O maior talento de Ridley Scott – o de criar visualmente universos deslumbrantes que permitem o pleno exercício da narrativa – é seguido à risca em Perdido em Marte” (The Martian, Twentieth Century Fox e outros, 2015), sci-fi em cartaz no cinemas. Desde seus primeiros filmes (“Os duelistas”, “Alien”, “Blade Runner”) ele já demonstrava ter o pulso firme na hora de envolver o público na atmosfera de cada história. Agora o diretor consegue mais uma vez repetir a façanha, imergindo a plateia nesse enredo que fala de um Robson Crusoé espacial, o astronauta vivido por Matt Damon que é dado como morto e deixado para trás em uma missão tripulada no planeta vermelho.

Imensidão vermelha: talento de Matt Damon e beleza das imagens driblam possível cansaço no longa-metragem que narra o périplo solitário de um astronauta perdido em Marte (Foto: Divulgação)

Imensidão vermelha: talento de Matt Damon e a beleza das imagens driblam possível cansaço no longa-metragem que narra o périplo solitário de um astronauta perdido em Marte (Foto: Divulgação)

O longa é um exemplar dessa nova safra da ficção científica no sentido mais estrito do gênero – não uma aventura espacial de capa e espada, mas o exercício de imaginação das possibilidades que a ciência & comportamento permitem, do tipo de elucubração que diretores como Stanley Kubrick (“2001 – uma odisseia no espaço, 1968″) e Robert Wise (“O enigma de Andrômeda, 1971″) realizaram na virada dos anos 1970, na esteira de escritores clássicos como Jules Verne, H.G.Wells, Isaac Asimov e Ray Bradbury, antes de George Lucas e Steven Spielberg inventarem o conceito de blockbuster e transformarem os delirantes Guerra nas Estrelas (1977) e Contatos imediatos do terceiro grau (1978) em legítimos exemplares do estilo.

"2001 - uma odisseia no espaço": talento de Kubrick, qualidade técnica para a época e roteiro cabeça não livram o público de cenas tediosas nas suas duas horas e meia de projeção (Foto: Divulgação)

“2001 – uma odisseia no espaço”: genialidade de Kubrick, qualidade técnica para a época e roteiro cabeça não livram o público de cenas tediosas nas suas duas horas e meia de projeção (Foto: Divulgação)

Com o avanço das tecnologias digitais e efeitos 3D, era natural que o sci-fi tradicional viesse a ser renovado – amplificado agora por tomadas mirabolantes e pelo ritmo ágil da edição, algo impossível tecnicamente na época de “2001” –, de forma que aquilo que poderia ser maçante para os olhos das novas gerações agora se torna palatável. Alfonso Cuarón provou isso recentemente com o seu Gravidade” (Gravity, Warner Bros., 2013), sucesso com timing e cinematografia impecáveis que quase conferiu à Sandra Bullock seu segundo Oscar pelas peripécias de sua solitária astronauta perdida na imensidão do espaço sideral. Scott segue o mesmo caminho voltando seu olhar para a exploração de Marte e amparado pelo carisma de Matt Damon, esplêndido.

"Gravidade": filme enxuto de Cuarón da cabo da paciência do público em projeção que é quase inteiramente um 'monólogo' (Foto: Divulgação)

“Gravidade”: filme enxuto de Cuarón dá cabo da paciência do público em projeção que é quase inteiramente um ‘monólogo’ (Foto: Divulgação)

Mas, se “Gravidade” é um filme curtinho, perfeito para o espectador assistir ao périplo da astronauta acidentada sem cansar, Ridley Scott aposta num longa mais extenso, de 141 minutos de duração. Porém, para driblar a paciência do público, o cineasta opta pelo eficiente contraste entre a solidão do protagonista em Marte e o burburinho das cenas passadas na Terra, nas quais a alta direção da Nasa precisa lidar com a opinião pública para saber se esconde das massas o fato de ter pisado na bola e deixado um funcionário à deriva num planeta inóspito – o que poderia, em caso de má repercussão, comprometer até o futuro das viagens espaciais – ou se reverte o jogo e transforma tudo em publicidade positiva, forjando uma nova celebridade no ambiente nada rarefeito do espetáculo.

"Perdido em Marte": fotografia magistral, talento do protagonista e contraste entre solidão em Marte e manipulações de mídia na Terra (Foto: Divulgação)

“Perdido em Marte”: fotografia magistral, talento do protagonista e contraste entre solidão no planeta vermelho e as manipulações de mídia na Terra (Foto: Divulgação)

Para isso, entre conferências regadas a cafezinho, bate-bocas com a assessoria de imprensa da agência espacial, brainstorms técnicos e coletivas de imprensa, coadjuvantes de luxo como Sean Bean, Jeff Daniels e Chiwetel Ejifor dão cabo do contraponto, em terra firme e bem longe dos infortúnios vividos por Damon, abrilhantando Perdido em Marte“, que ainda conta no super elenco com Kate Mara e a geralmente insossa Jessica Chastain – competente como a capitã que quer salvar o astronauta para evitar o peso do remorso.

Exaustão: o cansaço do personagem principal é superado pelo desejo de viver e pela hábil capaicidade do diretor Ridley Scott de manipular o público (Foto: Divulgação)

Exaustão: cansaço do personagem principal é superado pelo desejo de viver e pela hábil capacidade do diretor Ridley Scott de manipular o público em “Perdido em Marte” (Foto: Divulgação)

Confira o trailer abaixo (Divulgação):

 

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