Não é tarefa fácil hoje em dia transpor para o cinema uma obra de Agatha Christie (1890-1976) sem cair embarcar no tédio. Cultuada ao longo dos últimos quase 100 anos como a escritora popular mais bem-sucedida do mercado, a britânica escreveu mais de 80 livros e compilações de contos, se notabilizando no gênero do romance policial. Entretanto, seu estilo de escrita, de fácil acesso para o grande público da primeira metade do século 20, mas rebuscado para os padrões atuais, faz com que ela dificilmente se enquadrasse numa narrativa frenética ao gosto das novas gerações, geralmente por se concentrar em demoradas e detalhadas descrições em cenas que levam à meticulosa percepção dos fatos vividos por detetives perspicazes, como o esnobe belga bigodudo Hercule Poirot, protagonista da nova versão cinematográfica de uma de suas obras mais famosas, Assassinato no Expresso do Oriente” (Murder on the Orient Express, 20h Century Fox, 2017).

Rainha do mistério, Agatha Christie tinha pai americano e mãe inglesa. Em 1896, a família se mudou para a França e a futura escritora, tímida como a mãe, forjou a personalidade com uma educação caseira, com preceptores que lhe davam aulas particulares desde logo. É a autora mais publicada de todos os tempos em qualquer idioma, sendo somente ultrapassada pela Bíblia e por Shakespeare, com seus livros ultrapassando a fabulosa soma de mais de quatro bilhões de exemplares vendidos (Foto: Reprodução)

Pior: como muitas de suas histórias são bem conhecidas, uma farta parcela do público já conhece o final. Com Kenneth Branagh no comando do longa-metragem e interpretando o personagem com manias que esbarram no TOC, o filme estreia nessa quinta-feira (30/11) no Brasil, 43 anos desde quando a sua adaptação mais famosa chegou às telas, dirigida por Sidney Lumet com elenco all-star que reunia o melhor da Velha e da Nova Hollywood da época.

O elenco estelar do novo “Assassinato no Expresso do Oriente” foi escolhido à risca por Kenneth Branagh (no centro, à dir.), que também vive o investigador belga com requinte único. Da esquerda para a direita, Olivia Colman, Josh Gad, Judi Dench, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Tom Bateman, Michelle Pfeiffer, Derek Jacobi, Leslie Odom Jr., Penélope Cruz e Johnny Depp (Foto: Divulgação)

A versão de 1974 de “Assassinato no Expresso do Oriente” seguia duas modas vigentes no cinemão da década: a de resgatar os anos 1920/30 – que estavam na moda em produções como “Golpe de Mestre”, “Cabaret”, “Os anos verde”, “Funny Girl”, “A estrela”, “O Grande Gatsby” e “Bonnie & Clyde” – e a de misturar em grandes elencos astros e estrelas da Era de Ouro (tirados da aposentadoria compulsória para serem tratados como curiosas relíquias de um passado hollywoodiano recente) com outros então no auge. Essa estratégia dos produtores copiava a fórmula de sucesso de filmes-catástrofe – uma febre no período -, em produções como a série “Aeroporto”, “O destino do Poseidon”, “Terremoto” e “Inferno na Torre” (Foto: Reprodução)

Branagh faz a festa, mesmo não sendo tarefa fácil. Pura competência, pois de diretor conhecido por pomposas adaptações de William Shakespeare, o moço anda se especializando nos últimos anos como cineasta habilidoso a serviço dos grandes estúdios, pronto para conferir dignidade a blockbusters como Thor (Marvel Studios, 2011), Operação Sombra: Jack Ryan (2014) e Cinderela (Disney, 2015).

Kenneth Branagh se fez nas telas como um minucioso diretor de transposições shakespeareanas, além de atuar como monstro sagrado em produções tão diversas como “Harry Potter e a câmara secreta”, “Sete dias com Marilyn” e “Dunkirk“. Como diretor, ele vem diversificando as realizações nos últimos anos, topando imprimir sua digital requintada até em live actions da Disney, como “Cinderela”. Com um detalhe: ele costuma acertar! (Foto: Divulgação)

Além do apreço pelo requinte visual – marca sua –, ele dá cabo da história sem precisar desvirtuar a essência dessa narrativa literária, equilibrando a trama lenta e quase claustrofóbica, toda passada dentro de um luxuoso trem, com tomadas de câmera virtuosas que somente o aparato do cinema digital de hoje possibilitaria e até trazendo para a ambiência exterior trechos que se passavam no interior do lendário Expresso do Oriente, imprimindo a dinâmica do espetáculo audiovisual moderno.

O uso cuidadoso dos efeitos digitais numa produção toda filmada estúdio confere à “Assassinato no Expresso do Oriente” um frescor visual que tira a trama do mofo, sem deixar de resguardar o clima retrô que combina tão bem com as obras de Agatha Christie. O visual do longa é deslumbrante e chique, muito chique! Exatamente como o trem de luxo que dá nome ao filme e que parou de circular em 1962, em plena Guerra Fria, quando sua rota Paris-Istambul começou a ficar inviável por conta de dois motivos: as fronteiras internacionais fechadas por conta da Cortina de Ferro e o preço razoável das passagens aéreas na Europa Continental (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 

Essa opção acertada faz com que o cineasta preserve a natureza literária da Dama do Mistério, indo no caminho oposto de colegas de profissão como Guy Ritchie, que transformou o vetusto Sherlock Holmes num exímio acrobata junkie em dois longas estrelados por um Robert Downey Jr. saradão que pode ter feito o cadáver de Conay Doyle ser consumido por espasmos, apesar de agradar as plateias afeitas às estripulias atléticas dos super-heróis na telona.

Em “Sherlock Holmes” (2009), um Robert Downey Jr., de abdômen tanquinho turbinado por anabolizantes, saiu do ostracismo, perdeu a pecha de encrenqueiro e conquistou um novo público que o acolheria em seguida como o Homem de Ferro. Sua composição no longa de Guy Ritchie o afasta da criação literária original de Conan Doyle, mas cozinha o personagem ao tempero das novas gerações de espectadores, todos acostumados com jogos de RPG. E bota ressignificação aí: agora, o detetive britânico assume ares de bad boy digno de um clube da luta! (Foto: Divulgação)

No quesito estético, Branagh também mete bola dentro quando filma tudo em estúdio, trabalhando as sequências externas na base do CGI. O hiperrealismo dessas cenas, caprichado pela fotografia gélida do trem cujo percurso foi interrompido por uma avalanche, se ancora num certo lirismo que acentua a atmosfera chique retrô da trama passada nos anos 1930.

Vivido anteriormente por Albert Finney, Peter Ustinov e até por Alfred Molina numa minissérie de TV (2001), o sistemático detetive cheio de manias que insiste em se afirmar como belga ganha o bigodão definitivo na pele de Kenneth Branagh, ótimo. A caracterização dele e dos outros personagens ficou nas mãos da beauty artist Pauline Boneva, exceto Johnny Depp, que vive o escroque Ratchett e levou sua própria equipe de beleza. Sim, o astro tem sua própria equipe de toucador, formada pela cabeleireira Gloria Pasqua Casny e o maquiador Ken Niederbaumer! (Foto: Divulgação)

Pela cena final do filme, os produtores parecem pretender resgatar o personagem Hercule Poirot numa franquia, como já havia sido feito nos anos 1970/80. Ao que tudo indica, o próximo longa deverá ser “Morte no Nilo, exatamente igual à ordem que foi lançada nos cinemas na época (Foto: Divulgação)

Feito isso, o diretor se concentrou no outro aspecto fundamental dessa produção: levando em conta que a comparação com a produção de 1974 seria inevitável, ele também escalou um elencão poderoso que inclui Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Dame Judi Dench, Willem Dafoe, estrela da nova trilogia Star Wars Daisy Ridley, seu ator-fetiche Sir Derek Jacobi e Penélope Cruz, além de outros  não tão famosos, mas com rostinhos conhecidos, como Josh Gad (“A Bela e a Fera“, 2017) e Olivia Colman (de O Lagosta“, 2015) e até o ucraniano Sergei Polunin, que aos 19 anos se tornou o mais novo primeiro-bailarino do Royal Ballet e costuma estrelar capas de publicações como Vogue Homme Paris.

Na première londrina, o elenco feminino posa no red carpet: da esquerda para a direita, Lucy Boyinton (Condessa Elena Andrenyi), Judi Dench (Princesa Dragomiroff), Michelle Pfeiffer (Sra. Hubbard), Daisy Ridley (Mary Debenham), Penélope Cruz (Pilar Estravados) e Olivia Colman (Hildegarde) (Foto: Divulgação)

Fleumáticos e esnobes à bordo: da esquerda para a direita, Michelle Pfeiffer, Sergei Polunin, Judi Dench, Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Lucy Boyinton, Josh Gad e Daisy Ridley (Foto: Divulgação)

Parte do elenco de “Assassinato no Expresso do Oriente” posa para a típica foto de divulgação de uamprodução all-star cast: da esquerda para a direita, surgem personagens fleumáticos e esnobes nas peles de Michelle Pfeiffer, Sergei Polunin, Judi Dench, Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Lucy Boyinton, Josh Gad e Daisy Ridley (Foto: Divulgação)

Em 1974, o inacreditável elenco da versão setentista de “Assassinato no Expresso do Oriente” também foi registrado para a posteridade: no alto, da esquerda para a direita, Jean-Pierre Cassell, Michael York, Jonh Gielgud, Albert Finney, Richard Widmark, Sean Connery, Martin Balsam, Colin Blakely, Anthony Perkins e Dennis Quilley; sentadas na mesma ordem, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Ingrid Bergman e Wendy Hiller. O diretor Sidney Lumet está à frente (Foto: Reprodução)

O elenco da produção original interagia em vagões do Orient Express bem mais enxutos que os atuais, dimensionados agora pela combinação de cenografia com lentes que dão uma sensação de amplitude (Foto: Reprodução)

Todo mundo está bem, mesmo porque Branagh é ótimo diretor de atores e sabe trabalhar com os egos em produções apinhadas de astros e estrelas, como Morrer outra vez (1991), Muito barulho por nada(1993) e Hamlet (1996).

Alçado à condição de pop star na Europa, o bailarino Sergei Polunin usa suas habilidades acrobáticas em “Assassinato no Expresso do Oriente” para dar vida ao estourado diplomata e nobre Rudolph Andrenyi. Na vida real, seu porte atlético, ar de modelo e as tatuagens vivem lhe rendendo convites para estampar capas de revista e editoriais de moda, como esse da Vogue Hommes clicado por Mario Sorrenti (Foto: Reprodução)

Aos 28 anos, Polunin também é considerado na atualidade um sex symbol (Foto: Reprodução)

Na realização de 1974, o Conde Andrenyi foi interpretado pelo britânico Michael York, então no auge do estrelato, assim como sua colega de set Jacqueline Bisset, a Condessa Andrenyi (Foto: Reprodução)

Com destaque para Michelle Pfeiffer que, aos 59 anos, vêm mostrando evolução: de rosto mais bonito de Hollywood nos oitenta e na virada dos noventa, a maturidade lhe caiu bem. Ela continua linda e, apesar das marcas do tempo, tem batido um bolão em produções nos últimos dez anos, como essa, Mãe! (2017), Sombras da Noite (2012), A Família (2013) e “Hairspray (2007). Virou boa atriz e dá cabo de um papel que também foi vivido por outra beldade após a flor da idade, Lauren Bacall.

Como a viúva casamenteira e lasciva Sra. Hubbard, Michelle Pfeiffer brilha em “Assassinato no Expresso do Oriente”, tirando partido da sua beleza envelhecida… (Foto: Divulgação)

… Exatamente como fizera 43 anos antes a estrela dos filmes noir e ex-senhora Humphrey Bogart Lauren Bacall! (Foto: Reprodução)

Para temperar o remake de “Assassinato no Expresso do Oriente” ao sabor dos tempos politicamente corretos (e patrulhados), Kenneth Branagh fez algumas concessões ao elenco. Confira abaixo! 

O coronel Arbuthnot, vivido e 1974 por um Sena Connery recém-aposentado da franquia “007”… (Foto: Reprodução)

…Agora dá vez a um negro, através do sistema informal de cotas imposto hoje aos estúdios pelos ativistas de redes sociais. Vindo de uma longa carreira em séries de TV como “Anatomia de Grey”, “Gotham”, “Lei e Ordem”, “The Good Wife” e “CSI: Miami”, Leslie Odom Jr. ganhou o papel, mas virou doutor na narrativa (Foto: Divulgação)

Já a missionária atormentada pela culpa Greta, interpretada por Ingrid Bergman na produção original – que lhe rendeu o Oscar de ‘Melhor Atriz Coadjuvante” em 1975 – … (Foto: Reprodução)

… nesta nova versão se transforma na latina Pilar Estravados para ganhar as feições de Penélope Cruz. Sim, pelo jeito até os chicanos tem direito à cota em superprodução agora! (Foto: Divulgação)

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