A lista de indicados ao Globo de Ouro 2016 finalmente saiu nesta quinta-feira (10/12) e já causa rebuliço. Entre os candidatos às diversas categorias de cinema e televisão que poderão ser contemplados dia 10 de janeiro, em Los Angeles, encontram-se o drama lésbico Carol“, seu diretor Todd Haynes e sua protagonista Cate Blanchett – todos ovacionadíssimos no último Festival de Cannes e fortes candidatos ao Oscar –, Jane Fonda voltando ao ranking e concorrendo como ‘Melhor Atriz em Comédia ou Musical’ por sua participação no delicioso Youth (de Paolo Sorrentino, o mesmo de “A Grande Beleza”), Leonardo DiCaprio competindo por O Regresso (primeiro longa de um Alejandro González Inharritú pós-oscarizado) e o bom “Perdido em Marte (leia aqui) no páreo com várias indicações, entre elas ‘Melhor Comédia ou Musical’ (oi, comédia?!?) e Ridley Scott e Matt Damon disputando respectivamente ‘Melhor Diretor’ e ‘Melhor Ator em Comédia ou Musical (oi?!? bis). Já o brasileiro Wagner Moura está indicado a ‘Melhor Ator em Série Dramática’ por Narcos (Netflix) e Quentin Tarantino volta à ribalta com o seu Os 8 Odiados“, que pode inclusive dar o prêmio de ‘Melhor Trilha Sonora’ a uma lenda viva do score: Ennio Morricone. E, entre diversos expoentes da TV, uma promete dar samba, pelo menos na torcida: Lady Gaga, que concorre a ‘Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV’ por sua bizarra Condessa Elizabeth, de American Horror Story: Hotel“. ÁS elucubra!

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Art déco do terror: nunca a expressão “se hospedar num hotel horroroso” fez tanto sentido quanto em “American Horror Story: Hotel”, que concorre ao Globo de Ouro 2016 em duas categorias: ‘Melhor Minissérie ou Filme para TV’ e ‘Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV’ (Foto: Divulgação)

Quando a FX (da Fox) anunciou que Lady Gaga protagonizaria a nova temporada de AHS – American Horror Story: Hotel –, público e crítica logo entenderam que se tratava de um recurso midiático para dinamizar a atração após a saída de Jessica Lange, monstro sagrado que ajudou a catapultou a série ao patamar máximo da televisão atual, ao lado de preciosidades como Mad Men“, Breaking Bad“, Downton Abbey e “Game of Thrones“.

A estrela presenteou os telespectadores com atuações memoráveis, todas concorrendo (às vezes vencendo) ano após ano nessa mesma categoria a qual a pop star agora disputa. Espécie de Cassia Kis Magro do showbiz norte-americano (do tipo que não dispensa uma ruga na face para ter o que dobrar na hora de interpretar), Lange ajudou a consolidar a ideia de que televisão é veículo para astro hollywoodiano de primeira grandeza e fez valer cada aparição durante as quatro primeiras temporadas.

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Jessica Lange dá um close como Constance Langdon, papel que interpretou na primeira temporada de “American Horror Story” e lhe conferiu o prêmio de ‘Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV’ no Globo de Ouro de 2012. Ela ainda concorreria nos três anos seguintes pelas demais temporadas da mesma atração nos Golden Globes, ganhando também o Primetime Emmy (Foto: Divulgação)

Apesar do ótimo casting e da adesão de Kathy Bates ao elenco fixo da série, a saída voluntária de Jessica Lange foi apontada como um possível declínio da atração, que entraria na atual 5ª temporada. Um perigo, pois muitas vezes é entre o quarto e a quinto ano de exibição que um seriado de peso desanda e sua fórmula de sucesso vai para o brejo. Daí, a presença de Lady Gaga para dar aquela turbinada de “mimimi” vital para a sobrevivência de qualquer programa de televisão, dos Estados Unidos à Guiné Bissau, se é que esta tem alguma emissora própria.

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Kathy Bates interpreta a concièrge Iris em “American Horror Story: Hotel”: vacilou no front desk, ela manda logo para o quarto onde coisas ruins acontecem (Foto: Divulgação)

Obviamente, o produtor Ryan Murphy e sua tropa de choque criativa se esmeraram em forjar um personagem que facilitasse a coisa, concebido dentro de um padrão interpretável pela performer. Afinal, ela não nasceu Bette Davis e contracenaria em “American Horror Story: Hotel” com “macacos velhos” da atuação como a própria Bates, Sarah Paulson, Denis O’Hare, Chloe Sevigny, Angela Bassett, Mare Winningham e toda a sorte de criaturas das telas.

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Poderosa: Lady Gaga é a fria e maquiavélica Condessa Elizabeth, dona do pérfido Hotel Cortez, elegante pérola da mais pura maldade. Seu talento interpretativo agora é posto à prova e ela concorre ao Globo de Ouro na categoria ‘Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV’ por “American Horror Story: Hotel” (Foto: Divulgação)

Para o seu suposto azar, estaria ao lado até rapazes que já mostraram bons serviços, Wes Bentley e Evan Peters, ou mesmo o bonitão Matt Boomer, novato no elenco principal de AHS, mas que ingressou firme com um bônus a mais: concorreu ao Emmy 2014 de ‘Melhor Ator Coadjuvante em Papel de Série, Minissérie ou Filme para a TV’ num arrebatador papel de um doente terminal de Aids no excelente The Normal Heart, provando que não se trata apenas de mais um marombado Ken humano. Para piorar, este gostosão de corpo apolíneo ainda coprotagoniza cenas nuzinho ao lado de Gaga, perigo absoluto para a turma amiga que pretende que a tela do aparelho de tevê fique a salvo de possíveis esguichos. E mais: nesta temporada em curso, até Naomi Campbell deu pinta em dois episódios.

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Matt Bomer: depois de reconhecido o talento na TV, o coadjuvante bonitinho de “Magic Mike” ganha papel à altura de glam star em “American Horror Story: Hotel” (Foto: Divulgação)

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Sexo selvagem: ninguém sabe se as negociações de cachê de Lady Gaga para participar de “American Horror Story: Hotel” chegaram a incluir cenas tórridas com o boa -pinta Matt Boomer Foto: Divulgação)

Traduzindo: quem convocou Lady Gaga para estrelar o programa não avisou à moça que havia armado uma cilada e tanto já que, se saindo bem ou mal, ela serviria de chamariz de público, mesmo que fosse engolida no ar por essa patota de peso. Com amigos desses na produção executiva, se sua mãe for a progenitora de Norman Bates (“Psicose”), você pode até acreditar que veio do ventre da Noviça Rebelde.

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Chave de cadeia: no hotel de Lady Gaga, não adianta rezar para sair. Após o check in – e se o quarto tiver televisão a cabo -, vale a pena o hóspede acompanhar a 5ª temporada de “American Horror Story”, mesmo que depois não sobreviva (Foto: Divulgação)

E não é que Lady Gaga está mandando ver? Ainda que o personagem possivelmente tenha sido cunhado para seu physique du rôle (e não o contrário) e os espetaculares figurinos andem na direção daquilo que se espera dela em um videoclipe, sua presença na lista de candidatos é justa. Especificamente, neste episódio 9 escolhido a dedo para ser exibido nesta noite de quinta-feira (10/12) – no dia em que sua indicação ao Globo de Ouro foi noticiada –, a starlet está mais performática do que nunca e fica claro que, se o elenco à sua volta é de calibre, Gaga soube se sair bem da fria em que foi colocada. Resta esperar janeiro pra ver se ela será mais uma curiosidade de quermesse na premiação ou se levará para casa um brinquedinho novo para enfeitar a estante, mesmo disputando o Golden Globe com talentos de peso, como Kirsten Dunst (“Fargo”), Queen Latifah (“Bessie”) e Felicity Huffman (“American Crime”).

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Diva para biba suspirar: na atração televisiva, Lady Gaga faz tudo e mais um pouco daquilo que já está acostumada a fazer nos seus clipes e shows monumentais: carão, olhar maquiavélico e pose de egípcia, sempre num figurino fabuloso. Mas não é que, além disso, a moça ainda interpreta? (Foto: Divulgação)

Em tempo: sugerida como uma compilação de clichês dos filmes de terror ambientados nos lobbies e corredores de hotel – como O Iluminado” (The Shining, de Stanley Kubrick, 1980) ou 1408” (idem, de Mikael Hafstrom, 2007) –, “American Horror Story: Hotel” tem se revelado uma pedida e tanto. A começar, é a temporada mais assustadora da atração, com trama que mistura imortalidade, perversão, vampirismo, crianças endiabradas, quartos mal-assombradíssimos e otras cositas más. E, enquanto série que flerta descaradamente com os códigos cinematográficos, a fornada atual de capítulos suplanta as referências que lhe serviram de inspiração, brilhando com luz própria ao se apropriar delas.

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Na faca: Shelley Duvall se apavora em “O Iluminado”. Obra-prima grand guginol passada em um hotel isolado, o longa de Stanley Kubrick serve de inspiração para a 5ª temporada de “American Horror Story” (Foto: Divulgação)

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Bizarrice & luxo: “American Horror Story: Hotel” capricha na dose de sangue e revela ao público uma galeria de tipos igualmente glamourosos e repugnantes. Mas, no fundo, não é disso que se trata Hollywood? (Foto: Divulgação)

Mais ainda: o roteiro abusa deliciosamente da intimidade com a Sétima Arte quando se diverte misturando a própria mitologia dos filmes de horror com mitos reais do cinema, trazendo à cena a liberalíssima dupla Rodolfo Valentino e Natacha Rambova. Reza o folclore que o casal era chegado a um divertissement moderninho e, na série, os dois se tornam vampiros graças às dentadas de F. W. Murnau, o cineasta que filmou o clássico esquisitão Nosferatu“, (idem, 1922, coincidentemente o ano em que os pombinhos sodomitas de Hollywood juntaram as trouxinhas).

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Com Natacha Rambova (Alexandra Daddario) ao fundo, um diabólico Rodolfo Valentino revela à Lady Gaga que não é preciso prantear um morto que não morreu (Foto: Reprodução)

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Valentino e Rambova: banquete de sangue sem a menor cerimônia em “American Horror Story: Hotel”. Afinal, uma metáfora para a meca do cinema, na qual a palavra comedimento só existe no dicionário (Foto: Divulgação)

Um achado que se amplifica com o personagem de Lady Gaga começando a história em pleno 1925, como uma figurante da derradeira produção estrelada por Valentino, O Filho do Sheik” (The Son of the Sheik, de George Fitzmaurice, 1926). Após seduzi-la nos backstages de filmagem, o astro teria simulado a seguir a própria morte para se livrar da pressão do estúdio sobre sua dissoluta vida bissexual. Como se não bastasse, na trama é a cantora-atriz quem dá vida à misteriosa mulher de preto que, durante anos, realmente depositou rosas no túmulo do ator. Saboroso como uma mordiscada na jugular…

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Tipo promessa: pimpolhos do cramulhão bebem seus toddyinhos sabor sangue sentadinhos sobre as longas madeixas de Lady Gaga, prestes a pegar o elevador do demoníaco Hotel Cortez. Os publicistas de “American Horror Story: Hotel” devem ter assistido aos clipes da cantora para criar as fotos de divulgação (Foto: Reprodução)

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Liquidificador assustador: em “O Iluminado”, Kubrick misturou no mingau lambris, papel de parede fofinho, um menino irritante no velocípede e duas gêmeas fantasmagóricas embaladas em delicados vestidos-bombom. No final, a receita se revelou um dos mais assustadores cardápios cinematográficos de todos os tempos, cujos ingredientes “American Horror Story: Hotel” pretende oferecer reciclados ao telespectador (Foto: Reprodução)

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