A edição 2019 do Lollapalooza Brasil, que começa nesta sexta-feira (5/4), vem com sabor extra. Seu idealizador, o incansável Perry Farrell, acaba de completar 60 anos, exatamente há uma semana (29/3). Manifesto cabal de que rock nunca foi idade. Sim, ruga no canto dos olhos combina perfeitamente com riffs de guitarra. O líder do Jane’s Addiction, que criou o festival em 1991 para marcar a interrupção da banda, é  frenético. Nunca parou de ser presença, pouco precisando de likes para ser influencer. Sob a alcunha de grupos como Porno for Pyros e Satellite Party, dos quais é tão frontman quanto já foram Jim Morrison no The Doors e Freddie Mercury no Queen, Farrell faz questão de permanecer na berlinda do mainstream, mas na lança da cena alternativa, na contramão do volátil mundinho das redes sociais. Nessa postura incendiária, ele é, por exemplo, o único artista que participou das 12 edições do Coachella. Para celebrar Perry Farrell e o Lollapalooza, ÁS convidou o ator João Vithor Oliveira para incorporar o astro do rock.

O rock e o picumã: Perry Farrell ficou famoso pela atitude e pelo visual exótico na virada dos 1980/90, quando tocava o projeto do Jane’s Addiction (Foto: Reprodução)

Filho da diretora de teatro Bia de Oliveira e sobrinho-neto de Domingos de Oliveira, João, 23 anos, carrega um mapa astral capaz de deixar o capiroto batendo o queixo: gêmeos com ascendente em escorpião e lua em aquário, do tipo que leva incautos a procurarem gurus em busca do mais eficiente detox espiritual. Só que não. João é doce de coco, apesar da embalagem rocker que o levou ao convite para posar para esse ensaio. Pode ter a cara de mau do pica-pau, mas é centradíssimo. “Parei de beber há três anos”, revela, emendando que começou a dar umas bicadas em uísque, aos 14 anos, com o tio-avô, que faleceu há poucas semanas.

Kilt Valéria Mansur, legging Zara, colares Virgilio Bahde para Dona Coisa e botas Dr. Martens (acervo) (Foto: Daniel Benassi para ÁS na Manga)

“A gente levava altos papos. Nossa convivência extrapolava reuniões de família. Nos encontros pontuais, marcou presença”, entrega João, que fez peça “Do fundo do lago escuro“, do “Mingão” [como o moço se refere a Domingos] e participou de dois filmes do diretor que marcou o cinema e o teatro brasileiro com pérolas como “Todas as mulheres do mundo” (1966).

Colar Virgilio Bahde para Dona Coisa (Foto: Daniel Benassi para ÁS na Manga)

Chegado a trilhas, ao convívio com a natureza e banhos de cachoeira, João é daqueles que nunca enfiam o pé na jaca, só na areia. Na praia. Não para fincar raiz, para se encontrar. “Conexão, saca? Fumo quase nada. Agora sou vegano”, conta. “Gosto de ficar longe de estímulos, de escrever poesia, desisti de ir à praia”, completa numa verve que, à primeira vista, poderia fazer dele um dândi do novo milênio. Perguntado, porém, nega: “Mais ou menos. Não morreria de amor tomando vinho e escrevendo poesia, nada de se despedir da vida via tuberculose”, brinca, se referindo aos clichês que imortalizaram gente chegadíssima a Baudelaire, mas entregando as pontas no final: “Já tive paixões platônicas. Já mandei muita flor no anonimato”. Ah, tá.

Long John Blue Man e botas Corcel Shop (Foto: Daniel Benassi para ÁS na Manga)

Nessa busca pelo seu eu interior, não pensou duas vezes: no auge da presença na tv, com o sucesso na novela medieval Deus salve o reie fazendo parte de uma turma que inclui Johnny Massaro e Tatá Werneck, preferiu embarcar numa densa temporada sabática que começou pela Cidade dos Anjos, onde foi estudar, viver novas experiências. “Minha sobrinha nasceu lá. Isso me abriu a possibilidade de ver outro ponto de vista, o do outro. Los Angeles para mim foi nascimento”, viaja João, que depois emendou com sua primeira trip à Europa. “Fui a Holanda, Itália, Portugal, Espanha. Para mim, uma outra galáxia, a da esperança, do humano nu e cru. É preciso ter empatia. O amor é o único caminho no micro e no macro”, filosofa com a firmeza de um Nietzsche da contracultura genzer.

Long John  Blue Man e botas Corcel Shop   (Foto: Daniel Benassi para ÁS na Manga)

João anda lendo bastante. Se interessa por psicologia, filosofia pós-socrática. E vê séries, quem não? “Acabei de assistir ‘One Strange Rock‘, no NatGeo, que narra a história do planeta sob o olhar de Darren Aronosfsky [“Cisne Negro” e “Mãe“] e é chancelada pelo Will Smith. E ‘O assassinato de Gianni Versace’“, confessa, sem deixar claro se aprova Penélope Cruz de Donatella. Mas, do mundano volta num piscar para o cult: “Olha, meu interesse mesmo é o teatro, meu sopro. Ele traz minha curiosidade acerca do outro, me permite o questionamento. Mas, veja bem, nem acabei a faculdade de artes cênicas na Candido Mendes. Parei para fazer novela [“Floribella“, Band, 2005]. Mas amo mesmo o palco. Estou preparando uma peça, estamos naquela fase instigante, de escrever o texto, de ensaio, de estudo. É sobre amor e política, mas tudo pode mudar”, despista.

Hoodie Meniax, bermuda Barnett e botas Dr.Martens (Foto: Daniel Benassi para ÁS na Manga)

Foi ator-mirim, começou com dez anos e sabe como a profissão suga. Sobre a indústria cultural que vampiriza, ÁS aproveita a deixa e manda na lata: “Okay, qual o seu astro favorito que começou criança no cinema? Liz Taylor ou Macaulin Culkin?” Percebendo a cilada, ele gargalha em looney tunes mode on: “Talvez Judy Garland, não sei…”, deixando no ar, procurando de alguma forma sutil sublinhar que, apesar de ter começado cedo no métier, é pouco provável que se deixe despirocar pelo sistema.

(Foto: Daniel Benassi para ÁS na Manga)

João é isso: parece um bárbaro, mas flana em plantações de girassol. Girassol não, crisântemo vermelho, laranja, da cor de quem parece ter imergido da Irlanda. “Era ruivo na infância, agora sou louro”. “E lá embaixo?”, solta um ÁS capcioso. Ele responde ao estímulo: “O rodapé combina com a moldura”. Tá bem. Já que a vibe é semiótica, esse jornalista vai fundo: “Apesar da doçura intrínseca, você tem cara de viking. O que faria se fosse um?”. João finaliza: “Incendiava umas vilas, bebia cerveja e comia umas valquírias. Aliás, eu via a série [“Vikings“, do History Channel”]. Sou meio Ragnar Lothbrok [Travis Fimmel]. Sou como ele, preciso desbravar.”.

Hoodie Meniax, bermuda Barnett e botas Dr.Martens (Foto: Daniel Benassi para ÁS na Manga)

Fotografia Daniel Benassi, Styling AlexandreSchnabl, Beleza Michelle Dias e Assistente de cena Guilherme Gimenes

Onde encontrar:

Barnett – www.store.barnettharley.com/clothing

Blue Man – (21) 3264-8750 www.blueman.com.br

Corcel Shop – (11) 96411-1986 www.corcelshop.com

Dr.Martens – www.drmartens.com

Dona Coisa – (21) 2249-2336 www.donacoisa.com.br

Meniax – (31) 2551-6969 www.meniax.com

Timberland – www. timberland.com.br

Valeria Mansur – www.valeriamansur.com.br

Victor Dzenk – (31) 3025-9898 www.victordzenk.com

Zara – www.zara.com

 

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