*Por Lucas Montedonio

Em setembro passado, o mundo da moda assistiu atônito a um belo desfile de Valentino com o tema africano. Seria apenas mais um bom fashion show que evoca a África se não fosse uma questão: a quase inexistência de modelos negras na passarela, o que se repetiu em janeiro, quando a grife lançou a campanha da mesma coleção. O assunto rendeu nas mídias sociais.

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Campanha primavera-verão 2016 da Valentino: apesar das belas imagens, resultado traz leitura colonialista e postura de distanciamento eurocêntrico em relação à cultura africana, apesar de ter sido fotografada pelo bamba Steve McCurry, um dos expoentes da National Geographic (Foto: Divulgação)

Em contrapartida, ÁS pode perceber na São Paulo Fashion Week que terminou nesta sexta-feira (29/4) a forte presença de tops negros nos desfiles, assim como personalidades de responsa pelos corredores da Bienal, todas com tez marrom bombom de dar água na boca. E, numa edição em que um dos personagens principais foi a cantora filha de Martinho da Vila, Maira Freitas  – que solta o gogó na propaganda da Natura exibida nos telões –, era natural que ÁS investigasse a quantas anda a cabeça dessa parcela tão significativa do público fashion a partir de uma lebre: o questionamento da sinceridade de Beyoncé nesta seara.

Afinal, a pop star empunha a bandeira do empoderamento negro – agora mais do que nunca com recente lançamento do vídeo-álbum Lemonade“, no qual abusa de dreads, fios crespos e blackpower -, mas, por outro lado, costuma aparecer loura a dar com o pau. Então, Bey é verdadeira ou não? Ela usa a causa negra para se promover ou é genuína no que faz? Confira abaixo!

Maíra Freitas no estúdio (Foto Reprodução)

No estúdio: alçada à condição de celebridade após soltar o gogó no comercial da Natura, Maíra Freitas gravou seu segundo álbum “Piano e batucada” em 2015, o que lhe rendeu o passaporte para participar da campanha da marca de cosméticos (Foto: Reprodução)

Confira abaixo o novo comercial “Natura apresenta ‘MULHERES'” (Divulgação): 

Promessa da música nacional, a bela Isa Lima ganhou visibilidade na internet soltando a voz em covers de Rihanna, Miley Cyrus, Adele e da própria Bey. Ela manda na lata o que acha de ‘Lemonade’: “Já era hora dela trazer um tema mais atual. Beyoncé é uma das poucas mulheres negras que conseguiram quebrar a barreira do estereótipo da cor. Hoje é uma das maiores da indústria”, conta, enfatizando sua criatividade e performance. “Tudo que ela faz traz visibilidade para quem é fã e respinga em quem não é”, afirma, dizendo achar importante levantar a bandeira do empoderamento negro e dos direitos iguais: “Não é à toa que Elza Soares fala sobre abuso sexual e violência doméstica há anos.”

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“Precisamos de uma mulher jovem e negra como Beyoncé para nos representar e levantar a importante bandeira contra o racismo”, opina a cantora e com Isa Lima (Foto: Lucas Montedonio)

Por falar em Elza Soares, a diva de 78 anos arrebentou em um pocket show nesta quinta (28/4) na Praça Natura na SPFW. E ainda concedeu sábias palavras exclusivas ao ÁS: “É com garra, coragem e através da minha música que sei que posso transformar o comportamento na vida. Sempre me apoiei em mim mesma e é daí que tiro força para seguir em frente. O que mais me orgulho é da minha simplicidade, pois não foi fácil chegar até aqui. Me sinto plena por ser mulher de verdade. E humilde, sem babaquices”, dispara.  E quanto à beleza negra e o engajamento que mais parece oportunismo do que ativismo? Elza Soares é categórica: “A artista precisa se aceitar ao invés de alisar o cabelo para se sentir bonita. Canto e falo muito da negritude, pois acho terrível o preconceito racial até hoje!”.

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Elza Soares fez a plateia delirar na SPFW com músicas inéditas como “A carne mais barata do mercado é a carne negra” e “Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, abordando tópicos empoderadores da cultura negra (Foto: Lucas Montedonio)

Consagrada como um dos maiores nomes da noite gay paulistana, a drag Márcia Pantera (a.k.a Carlos Márcio) é fã de carteirinha de Beyoncé: “Essa mulher tem atitude de sobra e arrasa naquilo que faz. Amo o trabalho dela desde ‘Single Ladies’. Luxo!”, exalta, apontando o poder da mulher em uma relação. E fecha: “Se gostou, tem que colocar um anel no dedo, né meu bem?!”

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Drag do primeiro time, Márcia Pantera fala sem vacilar: “Não importa a cor do cabelo, e sim a atitude!” (Foto: Zeca Santos)

Anjo da guarda da imprensa de outros estados na SPFW, a assessora de imprensa Janete Santos é praticamente uma versão tupiniquim de Grace Jones, mas fala sobre Bey: “Quando a música é inteligente, ela pode transformar conceitos que transcendem a aparência física. Não é preciso ser negro para lutar contra o racismo. Se Beyoncé pinta o cabelo de louro, verde ou roxo, duvido que isto mude a personalidade e índole dela. Ela bomba!”, diz com convicção.

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Dona de si mesma, Janete Santos acredita na defesa dos valores negros através da atitude, e não da aparência (Foto: Zeca Santos)

Um dos DJs mais queridos do Brasil, Zé Pedro sempre flertou com a negritude. Responsável nesta edição pelas trilhas dos desfiles como o da Água de Coco e Amir Slama, começou a carreira atacando na black music. É negro de alma. E conta: “Neste momento atual, Beyoncé está representando muito bem a cultura negra. Acho até que ela se espelha um pouco em Nina Simone, e a vibe de ‘Lemonade’ é completamente diferente de quando a estrela iniciou carreira no Destiny’s Child. Acho ótimo!”, opina o produtor musical.

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Quase tão negro nas entranhas quanto James Brown, Zé Pedro vê com bons olhos a nova fase de Bey (Foto: Zeca Santos)

“A ideia é que ela represente cada vez mais as mulheres negras. Acredito que ‘Lemonade’ é resultado da influência de tudo que aquilo que o feminismo negro tem lutado há tanto tempo. É bacana ver ela usar sua influência para evidenciar a questão, mostrando para o mundo o que o empoderamento dessa turma realmente significa hoje”, pensa Daniele DaMatta, mais conhecida como DaMatta e dona de uma empresa voltada exclusivamente para maquiagens para a pele negra.

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DaMatta acredita na mudança de comportamento promovida por Beyoncé e faz sua parte na causa disseminando a autoestima através de makes específicos para as peles morena e negra (Foto: Lucas Montedonio)

Aline Andrade tem 27 anos e quando não está modelando, desenha croquis e se aventura no estilismo. Sua opinião é translúcida: “Beyoncé é o tipo de artista que não precisa fazer mais nada para se promover, está no topo da cadeia alimentar do showbiz”, vaticina. E vai adiante: “A estrela tem maturidade da carreira que traz o trabalho na essência, independe dos interesses midiáticos e da preocupação em agradar. Assisti a toda a sequência de clipes de ‘Lemonade’ e é visível que a mensagem é genuína”, defende, concordando, contudo, que a causa hoje é mais evidente pela democratização da informação.

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Modelo e estilista, Aline Andrade cita Martin Luther King como referência até hoje na luta dos negros por direitos iguais (Foto: Zeca Santos)

Campeões panamericanos paraolímpicos de atletismo, Silvania Costa, 28, velocista deficiente visual, e seu guia Wendel, 24, acreditam que a diva do R&B possui um realce natural: “Ela passa humildade e esta é uma qualidade essencial para uma artista que pretende representar uma parcela excluída da população.”

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Campeões paraolímpicos que desfilaram na abertura do desfile de João Pimenta, Silvania Costa e seu guia Wendel defendem a sinceridade de Beyoncé em função de sua aparente humildade (Foto: Zeca Santos)

Thiago Bruno é fotógrafo de moda dos bons. E negro de pele e de bandeira. Entre São Paulo e Nova York, o capixaba acompanhou daqui o lançamento da The Formation World Tour que causou frenesi na Big Apple: “Bey dá a voz a todos que se sentem à margem da sociedade. Este álbum é uma dádiva para o mundo, totalmente voltado contra qualquer tipo de preconceito.”

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O fotógrafo Thiago Bruno, 32, mora em Nova Iorque e acompanhou o lançamento da “The Formation World Tour”: “Esse vídeoálbum é um presente para todos” (Foto: Zeca Santos)

A apresentadora, atriz e agora DJ Pathy DeJesus, negra da cor do pecado e um dos sorrisos mais bonitos do Brasil, exalou força e talento num animado set na noite de fechamento da SPFW, em plena área de convivência da semana de moda. A bela afirma: “Beyoncé é o máximo e sabe levantar bandeira.”

A DJ usa vestido Adriana Barra

Pathy DeJesus arrasou no set da Praça Natura nesta SPFW. Com maxi brincos e vestido Adriana Barra, a deejay foi pura poesia: “Estou vestida de felicidade e maquiada de gratidão” (Foto: Instagram)

Fernando Herbert, 28 é booker de modelos. O moço é categórico: “Só a voz daquela mulher já me causa arrepio. E falando metaforicamente, este álbum está mesmo dando voz àqueles que por décadas foram amordaçados.”

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Fernando Herbert é enfático ao defender a pop star afro-americana (Foto: Zeca Santos)

Os promotores Regina Ferreira, 27, e Jelcimar Cintra, 29, deram expediente na SPFW distribuindo o novo picolé Capuccino da Magnum, tão marrom quanto eles. Os dois dividem a mesma opinião: “A atitude, gingado e estilo do álbum são libertadores.”

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“Beyoncé nos representa.” A modelo Regina Ferreira e Jelcimar Cintra não têm dúvida quanto aos frutos que ‘Lemonade’ vai gerar: “É muito gratificante viver para ver a mudança em ação, mesmo quando tantos outros já lutaram contra o preconceito racial” (Foto: Zeca Santos)

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.

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