Que laços fazem uma família de fato? Essa é a questão que eclode no final do sensível “Assunto de família(Shoplifters [ou Manbiki kazoku, no japonês original], de Hirokazu Koreeda, 2018), Palma de Ouro na competição oficial de Cannes ano passado que agora estreia no Brasil. A menina Yuri (Miyu Sasaki, um achado) é encontrada pelo trabalhador da construção civil Osamu Shibata (o ótimo Lily Franky), que a leva para casa, um muquifo entranhado entre ruas de prédios de um subúrbio, onde vive aglomerado na companhia da família: a esposa, a irmã desta, o filho e uma anciã, que todos chama de vovó. A única diferença do seu lar para um puxadinho numa comunidade carioca são as esteiras de bambu que substituem os colchonetes de segunda mão da Casa & Vídeo, herdados de algum lixão.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Eles logo percebem, pelo jeito ao mesmo tempo fofo e caladão da garota – e as marcas nos punhos e braços –, que ela sofria alguma espécie de abuso da sua família original, se afeiçoam a ela e decidem mantê-la a seu lado como nova integrante do clã, mesmo quando a televisão começa a noticiar o seu suposto sequestro.

(Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial (Divulgação): 

Mais que revelar o Japão dos fracassados, que passa ao largo daquele que mescla a tradição milenar com a asséptica modernidade high tech e as loucuras fashion estilísticas de Harajuku, o diretor Kooreda se esmera em traçar um panorama do quanto os sentimentos familiares pode realmente brotar, como lava expelida pelo Monte Fuji, ainda que diante de condições improváveis.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)Aos poucos, descobre-se que a família Shibata não é nada convencional: o pai ensinou o filho a praticar o furto de subsistência no pequeno comércio das redondezas. Ele também não é flor que se cheire, mas, ainda assim, almeja o reconhecimento como um bom genitor. A mãe trabalha numa confecção onde pratica pequenos golpes. Sempre de roupas largas, provavelmente roubadas, tal qual um rapper da periferia barra pesada de Detroit, o garoto não estuda e gasta o tempo ocioso entre a observação dos peitos da tia e a existência de trombadinha de mão cheia, repleto de técnicas que logo se apressa a passar para a nova ‘irmã”.

(Foto: Divulgação)

A jovem cunhada, por sua vez, ganha a vida se apresentando para masturbadores de carteirinha, vestida de colegial no melhor estilo anime (ou k-pop), por trás da vitrines de um peep show, tendo a seu dispor um pequeno arsenal de saias pregueadas e meias três-quartos digna das Sakura Card Captors. Sailor Moon perde!

E a avó, que compactua com a vidinha de boneca rentai da moça, é o baluarte desse grupo familiar incomum, parecendo viver da pensão deixa da pelo ex-marido, na qual todos têm olho gordo. Bom, talvez não seja bem assim.

(Foto: Divulgação)

Soco no estômago em contraponto ao ritmo quase sempre contemplativo da edição, a nova produção do diretor de “Pais e filhos” (2013) e “Depois da Tempestade” (2016) lida com a questão do afeto de maneira única. No final, fica a sensação do quanto esse bizarro grupo de perdedores, na qual nenhum  espectador gostaria de ingressar, pode ser fascinantemente humano sob certa perspectiva. Após as últimas sequências, a  comparação com a própria família é inevitável…

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.