessa hora que fica clara a intenção de Chazelle: atualizar a atmosfera onírica e ingênua dos antigos musicais para o mundo volátil das novas gerações, mais acostumadas aos Twitters, Snapchats e Instagrams.

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Debbie Reynolds e Donald O’Connor em “É deste que eu gosto” (I Love Melvin): na Hollywood dos anos 1950, era importante tanto ter carisma quanto qualidade técnica na hora de atuar em um musical. Hoje, o buraco é mais embaixo, e nem sempre é preciso cantar de verdade. Mas, tudo bem. O diretor de “La La Land” soube contornar o problema definindo uma escolha de elenco aparentemente insólita, mas eficaz (Foto: Reprodução)

Confira abaixo a cena mais famosa de “É deste que eu gosto” (1953), clássico de George Wells que aproveitou Donald O’Connor e Debbie Reynolds na rabeta de “Cantando na Chuva”. Embora Ryan Gosling e Emma Stone não dancem ou cantem nada, é impossível conferir “La La Land” e não pensar na dupla clássica. Em comum, a poesia… (Reprodução): 

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