Entre as liturgias infalíveis do Festival de Cannes, uma das mais esperadas (e saboreadas) é a vaia monumental dirigida a um filme para o qual foi reservado o papel de “bode expiatório” do evento e sobre o qual desaba toda a fúria da crítica e da platéia internacional reunidas durante duas semanas no balneário. No ano passado, o filme brindado com esse tratamento foi The sea of trees do ex-queridinho Gus Van Sant, cujo elenco estelar reuniu nomes como Matthew McConaughey, Naomi Watts e Ken Watanabe.

Este ano, como decorrência da qualidade geral da Seleção Principal Competitiva das obras até agora apresentadas e candidatas à Palma de Ouro, a safra de filmes açoitados tem sido muito mais farta. E, entre estes, destacam-se dois títulos com diretores que já experimentaram no passado passagens mais felizes na Croisette: o francês Olivier Assayas com Personal shopper e o dinamarquês Nicolas Winding Refn com The neon demo”, os quais – curiosamente – trouxeram para Cannes duas obras que apresentam notáveis semelhanças entre si ao explorarem igualmente o gênero thriller com enfoque sobrenatural ou de horror e também ao ambientarem suas histórias no mal afamado mundo da alta moda.

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A mistura de thriller psicológico com toques de horror que o diretor francês Olivier Assayas experimentou em “Personal shopper” irritou parte da imprensa presente em Cannes, embora o filme tenha despertado entusiasmo em críticos importantes como Peter Bradshaw do The Guardian e Robbie Collin do The Telegraph que colocaram nas alturas a interpretação de Kristen Stewart (Foto: Divulgação)

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Em “Personal shopper”, Kristen Stewart é uma produtora-compradora que vai a Paris trabalhar para uma top model alemã pra lá de bitch, tipo Miranda Priestley. Dividida entre o desprezo e atração que alimenta pelo mundo da moda e pelo estilo de vida da sua patroa, mergulha numa crise que a leva testar seus dotes de médium, buscando contato com o falecido irmão gêmeo (Foto: Divulgação)

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Menos de uma semana depois de ter cruzado o red carpet ao lado de Woody Allen que trouxe para abertura do festival sua última obra hors concours “Café Society”, Kristen Stewart voltou a subir as escadarias do Palácio dos Festivais com a equipe do filme em competição “Personal shopper”: o ator Lars Eidinger, o diretor Olivier Assayas e a atriz Nora Von Waldstatten (Foto: Divulgação)

AGNÓSTICA, MAS NEM TANTO

Kristen tem dito nas entrevistas que não pode afirmar se fantasmas existem ou não, todavia ela acredita que “as nossas vidas às vezes parecem ser dirigidas por forças indefiníveis, o que nos passa a sensação de que não estamos sós neste mundo”. Enquanto você pensa a respeito, confira o trailer oficial de “Personal shopper” (Divulgação):
Desde quando Tony Scott filmou a luta pela sobrevivência ao longo dos séculos de dois vampiros elegantérrimos – David Bowie e Catherine Deneuve, em Fome de viver (The hunger, 1983) – como um desfile de moda macabro, a tentação de usar o mundinho e a estética fashion como metáforas da decadência da civilização contemporânea, completamente aviltada pelo narcisismo, pelo fetichismo e por valores individualistas, consumistas e superficiais, tornou-se uma praga, principalmente na teledramaturgia brasileira. Entretanto, nem autores cinematográficos sofisticados como Olivier Assayas e Nicolas Refn conseguiram escapar dessa síndrome e – de acordo com a reação das plateias de Cannes – de serem punidos por essa insensatez, principalmente Refn, cujo filme foi objeto de ataques e de manifestações exaltadas de repúdio após a projeção para a imprensa ontem de manhã.

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Bowie e Deneuve em “Fome de Viver” (1983): Bela Lugosi is not dead! Exercícios cinematográficos que misturam exóticas criaturas sobrenaturais e o tão sedutor quanto universo fashion não são novidade, mas parecem ter dominado a cena – para o bem ou para o mal – nesta edição de Cannes (Foto: Reprodução)

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Se “Personal shopper” foi recebido pela imprensa com muxoxos, “The neon demon”, o estiloso exercício de horror do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, foi saudado com ira e agressividade, repetindo as mesmas reações histéricas que a sua obra anterior “Apenas Deus perdoa” provocou em Cannes três anos atrás (Foto: Divulgação)

DO CÉU AO INFERNO

Nicolas Winding Hefn é o primeiro diretor a ter três filmes seus feitos consecutivamente apresentados no Festival de Cannes, uma proeza discutível, já que depois do triunfo de “Drive” (2011) que lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor, Hefn só tem colhido desaprovações violentas com “Apenas Deus perdoa” (2013) e agora com “The neon demon”. Seu estilo visual requintadérrimo e arrojadíssimo parece ter enjoado a Croisette. Mesmo assim, saboreie algumas imagens do polêmico filme:

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Ao estrear em Cannes com “Drive” (2011), Hefn não só ganhou o prêmio de Melhor Direção como também um beijo de língua do astro do filme Ryan Gosling e na frente de centenas de fotógrafos acotovelados nas escadarias do Palácio dos Festivais. Um momento que entrou para a crônica dos “escândalos fabricados” de Cannes (Foto: Reprodução)

“TEENAGE HORROR FILM”

Assim Hefn tem definido o seu filme “The neon demon“. Angustiado com o tempo que as pessoas gastam hoje se embelezando, Hefn usa o seu filme para fazer do mundinho fashion um saco de pancadas e símbolo do narcisismo que corrói o mundo. Confira o trailer oficial (Divulgação):

Nota de Flávia Guerra, direto de Cannes: Enquanto “Personal Shopper” é um longa-metragem sobrenatural no máximo correto que apenas esbarra no mundo da moda através do trabalho da protagonista (Kristen Stewart), “The neon demon” é um excelente filme voltado para o público jovem, muito bem produzido estilisticamente e que talvez não mereça a hostilidade do público no festival. Um de seus méritos é estilizar o ambiente dos editoriais de moda, passarelas e backstages no intuito de revelar a obsessão pela beleza eterna, justamente contrapondo esta a uma carreira tão fugaz: a das top models.

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Starlet da vez tanto em Hollywood quanto nas front rows dos desfiles de Paris e Milão, Elle Fanning oferece ao público teen sua pele de pêssego em “The neon demon”, fantasia que codifica o ambiente da moda como terreno perfeito para a busca pelo graal da juventude eterna (Foto: Divulgação)

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Vida imita a arte: vitrine de uma loja em Cannes assume a atmosfera do terror chique presente nesta edição do festival (Foto: Flávia Guerra)

Outra “onda” que está chamando a atenção nas várias mostras que acontecem simultaneamente em Cannes é a de filmes que tentam inutilmente disfarçar o seu pertencimento ao apelativo mundo exploitation, como aqueles que investiram em temáticas calculadamente fantasiosas ou bizarras em que pululam vampiros, pulsões antropófagas, violência e fome sexual extrema. Essa tendência já havia sido alertada pelo Delegado Geral do festival Thierry Frémaux durante a coletiva de imprensa, em abril, para a apresentação geral da edição de 2016 após o fechamento das listas dos filmes selecionados.

O próprio e experimentado Frémaux não conseguia explicar as profundas diferenças entre as várias edições do festival, em especial entre a de 2015 e a atual. Como entender o acúmulo em Cannes, no ano passado, de vigorosos retratos históricos e sociais como De cabeça erguida de Emmanuelle Bercot; Dheepan de Jacques Audiard, que acabou levando a Palma de Ouro; Sicario de Denis Villeneuve, Filho de Saul”, de Lázló Nemes, ou Mais forte que bombas de Joachin Trier, enquanto a edição em curso do festival afunda em apupos de decepção? Como é possível que no espaço de um ano, Charlize Theron – ovacionada em cena aberta várias vezes durante a projeção de Mad Max: Estrada da fúria”, de George Miller, ano passado – acabe impiedosamente vaiada na noite de ontem após a sessão para a imprensa de The last face”, drama de guerra de Sean Penn, que ainda conta no elenco com Javier Bardem?

Thierry Frémaux responde que, nestes casos, só cabe uma atitude: jogar as mãos para o alto, aceitar as coisas como são e continuar fazendo o seu trabalho.

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J’adore! Não adiantou nada a elegância da sulafricana Charlize Theron, nem a ovação na edição 2015 de Cannes: a estrela foi vaiada. Horas antes, no red carpet ao lado do diretor Sean Pean, a loura fazia biquinho com cara de quem está abafando, sem sequer desconfiar que “The last face” seria repudiado pela crítica. Nunca a postura no tapetão da fama teve tanto a ver com o título de um filme! (Foto: Divulgação)

A CROISETTE MANCHADA DE SANGUE

Até parece que o capeta em pessoa selecionou os filmes do Festival de Cannes 2016. Nem as vaias que se multiplicam a cada dia após as sessões do evento conseguem espantar os canibais, os vampiros e outras entidades do além que invadiram os filmes deste ano. Confira:

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Os astros Juliette Binoche, Fabrice Luchini e Valeria Bruni Tedeschi uniram-se ao diretor Bruno Dumont em “Ma Loute”, comédia policial que representa a França na Seleção Oficial, para contar a história de uma família de pescadores canibais que devoram incautos turistas hospedados no norte da França durante a belle époque (Foto: Divulgação)

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Na importante mostra paralela Un Certain Regard foi exibido “The transfiguration”, fábula de horror do diretor americano Michael O’Shea que narra como um adolescente sob bullying (Eric Ruffin) satifaz a sua fome por sangue humano (Foto: Divulgação)

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A Semana da Crítica, outra mostra que integra o Festival de Cannes, programou “Grave”, primeiro longa-metragem da jovem diretora francesa Julia Ducourneau em que a jovem Justine, vegetariana convicta, torna-se uma canibal compulsiva depois de forçada a experimentar carne crua (Foto: Divulgação)

NORMA BENGELL CONTRA VAMPIROS INTERPLANETÁRIOS

Se não bastasse a forte presença de Sonia Braga no festival com o filme “Aquarius”, a mostra Cannes Classic deste ano apresenta a cópia restaurada do cultuado trash espacial ítalo-espanhol “Terrore nello spazio” (Planet of the vampires, 1963), de Mario Bava (1914-1980) e estrelado por ninguém menos do que Norma Bengell (1936-2013) – que desenvolveu breve carreira na Itália depois de ter estrelado “O pagador de promessa” (1962), de Anselmo Duarte, premiado com a Palma de Ouro. Confira no trailer a seguir a diva Bengell no papel da astronauta Sanya lutando contra vampiros que invadiram o planeta Aura:

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