Num primeiro momento, a referência é inevitável. Ao conferir Pantera Negra” (Black Panther, de Ryan Coogler, Marvel Studios, 2018), não há como não vir à mente a associação da nova realização do Universo Marvel com as produções blaxploitation: o gênero – filmes produzidos nos anos 1970 com elenco majoritariamente negro e ambiência no universo black, visando atingir as plateias afrodescendentes norte-americanas que se firmaram com voz própria após os movimentos de igualdade eclodidos nos sixties, com o devido empoderamento da negritude.

Foto: Divulgação

Confira abaixo o trailer legendado (Divulgação):  

Esses longas, produções classe B geralmente policiais e ou tramas urbanas de ação, às vezes enveredando pelo terror (“Blacula, o vampiro negro“, com William Marshall e Vonetta McGee, 1972), forjaram uma safra de atores negros como Tamara Dobson (“Cleópatra Jones“), Fred Williamson (“O comando do sindicato“, 1974) e Pam Grier (“Foxy Brown“, 1974), que depois teria sua carreira ressuscitada quando Tarantino homenageasse o estilo em Jackie Brown” (1998).

“Blácula, o vampiro negro”: clássico blaxploitation faz parte da leva de produções do cinema setentista que evocavam a afirmação da cultura afroamericana na esteira da Revolução de Costumes (Foto: Divulgação)

“Cleópatra Jones” longa-metragem que transformou sua protagonista em ídolo fashion e teve uma continuação é um dos mais significativos exemplares da filmografia blaxploitation. A atriz Tamara Dobson morreu em 2006 (Foto: Divulgação)

O mais famoso de todos os astros saídos destes filmes foi Richard Roundtree, cujo Shaft (1971) também chegou ao mainstream concorrendo a três Globos de Ouro e dois Oscar (ganhou um em cada premiação), catapultando o ator à pole position no panteão de estrelas afroamericanas e ganhando refilmagem em 2000 com Samuel L.Jackson. E essa atmosfera de valorização da cultura black urbana americana se tornou tão impregnante naquela década que chegou até à franquia 007, no longa que trouxe Roger Moore pela primeira vez no papel de James Bond, Com 007 viva e deixe morrer (1973), e em séries da TV como Police Woman e Starsky & Hutch“.        

A partir de “Shaft”, o astro negro Richard Roundtree ganhou notoriedade e foi incensado das produções classe B para o cinemão, em blockbusters como “Terremoto” (1974). Seu sucesso entretanto durou pouco (Foto: Divulgação)

O ator Michael B. Jordan, que interpreta um vilão cujo caráter é fruto do meio desigual e injusto no qual foi criado, se inspirou em “Cidade de Deus” para compô-lo (Fotos: Divulgação)

Todo esse blablablá acima se faz necessário quando se constata que em Hollywood nada se cria, quase sempre se copia e tudo é possível, desde que renda bilheteria. O inventor do showbizz P.T.Barnum cunhou a frase “Ninguém nunca perdeu dinheiro por subestimar a inteligência do público”, máxima que foi repetida à exaustão por tycoons dos estúdios de cinema como Daryl F. Zanuck, antigo chefão da Fox, hoje comprada pela Disney, dona da Marvel  Studios. 

Ao assumir o viés do empoderamento black em Pantera Negra“, o diretor mira no alvo certo, fazendo um longa que, se faz perfeitamente parte do Universo Marvel (história amarradinha, conectada com outras narrativas que já foram exibidas nas telas ou virão a ser, direção de arte féerica, efusão cromática, cortes dinâmicos que só o cinema digital permite e hiperrealismo), causa certa estranheza ao trazer os super-heróis de Stan Lee e Jack Kirby para o diálogo com a blaxpolitation.

A mescla entre tecnologia e elementos tribais, como máscaras africanas, é responsável pelo visual instigante de “Pantera Negra”    (Foto: Divulgação)

Claro, estamos falando de um filme de enorme orçamento, com cifras sequer sonhadas pelos cineastas do estilo nos anos 1970, e o grande público sequer vai racionalizar essa questão, embora ela possa estar enraizada no seu subconsciente através de alguma sessão da madrugada na TV. Mas isso pouco importa. O que vale é essa aproximação dos dois gêneros e é isso que torna “Pantera Negra” um filme único dentro da Marvel Studios, ainda mais afinado com os novos tempos que promovem a “exaltação do empoderamento” e elevam o multiculturalismo à dimensão do espetáculo.  

O elenco, além do óbvio – o fato de quase todos serem negros  – contribui com suas interpretações para essa associação insólita, do protagonista  Chadwick Boseman, passando pelo vilão Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o e Danai Gurira (a Michonne de The Walking Dead“), até as caras e bocas da rainha-mãe Angela Bassett e do pajé Forrest Whitaker. Um primor de casting a cargo da ótima cast producer Sarah Finn, que também está atualmente em cartaz com outro ótimo trabalho seu: Três anúncios para um crime (leia mais aqui).

Bendito fruto em “Pantera Negra”: elenco quase inteiramente negro posa para a selfie na Comic Con. ao lado de Martin Freeman, Andy Serkis é um dos poucos brancos no casting (Foto: Divulgação)

Somam-se a isso o revestimento da ambiência “Bronx” com uma embalagem sci-fi: cenário espetacular tipo “Asgard”, figurinos que parecem saídos de um show de Manu Dibango ou Fela Kuti, aditivados pelos modelitos afro-espaciais de Whoppy Goldberg em Star Trek – The Next Generation“, por uma pitada da estética afropunk presente no trabalho de estilistas como Maria Kazakova e sua Jahnkoy, padronagens gráficas e trilha que remetem ao O Rei Leão da Broadway.

Estética coloridona,esquisitona e diferentona: os figurinos de “Pantera Negra” bebem de várias fontes… (Foto: Divulgação)

… de referências étnicas estilizadas do hit do teatro musical “O Rei Leão”, na concepção da diretora Julie Taymor,… (Foto: Divulgação)

… as head pieces afro espaciais de Whoopy Goldberg em “Star Trek: The Next Generation”… (Foto: Divulgação)

… e até a moda street multicultural e endiabrada da Jahnkoy, da russa radicada em Nova York Maria Kazakova, queridinha das semanas de moda e que esteve no Brasil, na SPFW, há um ano (Foto: Divulgação)

Nessa mélange de referências, as cenas passadas na metrópole sul-coreana Busan se encarregam de imprimir aquelas tintas do submundo urbano novaiorquino, algo tão vital à atmosfera blax.

Até o outro vilão vivido por Andy Serkis –, ao vivo e a cores, sem CGI, longe dos Gollums, Cesares e King Kongs que ele ajudou a cunhar desde os anos 2000, mas tão careteiro quanto esses – se assemelha àqueles traficantes escroques combatidos por Shafts e Cleópatras Jones.

Na versão cinematográfica de “Pantera Negra”, Andy Serkis vive uma versão menos exagerada que nos quadrinhos do vilão Ulisses Klaue que na concepção original do quadrinista Jack Kirby (Foto: Divulgação)

Em entrevista ao site Omelete, a designer de produção Hannah Beachler foi categórica: “Tudo veio de Jack Kirby. A gênese visual deste filme são os quadrinhos dele. Partimos deles para uma fusão com temas africanos das tribos, das culturas mais milenares”.

Aliás, o mix do tribalismo africano e o visual futurista – este, uma marca de Jack Kirby – é um dos componentes que tornaram “Pantera Negra” um gibi atraente, com estética impensável, mas completemente degustável hoje em dia, em tempos de hibridismo cultural. A produção de cinema capitaneada por Ryan Coogler soube tirar proveito desse aspecto da narrativa (Foto: Reprodução)

Okay, perfeito, mas quem disse que Kirby não era o tipo de visionário que, já nos anos 1960 (o Pantera foi criado em 1966, no turbilhão de Luther King, Malcolm-X e incidentes como Selma) antevia a multiculturalidade que seria a tônica da era da informação nessa virada de milênio?                 

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