A abertura já dá a pista do tratamento que a diretora Jocelyn Moorhouse (cinco longas no currículo, quatro nos anos 1990) imprime ao transpor para a telona o primeiro romance da autora de peças e roteirista de rádio Rosalie Ham, australiana como ela, em “A vingança está na moda” (The Dressmaker, Screen Australia e outras, 2015), já em cartaz. As belas tomadas aéreas do ônibus na estradinha na qual a protagonista Myrtle Dunnage (Kate Winslet, precisa dizer mais?) percorre o interminável outback de volta ao vilarejo de infância simulam zíperes sendo fechados, agulhas pespontando vestidos ou fios tecendo trama e urdume. Como matéria-prima para essa moda inóspita no deserto, muito capim queimado e terra árida no lugar de veludos e zibelines.

Assista ao trailer oficial de “A vingança está na moda” (Divulgação):

Ao transformar em imagens a narrativa de vingança da mocinha acusada de assassinato e escorraçada da cidadezinha natal na tenra idade – que depois ganharia Paris como costureira a serviço de gente bacana como Madame Vionnet e Balenciaga –, a diretora opta por evocar a atmosfera dos westerns na luz, nos enquadramentos com grande angular, cortes e na música, dialogando com obras desse imaginário cinematográfico num divertido australian kilt.

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“A vingança esta na moda”: quase folhetim da TV que usa a máquina de costura como fator de transformação pessoal. Qualidade de acabamento, toques de comédia, figurino e elenco são passaporte para a sala de exibição (Foto: Divulgação)

Mas Moorhouse tem a ambição de ir além: é inevitável a sensação de pertencimento quando algumas cenas flertam com conhecidos clássicos do cinema e é possível reconhecer, por exemplo, a semelhança entre a lúgubre casa no topo de uma colina neste caixa-prego onde se passa a história e o casarão grand guignol de Psicose“. Afinal, abrir mão do mundo civilizado para dar cabo de um plano de revanche é coisa de psicótico, não? Já na hora em que Myrtle surge no meio de uma partida de futebol, de tomara-que-caia e luvas 7/8 de parar o trânsito, é certeira a citação ao strip tease mais bombástico da Sétima Arte, aquele de Rita Hayworth em Gilda“.

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Kate Winslet é a cosmopolita Myrtle “Tilly” Dunnage, que volta à sua terra natal para se vingar da cidade que a humilhou em “A vingança está na moda”. Vale até imitar Rita Hayworth e assumir a ruivice da estrela no colorido rubro do modelito (Foto: Divulgação)

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Dona da bola: longa usa o poder de sedução de vestuário como veículo para trama passional (Foto: Divulgação)

Há também uma rápida menção a Fred Astaire quando um solitário sargento diferentão (Hugo Weaving ótimo, alguma dúvida?) dança de fraque e cartola curtindo sua eterna dor de cotovelo. Isso, sem falar nas cenas explícitas nas quais os personagens assistem a Crepúsculo dos Deuses no cineminha pé-sujo do lugar, dando a exata dimensão do quanto tudo ali é atrasado, já que o longa de Billy Wilder é de 1950 e a ação transcorre no ano seguinte.

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Minha bela dama: o policial gay enrustido interpretado por Hugo Weaving em “A vingança está na moda” é um dos contrapontos cômicos do drama ambientado em 1951 (Foto: Divulgação)

Não é de hoje que o cinema australiano evoca a poesia do lugar nenhum desse país-continente. Crocodilo Dundee“, “Australia“, “The Rover a caçada e Priscila, a rainha do deserto estão aí para lembrar o quão rural pode ser a nação de modernas cidades como Melbourne e Sydney. Ainda assim, ao se apropriar do livro de Ham para narrar uma história na qual a moda é o elemento transformador, é inegável que o filme use o deserto físico para metaforizar a vastidão de criaturas com existência tão vazia quanto seu habitat. Mas, a despeito do bom elenco, do ótimo figurino de Marion Boyce e Margot Wilson, das piadas engraçadinhas, do peitoral privilegiado do bofão Liam Hemsworth e da boa cadência da diretora ao revelar seu olhar feminino sobre uma terra de Marlboro, o longa vale o ingresso somente até a página 45 do capítulo três.

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Estilo na passarela da vida: personagens do vilarejo no meio do nada se transmutam em fashionistas pelas talentosas mãos da mocinha Tilly (Kate Winslet) em “A vingança está na moda”. De certa forma, o desfile de tipos até lembra o panorama de criaturas que outro australiano, o diretor Baz Lurhman, apresentou em “Vem dançar comigo” (1992) (Foto: Divulgação)

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Kate Winslet e sua arma quase letal de “A vingança está na moda”: máquina de costura em ação substitui a pistola no coldre e o bacamarte em riste neste misto de drama e comédia com elementos western (Foto: Divulgação)

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Liam Hemsworth é o interesse amoroso da protagonista Kate Winslet: irmão mais novo do Poderoso Thor (Chris Hemsworth) prova que os ombros largos e o peitoral entumescido são pura genética familiar (Foto: Divulgação)

É que, além de descambar para o dramalhão de novela mexicana a partir de certo momento, o filme apenas esbarra naquilo que poderia ser sua galinha dos ovos de ouro: o valor revolucionário da moda enquanto ferramenta para permitir a reinvenção de personas. Nessa aspecto, a história podia ir mais a fundo, conforme acadêmicos como Lívia Barbosa deixam claro em obras como Sociedade de Consumo“. Okay, é entretenimento e não trata de tese de doutourado, mas quem disse que cinema também não traz no cerne a função de questionar, apresentar, investigar?

Nesse campo, verdade seja dita, a culpa pela falta de aprofundamento do assunto não é da cineasta, mas da autora Rosalie Ham, cujo livro no qual se baseia, apesar de agradável na descrição de situações e seu entorno, não avança além da superfície, assim como se acredita que a moda não passe de mero verniz. Uma pena, pois uma abordagem maior da recriação do “eu” através da indumentária poderia render ótimo enredo, com alcance bem mais amplo que uma vingança pessoal.

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Caipirada buscapé: na recriação do universo concebido por Rosalie Ham no livro “A vingança está na moda”, a figurinista Marion Boyce marca a passagem dos personagens do interior no antes-e-depois da vingativa Myrtle Dunnage, vivida por Kate Winslet (Foto: Divulgação)

Nesse campo, apesar de boa diversão “A vingança está na moda” nem de perto tangencia uma produção que, no âmbito da gastronomia, aborda o mesmo tema: A Festa de Babette (Babettes gaestebud, de Gabriel Axel, 1987), dinamarquês que faturou o Oscar de ‘Melhor Filme Estrangeiro’.

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Rega-bofe na festa de Babette: Stéphane Audran é a cozinheira que se faz na capital francesa e volta à vila de origem para transformar a vida dos habitantes com um refinamento de lamber os beiços. Existe semelhança no tema do cultuado filme dinamarquês com “A vingança está na moda”, em cartaz nos cinemas (Foto: Reprodução)

Em tempo: como resistir ao talento de Judy Davis, a mãe rabugenta de Myrtle? Para quem descobriu a atriz no auge da beleza em Passagem para a Índia” (A Passage to India, de David Lean, 1984) – em papel numa produção que, se realizada 20 anos antes, possivelmente cairia nas mãos Julie Christie – e ainda pode confirmar seu talento nos longas de Woody Allen, vê-la mais enrugada que um cágado, despojada de qualquer vaidade, é colírio. Ela consegue engolir Kate.

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Velhaca: na pele encarquilhada da mãe alcoólatra e quase demente de Tilly (Kate Winslet), Judy Davis rouba cada minuto de “A vingança está na moda” (Foto: Divulgação)

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