Em coletiva de imprensa há dois dias em São Paulo para lançar seu sétimo longa como diretor, Mãe!” (Mother!, Protozoa Pictures e outros, 2017), Darren Aronofsky deu a deixa do quanto pode ser vaidoso: “Eu sempre me coloco em todos os filmes que faço. Eu era a bailarina em Cisne Negro, o lutador em “O lutador“, o conquistador em  Fonte da Vida, o mago da matemática em Pi, mas nunca era eu. É sempre uma parte sua esticada até que se torne uma personagem para contar a história. Então, para mim, eu acho que estou mais conectado com a história de Jennifer [Lawrence, sua atual mulher e protagonista do filme]. Foi lá que coloquei minha emoção, mas existem elementos que pus no personagem de Javier Bardem“.

Alegoria de terror psicológico de Darren Aronosfsky (“Cisne Negro” e “Noé”), “Mãe!” (“Mother!”) culmina em final apocalíptico e está sendo considerado o “longa-metragem mais insano” do diretor novaiorquino (Foto: Divulgação)

Essa declaração sintetiza a narrativa que começa como um suspense, promete descambar no terror psicológico com tintas sobrenaturais, resvala numa crítica à xenofobia de um mundo tomado de assalto por Donald Trump para se revelar no final mais uma daquelas alegorias que tanto o cineasta preza, dessa vez sobre o apetite humano que pode conduzir o planeta ao apocalipse. Voracidade que se confunde com seu possível ego inflado, se as impressões acerca de Aronosfsky forem fato.

Excelente em cena, Jennifer Lawrence protagoniza o suspense de Aronosfsky “Mãe!” no papel de uma mulher cuja existência se confunde com o desejo de preservar a própria casa (Foto: Divulgação)

Em “Mãe!”, o diretor preferiu filmar sempre sob o ponto de vista da protagonista vivida por Jennifer Lawrence, com câmera solta, com closes e planos fechados na altura do seu rosto ou com a câmera logo atrás dela, como se a acompanhasse (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial (Divulgação): 

Assim, o poeta em crise criativa interpretado por Bardem pode mesmo carregar muito da persona do realizador: a necessidade de estabelecer algo avassalador que embrulhe o estômago de uma audiência fanática, inebriada com tamanha perspicácia. Ou o culto à própria personalidade. Ambos podem ser características de Aronosfsky, que a cada longa-metragem expelido deixa transparecer o quanto se alimenta do faminto desejo de causar através de supostas sacações metafóricas que conferem estranheza ao público, uma de suas marcas.

Como um homem de meia idade casado com uma mulher bem mais nova, Javier Bardem encarna em “Mãe!” o artista-celebridade em vácuo criativo que se alimenta do culto à própria personalidade, estabelecendo uma relação de dependência com os fãs. Ou do próprio Deus (ou Ele, com “E” maiúsculo mesmo) o qual, após ter concebido a criação, está em crise sem saber bem o que fazer… (Foto: Divulgação)

No início de setembro, “Mãe!” foi vaiado no Festival de Veneza, com jornalistas gritando impropérios como “Vergonha!” durante a projeção. E acaba de dividir a crítica no Festival Internacional de Filmes de Toronto, semana passada. Em entrevistas, Aronosfsky andou disparando pérolas como “o propósito de ‘Mãe!’ é surpreender constantemente a plateia, sem dar pista sobre o rumo da história, nunca permitindo que o espectador se sinta seguro na poltrona”. Sim, o diretor parece cultivar em suas entranhas a vaidade de não ser indiferente a ninguém, para o bem ou para o mal. O que vale talvez seja incomodar nesse seu cinema de desconforto, tocado por ele como um cristal precioso, tal qual a pedra que Javier Bardem arruma na estante de sua casa como se fosse um troféu, logo no início do filme.

Em papel no qual alterna egocentrismo com alguma doçura eventual, Javier Bardem brilha “Mãe!”, nova produção de Darren Aronofsky na qual o diretor mais uma vez demonstra o domínio na direção de atores (Foto: Divulgação)

A partir de uma história que revela, do ponto de vista da mulher de um casal que vive isolado em uma casa, o incômodo de ter seu lar e intimidade invadidos por outro par de desconhecidos (Michelle Pfeiffer e Ed Harris, excelentes!), vai se construindo uma trama em sintonia com o pensamento do filósofo Edgar Morin de que a figura feminina representa socialmente afetos como o amor, a família e o lar, enquanto a masculina seria a virilidade, agressão, luta pela sobrevivência física e homicídio.

Filme de estrela: Oscarizada por “O lado bom da vida” (2012) e candidata ao prêmio maior do cinema outras três vezes, Jennifer Lawrence mostra maturidade cênica nesta produção centrada na sua atuação (Foto: Divulgação)

Por falar em maturidade, Michelle Pfeiffer – tida como a estrela mais bonita de Hollywood no anos 1980 – continua provando que o tempo lhe fez bem. A atriz pode até estar destituída do título de beldade absoluta, mas continua batendo um bolão. Além de ter envelhecido fisicamente bem, ela interpreta com segurança um personagem antipático em “Mãe!”, dando sequência à boa fase que demonstra desde “Hairspray” (Foto: Divulgação)

Nesse âmbito, a personagem de Jennifer Lawrence oferece não apenas a visão daquela criatura que preserva a casa como fosse o próprio corpo, em ligação quase simbiótica, como também a versão visceral da mulher enquanto Mãe-Natureza, redescoberta na aurora da modernidade.

Meu corpo é meu lar: expressões como essa fazem todo sentido ao longo da narrativa de “Mãe!”, no qual Jennifer Lawrence literalmente representa a mãe que deseja proteger sua casa com unhas e dentes, ainda que quase sempre esteja impotente (Foto: Divulgação)

E, estabelecida essa postura pelos dois personagens, da mulher que protege o seio familiar, que “se faz casa”, e do homem que sobrevive do sopro da criação, Aronofsky vai elaborando as liturgias da vez, com direito a leitura bíblica que esbarra em Deus, a criação e a Terra, Adão e Eva, em Caim e Abel, até no fim do mundo. Aliás, para o diretor, o final dos tempos já está aí, na boca: à devastação dos recursos da Mãe-Natureza se soma o vazio de uma existência histérica que incensa a celebridade midiática à exaustão, num insaciável interior nunca preenchido por nenhum banquete.

Entre as alegorias apresentadas, “Mãe!” também é também um alerta contra a aridez de um mundo que consome existências sob a forma da exploração midiática do talentos artísticos, numa relação de interdependência entre criadores e fãs, num paralelo à exploração dos recursos naturais (Foto: Divulgação)

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