Numa São Paulo Fashion Week que hoje privilegia o aspecto comercial, é um alento assistir a um desfile como o de Isabela Capeto. Destaque maior desde quando voltou a integrar o line up, ela engrossa a turma que faz slow fashion como Lino Villaventura, PatBo, Ronaldo Fraga, Samuel Cirnansck e Patricia Viera. E, numa semana de moda que anda desfalcada de talentos que já passaram com louvor pela passarela, como André Lima, Carlos Tufvesson, Jefferson Kulig, Marcelo Sommer, Dudu Betholini & Rita ComparatoLourdinha Noyama e Fause Haten, a carioca assume a dianteira como criadora autoral que dá brilho a um evento que agora foca mais na relação imediatista entre exibição e venda.

Não que ela não venda, não se trata disso. Mas a preocupação da SPFW com o see now buy now vai na contramão do minucioso trabalho de Isabela e, graças ao bom Deus, é o público (e a moda!) quem lucra com essa designer de resistência.

Dessa vez, a moça imergiu numa viagem ao Cariri Cearense. Seria de se imaginar que, numa obviedade de qual Isabela não compartilha, a coleção pudesse estar recheada de beges e cáquis militares ao estilo “Lampião & Maria Bonita”, tema farto e recorrente na moda brasileira desde Zuzu Angel. Nada disso. Tão esperta quanto criativa, Isabela Capeto se recusa a cair no lugar comum e o seu Cariri, apesar de encravado no sertão, é a sua cara: exuberante, cheio de cores, aplicações, rosas e vermelhos, flores graúdas que nada se assemelham aos uniformes secos da turma do cangaceiro.

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

Como o Cariri é considerado o oásis do sertão, a grife explode nas cores, nas flores, nos babados, viaja pela arqueologia local, costumes, pelo casario, máscaras de cerâmica das Irmãs Candido e pela arte do romeiro, escultor e xilógrafo Mestre Noza. Belezura!

O resultado é mais uma fornada de peças atemporais que, como Isabela, respiram etnia, mas não são étnicas; transpiram regionalidade, mas são do mundo; exalam localidade, mas tem aroma globalizado, podendo ser consumidas em qualquer lugar do planeta como alta moda nota dez em originalidade.

A cliente que curte assumir essa verve proposta por Isabela, tão exotique quanto um maracujá para os franceses, poderá usar as montagens au grand complet, enveredando pelo lifestyle louco e criativo de papisas como Isabella Blow e Anna Piaggi. Já a cliente ama uma levada romântica, sensível e cabeça vai assumir um bom vestido da coleção, se codificando como persona cerebral, mas repleta repleta de alma. E quem não tiver essa coragem toda, vai pegar uma bela saia longa bordada ou uma jaqueta da coleção e usar com uma boa chemise branca, emulando a elegância clássico-latina de uma Carolina Herrera, por exemplo.

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

 

No fundo, ao apresentar na passarela o Cariri, Isabela Capeto metaforiza ela mesma. Com seu trabalho sempre fresh, mas fiel à sua visão de moda, a designer é mesmo um refrescante oásis dentre a ditadura do fast fashion e as estripulias de quem quer sobreviver no mercado, mas não sabe manter a autoralidade.

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

Isabela Capeto na SPFW N43 (Foto: Agência FOTOSITE / Divulgação)

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