Darren Aronofsky deveria aprender com Jordan Peele. O diretor de “Corra!(Get Out, 2017), que encantou o público e crítica com seu primeiro longa-metragem e levou Oscar de ‘Melhor Roteiro Original’ em 2018 é mesmo craque em criar alegorias. Se o autor de “Cisne Negro” (2010), “Noé” (2014) e “Mãe” (2017) está sempre em busca de uma para impressionar o público e, às vezes, acaba forçando a barra, o segundo, com uma carreira na televisão como ator, roteirista e produtor, só recentemente chegou ao cinema. Agora, nessa segunda imersão na telona, “Nós(Us, Monkeypaw Productions e Universal Pictures, 2019), ele prova que o sucesso do seu longa inaugural não foi acidente. E mais: que continua levando a abordagem alegórica ao extremo. Observando sua curtíssima cinematografia, fica claro que o caráter metafórico com que impregna sua obra pode ser tão natural quanto tomar banho. O resultado é brilhante. “Nós” talvez seja o primeiro filme político de qualidade da Era Trump, o que prova o quanto o terror, tão subestimado enquanto gênero, pode contribuir para a reflexão quando não é gratuito.

(Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 

Em “Nós”, cujo título em inglês brinca com o trocadilho entre as iniciais dos Estados Unidos e o aspecto umbigoide dos americanos em relação a si, imerge nas entranhas de uma sociedade xenófoba egocêntrica, na qual só existe espaço para “nós” e os “outros”, danem-se aqueles que não são “nós”. Muitas vezes, esses outros, confinados nos subterrâneos sociais para não serem vistos, estão ali só para cumprir a função de serem pisoteados para que aqueles que existem sobre a superfície possam viver o sonho americano em plenitude, sem a culpa de massacrar aqueles que subsistem escada abaixo.

A família ameaçada por seus duplos e comandada por Adelaide Wilson (Lupiita Nyong’o) descobre o pavor de se enxergar naquilo que costuma não dar valor: aqueles que estão próximos, mas que não representam ela mesma e, por isso, não existe sequer empatia (Foto: Divulgação)

“Nós” é terror da melhor cepa, quase do mesmo tipo que “Corra!”, com a diferença de que este é narrativa muito mais literal. O susto e o riso também se mesclam em “Nós” nas cenas de humor negro explícito. Algumas são tão incômodas e viscerais que o pavor inicial se emenda em risada sequencial, sem que se possa definir exatamente quando esta começa. É um todo. A violência física está presente por boa parte do longa, e não apenas na reta final como em “Corra!”,  mas é a tortura psicológica que leva o público a fincar as unhas na poltrona diante deste exercício meticuloso de fazer cinema.

Apesar da família protagonista ser negra, não se trata de mais uma produção da enxurrada que aborda questões raciais e que anda dominando a cinematografia americana. A escolha de Peele por uma família negra num roteiro que, a priori, poderia funcionar com qualquer etnia, reforça a preocupação do diretor em revelar o quanto a falta de empatia por aquilo que não lhe é familiar é generalizado na sociedade americana (Foto: Divulgação)

Na alegoria que vai aos poucos sendo construída na narrativa de “Nóõs”, as camadas inferiores da população, esquecidas e relegadas ao nada, se insurgem contra quem vive no topo do iceberg social americano. Numa analogia, é um filme de zumbi sem zumbi, pois o efeito do medo do caos que desperta na plateia é o mesmo (Foto: Divulgação)

Quando a família de Adelaide Wilson (Lupita Nyong’o, em uma das melhores interpretações de sua trajetória) se dá conta de que a outra que a persegue são eles mesmos em versões bizarras (bizarras porque não são eles), estabelece-se o horror que permeia a narrativa.

Apesar de aterradora, a família de duplos que invade a residência de praia dos Wilson dispõe, em suas entranhas, da mesma estrutura social, o que aproxima o espectador da incômoda sensação de familiaridade mesclada com estranheza. É como se o público encontrasse um parente próximo, na condição de mendigo e desprovido de recursos, no meio da rua, não sendo possível fechar os olhos nem deixar de se por em seu lugar (Foto: Divulgação)

Não existe mais a lacuna entre nós e eles, mas a assustadora proximidade de que nós somos também o que execramos. E que nós somos capazes de fazer exatamente aquilo que tememos que os outros façam, porque somos iguais, não importa o quanto Trumps e Bolsonaros insistam em dizer que não.

Ainda que haja muitas cenas violentas em “Nós”, a sua sugestão consegue impressionar o público muito mais que a simples concretização. “Nós” consegue ser assustador sobretudo nos olhares e sorrisos, uma marca já do trabalho de Jordan Peele (Foto: Divulgação)

Peele se faz valer da estranheza que o duplo causa no público, desde clássicos como “O príncipe e o mendigo”, mas sobretudo em narrativas como “O homem duplicado” (2202), de José Saramago. A possibilidade de se ver no outro, fora de si próprio, de se reconhecer num território que não seria si mesmo, é estar no limiar do outro numa América em que Donald Trump se dedica a edificar muros físicos reais e imaginários que vão na contramão da aceitação. Aceitação da diversidade tão professada pelas ideologias que povoam as mídias sociais, mas que acabam esvaziadas numa era de discursos cujo objetivo é a apropriação epidérmica de seu conteúdo com objetivos tão rarefeitos quanto vender produtos ou arrebatar likes.

Em sua meteórica carreira, desde quando ganhou o Oscar de ‘Melhor Atriz’ em 2014 por “12 anos de escravidão”, Lupita Nyong’o vem consolidando sua presença como a negra bola da vez na cinedramaturgia, esmo longe do estereótípo que consagrou quase 15 anos antes Halle Berry. Em “Nós”, seus traços africanos reforçam a estranheza que vem de fora numa história que procura trazer à tona a aversão ao não familiar instaurada na América sob o governo Trump (Foto: Divulgação)

 

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