É tipo confraria: a ideia é juntar heróis, mutantes, monstros, aberrações e o que for para faturar. Essa máxima, perseguida à exaustão pelos engravatados da Hollywood atual, é o conceito por trás do reboot de King Kong, Kong: A Ilha da Caveira” (Kong: Skull Island, de Jordan Vogt-Roberts, 2017) que estreia nesta quinta-feira (9/2) nos cinemas em todo o Brasil. Explica-se: desde quando a Disney comprou a Marvel, em 2009, e começou a ganhar uma nota preta (mais de 7 bilhões em bilheteria em 2016, um recorde na história do cinema), criando nas telas arcos de ligação entre as histórias de super-heróis diferentes, este se tornou o principal filão de faturamento da indústria, modelo a ser estoicamente perseguido por todas as majors.

Kong poster final

King Kong versão mega combo: agora com mais de 30 metros de altura, o novo gorilão está apto para dar cabo de qualquer monstrengo e – pior! – detonar quem os militares que sobreviveram á Guerra do Vietnam (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer legendado (Divulgação):

A Universal, por exemplo, toca atualmente um projeto que recicla todos os monstros de filmes de terror que a tornaram conhecida nos thirties. Em breve, novas histórias-solo de Drácula, Lobisomem, Frankenstein e a Múmia vão se juntar, com os freaks aparecendo lado a lado com letrados como Dr. Jekill e Van Helsing.

A Múmia Tom Cruise final

Programado para este ano, o reboot de “A Múmia” estrelado pro Tom Cruise atualiza a narrativa clássica protagonizada por Boris Karloff nos anos 1930 e que, nos anos 1990, ganhou o botox dos efeitos da computação gráfica em trilogia que lançou Brendan Fraser e catapultou Rachel Weisz à fama (Foto: Divulgação)

A Múmia Dr.Jekyll final

A proposta da Universal é misturar tudo junto e misturado: heróis e monstros diversos vão contracenar em várias produções, fazendo participação e construindo um arco narrativo maior. Neste novo “A Múmia”, o Dr. Jekyll de “O Médico e o Monstro” interpretado por Russell Crowe já dá o ar de sua graça (Foto: Divulgação)

E a Warner Bros., através da sua costumeira colaboradora Legendary Pictures, tem queimado a mufa às voltas com o tão sonhado projeto de lançar no cinema os paladinos da sua subsidiária DC Comics – Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash & outros – para uni-los na em longas como “Liga da Justiça“, programado para o final deste ano.

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Mega Blaster Ultra Combo DC Comics: a Warner lança em novembro “Liga da Justiça”, que de uma tacada só traz Batman, Superman, Mulher-Maravilha e outros heróis da editora, dando sequência à serie de lançamentos que vem fazendo desde “O Homem de Aço” e preparando terreno para futuras produções-solo interligadas (Foto: Divulgação)

Por isso, não é surpresa que o novo Kong – também uma empreitada da Legendary com a Warner – agora ganhe a estatura de um empreendimento da Gafisa, com 30,48m de altura, superando os 15,24m do remake de Peter Jackson (2005), os 16m do primata que catapultou a carreira de Jessica Lange em 1976 e os 7,62m do clássico original de Merian C. Cooper, de 1933.

Kong King Kong 1933 final

Animação quadro a quadro: a partir da evolução dos desenhos animados, a técnica de movimentar bonecos quadro a quadro ganhou força com o “King Kong” original – um primor para a época – em resultado que impulsionou este tipo de produção, cujo ápice foram, nos anos 1950 e 1960, os épicos assinados por Ray Harryhausen (Foto: Reprodução)

Kong King Kong 2005 final

15 metros e com postura de gorila: o macaco interpretado por Andy Serkis na produção de Peter Jackson praticamente caiu para a metade do tamanho do original da RKO, mas ganhou em veracidade através dos efeitos especiais combinados com a motion capture (Foto: Divulgação)

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Grande, ereto e do lar: o Novo King Kong em nada se parece com o gorilão realista que Peter Jackson se esforçou para trazer ao público há doze anos atrás. Empertigado, caladão e marrento, está mais para Vin Diesel nesta nova adaptação de Hollywood do que para um primata anabolizado. Em comum com os anteriores, somente o apreço com que cuida da sua própria casa – uma ilha não mapeada em algum lugar do Pacífico (Foto: Divulgação)

Sim, a ideia é juntar o macacão com outro monstrengo que foi recentemente apropriado pela parceria entre o estúdio e a produtora: Godzilla, aquele marrento lagarto vitaminado fruto de testes nucleares, que retornou ao cinema em 2014. Uma produção que une os dois “rapazes”, Godzilla vs. Kong“, já tem lançamento estimado para 2020. E já se cogita introduzir a moçada (ou macacada, lagartada, sei lá…) no universo de outra de suas produções, Circulo de Fogo” (Pacific Rim, de Guillermo Del Toro, 2013), que tem continuação programada para 2018. Como Godzilla tem 106m de porte, está explicada a turbinada dada ao gorilão mais famoso das telas.

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A montagem, feita com o Kong de Peter Jackson e o um dos mais recentes Godzilla, dá a tônica daquilo que a Warner Bros. pretende: juntar na mesma receita monstros de cardápios diferentes em histórias prontas para sacudir bilheterias em rega-bofes cinematográficos do tipo “pague um bife e coma um boi”. Se der certo, o planeta nunca mais será o mesmo… (Foto: Divulgação)

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No último “Godzilla” (2014), a fotografia escura funcionava para esconder defeitos de finalização, economizando uns bons trocados do orçamento. Mas serviu com ponto de partida para que o estúdio chegasse agora em “Kong: A Ilha da Caveira”, muito mais bem acabado (Foto: Divulgação)

Traduzindo: quem nasceu em Tóquio vai ganhar uma grana, pois, neste novo mundo trucidado por aberrações regadas a Whey Protein, quem melhor que os japoneses para dar os macetes de como sobreviver em uma metrópole constantemente arrasada por monstruosidades apopléticas da altura de arranha-ceús?

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Publicados me 2004 pela Dark House Comics, braço da DC, os quadrinhos de “Kong: A Ilha da Caveira” servem de esboço para a produção que agora chega às telas (Foto: Reprodução)

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Prontos para entrar no ringue em 2020, Godzilla e King Kong já deram cabo do Japão em outra produção das telas. No auge da Guerra Fria e contemporânea à crise dos mísseis em Cuba que quase levou o mundo à Terceira Guerra Mundial, “King Kong vs. Godzilla” (1962)” – uma produção da celebrada Toho Company, conhecida pelos “defeitos especiais” de oitava que se tornaram cult  – precisou crescer e equiparar os dois monstrengos para a altura proporcional de 44m de altura. O Motivo? Bom, os dois eram interpretados por atores trajados com fantasias. Assim, era preciso equiparar as proporções de ambos para permitir a gravação das cenas de luta! (Foto: Reprodução)

Voltando à “Kong: A Ilha da Caveira”, é importante enxergar o filme como uma espécie de Sessão da Tarde. Apesar da pretensão dos estúdios de unir monstrengos numa produção futura, a narrativa é superficial, o enredo esquemático e os personagens, clichês. Nada de novo no front, mas nada também que comprometa o divertimento descompromissado que apresenta as últimas invencionices da turma da computação gráfica, oferecidas no catálogo mais recente da ILM – Industrial Light and Magic.

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Tudo é hipérbole: entre esqueletos de gorilas gigantes e lagartos nababescos que saem das entranhas da Terra – qualquer semelhança com os kaijus de “Círculo de Fogo” não é mera coincidência – a turma que vasculha a inexplorada Ilha da Caveira é posta à prova… (Foto: Divulgação)

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.., precisando lidar com aracnídeos do tamanho de um motorhome em “Kong”… (Foto: Divulgação)

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… e até búfalos tamanho Big Coke. As criaturas avantajadas vistas na produção cumprem a função de apresentar à plateia os novos efeitos especiais desenvolvidos pela ILM, atualizando seu imaginário (Foto: Divulgação)

Ambientada nos anos 1970 logo após o fiasco da Guerra do Vietnam, há quem veja semelhança entre o coronel de Samuel L. Jackson e o Marlon Brando de Apocalipse Now (1979). Balela. Até pode haver alguma inspiração através do seu anti-héroi, um militar entediado que se vê sem propósito com o fim do conflito e encontra na oposição ao gorila nova razão de existir. Já os marines que o acompanham poderiam perfeitamente dar uma pinta em Platoon (1986).

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Os militares de “Kong”: comandados pelo coronel interpretado por Samuel L. Jackson (centro), os marines recém-saídos do fiasco da Guerra do Vietnam ajudam a situar a narrativa naquele ponto dos anos 1970 em que “o sonho acabou”. Jackson compara seu personagem com o Capitão Ahab de Moby-Dick , afirmando: “Ele tem que exigir uma certa dose de vingança para as pessoas que ele perdeu. É apenas a natureza de como operamos – olho por olho!”(Foto: Divulgação)

Mas essas não são nem de longe a principal referência usada pelo diretor e sua trupe. Um aroma de filme catástrofe dos anos 1970 paira sobre a Ilha da Caveira. A estrutura é a mesma concebida pelo produtor Irwin Allen para clássicos como O Inferno na Torre e O Enxame“, copiada pela turma que fez as continuações deAeroporto“: uma atriz recentemente oscarizada escalada para protagonista (Brie Larson, de O Quarto de Jack“, ‘Melhor Atriz’ em 2016 e única estrela com nome de queijo nos anais de Hollywood), um ator que está na ribalta em produções de sucesso (o britânico Tom Hiddleston, o Loki de Thor e “Vingadores“, agora ocupando o papel do intrépido explorador de aluguel) e, para imprimir respeito, um trio de veteranos que são joias da interpretação, todos com carreiras ilibadas: John Goodman, John C. Reilly e o próprio Jackson. Mais Destino do Poseidon“, impossível…

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Codificado como o vilão de “Thor” pelo grande público, Tom Hiddleston (Capitão Conrad) se sai bem da tarefa de protagonizar uma aventura juvenil tipo “Sessão da Tarde”. Já Brie Larson não funciona como a morena voluptuosa e fica perdida na trama, apesar da caracterização que se esforça para dar certo “ar Lara Croft” à moça. Um acelga se sairia melhor no papel… (Foto: Divulgação)

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Fórmula batida, mas ainda eficaz: baluartes da Sétima Arte como Samuel L. Jackson (à esq.), John C. Reilly (centro) e John Goodman se encarregam de imprimir dignidade interpretativa em “Kong”: A Ilha da Caveira”, ao lado de um protagonista vivido por um ator em ascensão – Tom Hiddleston (à dir.) (Foto: Divulgação)

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