“Nada precisa ser literal, a novela é uma grande diversão. Mesmo passada nos anos 1990, não é reprodução de época. É obra aberta, tem que trazer coisas de agora, se não o público rejeita”. É assim que começa Marília Carneiro, figurinista-emblema da Rede Globo, no papo exclusivo com ÁS sobre o novo sucesso da emissora, “Verão 90“, que procura espelhar o comportamento dessa virada de década, tão longe e tão perto.

Marília Carneiro é responsável pelo visual do elenco de “Verão 90”, sucesso global de Izabel de Oliveira e Paula Amaral que anda agradando o público, repetindo nesta última quinta-feira (7/2) o recorde de audiência, consolidado na Grande São Paulo pelo Ibope, de 24,3 pontos que obteve na segunda e terça anteriores (Foto: Divulgação)

Conhecida por sacações que viraram de avesso o Brasil no percurso da ficção para a rua, como o visual disco da icônica meia listrada de lurex de Julia Matos (Sonia Braga), em Dancin’ Days“, e os espalhafatosos modelitos de Maria do Carmo (Regina Duarte) e Dona Armênia (Aracy Balabanian), em “Rainha da Sucata“, ela confessa: “Estou me soltando mais ainda nessa novela, principalmente em personagens mais marcados como os de Claudia Raia e Luiz Henrique Nogueira. Na novela da sucateira, por sinal exibida no verão 90, eu tinha a favor a onda da lambada, o japonismo e a alfaiataria de Gregório Faganello para compor a Laurinha Figueiroa [Gloria Menezes] e início da MTV o Brasil”.

Ex-atriz pornô que virou empresária de artista-mirim e sonha alcançar o estrelato, Lidiane (Claudia Raia) é um dos personagens-emblema usado por Marília Carneiro e Jorge Fernando para reproduzir a virada dos anos 1990 ipsis literis. Já os protagonistas Manu (Isabelle Drummond) e João (Rafael Vitti) fazem a devida ponte entre o período e os dias de hoje, em looks bem menos radicais prontos para criar a conexão com o público jovem que assiste a novela (Foto: João Cotta / Divulgação)

Casal romântico cômico de “Verão 90”, Patrick ( Klebber Toledo ) e Lidiane ( Claudia Raia ) conta com visual mais caricato que acentua a época. A estética de shape justinho, quase embalado a vácuo, e a moda do legging com escarpin é levada ao pé da letra pelo personagem da atriz. “Procurei usar tecidos da época. Minha assistente foi à Indonésia e trouxe uma mala cheia de matérias-primas que eram moda por aqui, inclusive malha bali”, entrega a figurinista (Foto: João Cotta / Divulgação)

No referencial maior, aliás, é a vinda da emissora americana para o país, justo nesse verão, que anda tomando conta da cabeça de Marília. “Está tudo dominado. É o auge da MTV;  pesquisei muito o estilo dos apresentadores que surgiram nessa cena pop, como Astrid [Fontenelle] e aquela moça de cabelos curtinhos que depois fez o ‘Casseta e Planeta’. Como é mesmo o nome? Esqueci!”, cita a costume designer, citando Maria Paula.

Rostinho fofo: a VJ Maria Paula virou ícone da cultura pop nacional na virada dos 1990’s ao integrar o primeiro time de apresentadores da recém-chegada MTV ao Brasil. A onda dos looks sequinhos com jaqueta sobreposta era hit e está presente na novela”, revela Marília Carneiro (Foto: Reprodução)

Ao lado de Gastão (à esq.), Maria Paula fez parte do elenco original da MTV brasileira que apresentou ao país uma nova safra de apresentadores que incluía Astrid Fontenelle, Zeca Camargo, Chris Nicklas, Rita Lobo, Cazé Peçanha, Dani Barbieri e Cuca Lazarotto, ao lado de veteranos como Rita Lee (Foto: Reprodução)

“Jorginho [Jorge Fernando, diretor] pediu para sermos muito livres, nada ser tão rígido. Estamos soltinhos’, revela Marília, com ar de garota faceira, completando que sua equipe de assistentes não é de novatas: “Não tem garotada, elas vão de 30 a 50. Senão, a turma confunde as décadas no trabalho, que nem a gente faz com os anos 1920 e 1930. 1970, 80, 90 é recente para a gente, para os profissionais mais novos estão lá atrás. Por isso, até coisas dos setenta eu encaixo nessa novela. Dá para misturar, pois na cabeça do público tudo é meio bagunçado mesmo”.

Grunge, pop music e surfe: para compor o estilo da trinca principal de “Verão 90” – Jeronimo (Jesuita Barbosa), (Manuela              (Isabelle Drummond) e João (Rafael Vitti) -, referências diluídas de tendências da época comparecem em parcimônia no seu figurino, para não afastar a plateia jovem ligada nos modismos atuais. “Quem gosta de passado é museu”, já dizia Edna Mode no sucesso da Pixar “Os Incríveis”… ( Foto: João Cotta / Divulgação)

Revival de Frankie Amaury: grife de roupas em couro amada pelas fashionistas nos 1990’s, a label carioca de Frankie Mackey e Amaury Veras fazia sucesso sobre as peles sedosas de socialites como Narcisa Tamborindeguy, promoters tipo Lalá Guimarães e beldades como Carla Barros, muito antes de Patricia Viera surgir no pedaço. Sua concorrente então era a grife de um casal europeu radicado e Botafogo, Pascale Christian, da belga Pascale Vuylsteke e do alemão Chistian Sievers, que confeccionavam peças para a Xuxa. Em comum nas duas marcas, ombreiras avantajadas. capazes de fazer Lady Gaga rodopiar. Os looks de couro, uma realidade da época, aparecem nas araras de “Verão 90”, mas em doses homeopáticas. “O verão 2019 está de lascar. Se exagerar no material, meu elenco vai sofrer nas externas”, brinca Marília Carneiro (Foto: João Cotta / Divulgação)

Marília se diverte com a aparição do fusca azul claro e da brasília amarela (do tipo que ficaria imortalizado na música dos Mamonas Assassinas alguns anos depois do tempo da novela), que compareceram no capítulo inaugural da atração. Na geleia geral do imaginário, pouco importa o fato de que o Volkswagem nessa cor “fraldinha de bebê” já era então relíquia. Aliás, o carro estava fora das linhas de montagem há anos. Nessa arrancada da Era Collor, havia sido substituído por Corsas e Pálios, só voltando à ribalta por um breve período, uns dois anos ou três depois, quando Itamar Franco assumiu as rédeas do país e resolveu ressuscitar o fusquinha. Já a famosa brasília gema de ovo é um produto típico dos seventies que foi saindo de cena conforme os táxis no Rio foram amarelando. Em 1990 era no máximo item de colecionador chegado ao camp. A tal licença poética pedida por Jorge Fernando…

Mélange de décadas no calor do Rio: Manuzita ( Isabelle Drummond ) e João ( Rafael Vitti ) posam diante do possante azul-calcinha que já é marca da novela. Sem compromisso em retratar fielmente a época em que se passa a narrativa, a atração das 19h  ainda traz na trilha a música new wave do Ultraje a Rigor, “Nós vamos invadir sua praia”, hit em meados dos oitenta, mas então fora de moda. Quem fazia sucesso mesmo agora eram o Skank e uma novata Daniela Mercury… (Foto: João Cotta / Divulgação)

Sobre o kitsch, a figurinista reforça a ideia de que é componente nessa salada estilística:   “Almodóvar havia explodido no Brasil pouco antes, com “Mulheres à beira de um ataque de nervos“. Note bem, esse noventa é repleto de oitenta, por exemplo. No colorido, é bem mais over do que foi. Na Claudia, por exemplo, eu exagero porque ali dá. Abuso das jaquetas com legging, uma marca da virada, mas acentuo na cor, no print”.

Da esquerda para a direita no sofá da Hebe do camp espanhol, Maria Barranco, Rossy De Palma, Julieta Serrano e Carmen Maura estrelam o “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, que transformou instantaneamente Antonio Banderas em astro internacional. Descobertos um ano antes pelo grande público brasileiro, Pedro Almodóvar e sua estética kitsch eram influência no verão 90 que Marília Carneiro agora se encarrega de reciclar no visual dos personagens (Foto: Reprodução)

Bem, e as estampas? A figurinista reforça uma questão temporal: “Não havia ainda a revolução digital, que também afetaria o mercado têxtil. Do meio dos 1990 para cá, as possibilidades de estamparia explodiram; a moda nunca mais foi a mesma. Tenho o cuidado de não me deixar levar por isso em ‘Verão 90’. Minha assistente foi a Bali e comprou um monte daqueles tecidos que eram hypadíssimos na época, javanesa, tecido de Bali. Veio com a mala cheia”, ri.

Chique e megera

Escalada para viver a vilã bem-nascida e esnobe da divertida (e jovem!) “Verão 90”, Totia Meireles ganhou de Marília Carneiro o visual inspirado na socialite Gisela Amaral, recém-falecida. Curioso, já que a esposa do rei na noite Ricardo Amaral ficou conhecida pelo caráter iluminado e pelo engajamento em causas sociais. “Ela era minha amiga, era chique a dar com o pau, e a personagem também é casada com um empresário do ramo das boates, da diversão (Alexandre Borges). Aí, resolvi homenagear Gisela, ainda que sua personalidade não tenha nada a ver com a da Mercedes. Em comum, só mesmo a elegância exuberante”, cona a figurinista.

Ombros, armas! Blasers estruturados, maxi bijús e a cara de má: Totia Meireles encarna a vilã blasê que representa um high society carioca que virou pó. No Rio pós-Cabral, essa turma já desapareceu quase toda… (Foto: João Cotta / Divulgação)

Será que o chamois vai dar as caras? Sorriso farto e semblante plácido: o estilo inconfundível da socialite Gisela Amaral, exuberância e chiquetude na mesma dose,  serve de parâmetro para Marília Carneiro criar os looks das poderosas em “Verão 90” (Foto: Reprodução)

Padrãozinho da alta roda: o núcleo familiar de privilegiados da Zona Sul faz parte dos tipos carioquíssimos retratados em “Verão 90” – da esquerda para a direita, a patricinha Deborah Nascimento, o rei da noite Alexandre Borges, a exuberante milionária cool Totia Meireles e o publicitário Caio Paduan. Dos noventa para cá, muita coisa mudou: mauricinho virou coxinha, a Zona Sul perdeu poder aquisitivo para a Barra, mas manteve o charme, os clubes noturnos deram vez às paid parties, as emergentes engoliram a sociedade tradicional e as agências de publicidade perderam espaço para as produtoras de conteúdo (Foto: João Cotta / Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.