Ele é considerado o mestre supremo da fotografia de guerra e de aventura em preto e branco. Suas coberturas dos maiores conflitos bélicos do planeta ao longo de quase duas décadas – como a Sino-Japonesa, a Segunda Guerra Mundial, a da Independência de Israel e a da Indochina Francesa – foram publicadas nas maiores revistas do mundo e logo transformadas em símbolos do mais beligerante e sanguinário século da História. Essa trajetória de Robert Capa nos campos de batalha não só consagrou a estética do fotojornalismo em preto & branco como também ofuscou quase que completamente sua obra produzida em cores desde 1938. Essa parte significativa e, para muitos, completamente inesperada de Capa foi finalmente resgatada pelo International Center of Photography em parceria com o Município da Cidade de Nova York através da exposição Capa em cores”, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro, depois de passar por Budapeste, cidade natal de Capa, Tours e Lille, na França, e Madri.

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Robert Capa é até hoje o protótipo do fotojornalista que vai ao encontro das guerras mais espetaculares da sua época sem medir esforços ou fugir do perigo, como se procurasse se confundir com os soldados em ação. Morreu aos 40 anos ao pisar acidentalmente numa mina durante a Guerra da Indochina Francesa (Foto: Reprodução)

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A exposição “Capa em Cores” no Oi Futuro Flamengo resgata 140 fotografias coloridas do lendário fotojornalista húngaro (1913-1954), fundador da agência Magnum e célebre por suas imagens de guerra em P&B. A mostra é inédita por destacar o esquecido legado de imagens captadas em cores, sem exageros e sutilmente controladas por Capa a partir de 1941 (Foto: Flávio Di Cola)

O que mais tem surpreendido a legião de admiradores de Robert Capa é descobrir depois dessa exposição itinerante que suas fotografias coloridas foram produzidas paralelamente à sua obra em preto e branco midiatizada à exaustão. Entretanto, nem sempre foi assim, pois Capa fora motivado a se interessar pelas cores por uma questão muito prática: a grande imprensa européia e norte-americana do entre guerras passava por uma revolução técnica e estética a fim de atrair mais leitores, o que envolveu o emprego cada vez mais ousado e extensivo das fotografias coloridas, num momento em que a própria Hollywood investia pesado na popularização do sistema Technicolor através de superproduções como …E o vento levou e O mágico de Oz”, ambas de 1939. Por outro lado, é necessário reconhecer que as cores – de certa forma – inibiram o sentido do dramático e do trágico tão exemplarmente captado por Capa em suas coleções clássicas de fotografias clicadas em preto e branco em vários teatros de guerra, com suas procissões de massacres, misérias e desesperos que se abateram sobre a humanidade entre 1936 e 1954.

ROBERT CAPA: DAS FRENTES DE BATALHA AOS BASTIDORES DO CINEMA

Charmoso, bem apessoado, carismático, culto e muito bem sucedido com as mulheres,  Capa circulava com desenvoltura no show biz. A mostra no Oi Futuro Flamengo dedica uma seção inteira às fotografias coloridas que ele tirou de estrelas de cinema, artistas e celebridades dos anos 1940 e 1950:

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Em 1948, Capa propôs para a revista Look uma matéria sobre a obra em cerâmica de Pablo Picasso que acabou se transformando numa reportagem da vida familiar do célebre artista no sul da França (Foto: Divulgação)

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Humphrey Bogart e Peter Lorre são surpreendidos pela lente de Capa gozando um dos grandes prazeres da dupla – fumar – durante as filmagens da comédia satírica de John Huston “O diabo riu por último” (1953) em Ravello, Itália (Foto: Divulgação)

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O escritor Truman Capote, roteirista de “O diabo riu por último”, confere os pontos de um bordado com a estrela Jennifer Jones em registro de Robert Capa (Foto: Reprodução)

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Capa também curvou-se à beleza de Capucine, uma das modelos mais badaladas dos anos 1950. Diante desta foto de 1951, tirada em Roma, é difícil imaginar que ela daria fim à sua própria vida, pulando do 8º andar do prédio onde morava em Lausanne durante uma crise de depressão (Foto: Divulgação)

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Capa, destemido fotógrafo de guerra, também tinha uma acentuada fraqueza pela beleza feminina e ele usou as cores para enaltecê-la, como nesta foto da diva Ava Gardner clicada nos bastidores de “A condessa descalça” (1954) de Joseph L. Mankiewicz e filmado em Roma (Foto: Divulgação)

Mas o domínio obtido por Capa em diversos sistemas de cores – principalmente o Kodachrome e o Ektachrome – lançou o arrebatado fotógrafo dos mais violentos fronts, como as praias da Normandia no famoso “Dia D” que selou o resultado da Segunda Guerra, a cenários muito mais glamurosos e perfumados, como os bastidores cinematográficos americano e italiano, a intimidade de artistas e celebridades mundiais e – para escândalo de muitos nostálgicos do true journalism – as passarelas do mundinho da alta moda europeia. Pois foi nessa esfera que Robert Capa encontrou o amor de sua vida – a mega estrela de Hollywood de origem sueca, Ingrid Bergman, protagonista de clássicos supremos como Casablanca (1942), Por quem os sinos dobram (1943) e À meia-luz (1944).

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Capa teve permissão de Hitchcock para registrar (em foto P&B não exposta na mostra) Ingrid Bergman (1915-1982) nos bastidores de “Interlúdio” (1946), clássico do suspense ambientado no Rio, mas filmado em Hollywood. Nessa época, Capa e Bergman, modelo de esposa e mãe perfeita, já viviam um tórrido romance clandestino (Foto: Reprodução)

Ingrid Bergman e Robert Capa se esbarraram sem querer no imediato pós-guerra, em junho de 1945, no hall do chiquérrimo Hotel Ritz. A atração de um pelo outro foi arrebatadora. Na mesma noite do encontro casual cearam juntos e, alguns dias depois talvez já estivessem refletindo sobre como escapar da condenação por adultério que fatalmente recairia sobre a estrela que vivia em Hollywood a farsa do “casamento perfeito” com o médico sueco Petter Lindström e a filha Pia ainda criança. Capa, um progressista afoito, provocava Ingrid: “Você se transformou numa fábrica de fazer filmes, numa instituição. Não é mais alguém que consegue desfrutar a vida”. Mas esses ataques à cômoda posição de estrela hollywoodiana que sustentava um casamento de aparências para não prejudicar uma carreira exemplar não significava absolutamente uma proposta de casamento da parte do fotógrafo jovial, aventureiro, internacional e mundano. Bergman em sua autobiografia lembra: “Robert me disse: ‘Eu não posso me casar com você. Não posso amarrar-me. Se eles disserem para ir amanhã à Coreia, e nós estivermos casados e com um filho, eu não poderei ir. E para mim isso é impossível. Não sou do tipo que casa’”. E Bergman arremata: “Ele foi embora e voltou novamente, foi embora de novo e voltou uma vez mais, e nada ia mudar esse arranjo. Isso eu logo soube entender”.

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Em 1954, Ingrid Bergman – então “banida” de Hollywood por ter abandonado marido e filha para viver com o diretor Roberto Rossellini – rodou “Viagem à Itália” ao lado de George Sanders (à dir.). O curioso desta foto de bastidor é que ela foi tirada pelo seu ex-amante Robert Capa com Bergman ao lado de Rossellini (à esq.), seu então marido e diretor do filme (Foto: Divulgação)

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O romance proibido de uma super estrela de Hollywood – casada e com filha pequena – com um viril e destemido fotojornalista de guerra tinha todos os ingredientes prontos para que o escritor britânico Chris Greenhalgh escrevesse “Seducing Ingrid Bergman”, depois do seu sucesso com outra biografia de “adúlteros”, “Coco Chanel & Igor Stravinsky” (Foto: Reprodução)

Além da importância e da beleza das fotografias reunidas em três andares do Oi Futuro Flamengo, a exposição “Capra em cores” joga por terra dois grandes clichês: primeiro aquele que perpetuava a imagem de um Robert Capa negligente com a fotografia em cores e, segundo, o que imaginava que um fotojornalista de guerra que rasteja entre trincheiras lamacentas cercadas por corpos despedaçados nunca terá entre seus braços uma Ingrid Bergman.

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No Oi Futuro Flamengo também estão expostas a produção colorida de Robert Capa fruto de suas andanças pelo Marrocos, EUA, URSS, Hungria, Noruega, Israel, Japão e Indochina, além – é claro – das célebres coberturas que fez da Segunda Guerra como esta foto tirada a bordo de um navio militar britânico (Foto: Divulgação)

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O fotógrafo L. B. Jeffries vivido por James Stewart no clássico do suspense “Janela indiscreta” (1955), de Alfred Hitchcock, foi em boa parte inspirado na vida aventureira de Robert Capa. No filme, embora paralisado numa cadeira de rodas, Jeffries continuava a procurar o perigo pela janela da sala munido de uma poderosa teleobjetiva (Foto: Reprodução)

TRÊS IMAGENS DE ROBERT CAPA QUE DEFINIRAM O FOTOJORNALISMO

Cynthia Young, curadora do Arquivo Robert Capa, diz que as imagens coloridas do fotógrafo com temas mais amenos expostas no Oi Futuro Flamengo ainda chocam aqueles habituados a associar Capa às imagens icônicas dos grandes conflitos mundiais do século XX. Confira algumas destas:

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“The falling soldier” é até hoje a foto mais divulgada da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) em que Capa captou o momento exato em que um soldado republicano é alvejado por uma bala franquista. Como muitas imagens super expostas, esta também foi alvo de rumores sobre sua inautenticidade (Foto: Reprodução)

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No episódio mais famoso da Segunda Guerra – o “Dia D” (06/06/1944), a invasão da Normandia pelos aliados – Capa foi um dos quatro fotógrafos que desembarcaram juntos com a primeira leva de tropas americanas. Suas fotos da operação que dizimou 37.0000 homens entraram na História, mas foi fruto da mais aterradora experiência da sua vida (Foto: Reprodução)

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No verão de 1943, as tropas americanas já tinham invadido a Sicília quando Capa captou a foto que acabou se tornando a imagem símbolo da libertação da Itália pelos aliados: a do camponês siciliano indicando o caminho de fuga das tropas nazistas (Foto: Reprodução)

Serviço:

“Capa em cores”

Oi Futuro Flamengo

Até 9 de abril

De terça a domingo, das 11h às 20h
Rua 2 de Dezembro, 63, Flamengo, Rio de Janeiro
Informações: (21) 3131-3060

Entrada gratuita

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