* Por Flavia Guerra

“Frida Kahlo  conexões entre mulheres surrealistas no México” é o nome da mais nova mostra capaz de fazer o público esperar horas na fila para conferir, entre obras de diversas artistas, 20 telas da pintora mexicana que se tornou uma das maiores artistas da história. São os trabalhos da figura controversa e apaixonada pela vida que prometem levar milhares de pessoas ao Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, onde a mostra começou no fim de semana e segue até janeiro de 2016, quando então viaja ao Rio, em fevereiro a março, e, em seguida, a Brasília, de abril a junho.

Mas engana-se quem pensa que são somente as 20 pinturas de Frida, além de outras 13 obras que ela criou (como desenhos, colagens e litografias) o único atrativo da exposição. Um dos maiores prazeres ao caminhar pelo espaço que abriga a exposição é se deparar com obras totalmente novas para o grande público de 16 outras artistas que ajudaram a mulher do muralista Diego Rivera a narrar um capítulo da arte surrealista.

Lucienne Bloch: Frida Kahlo en el hotel Barbizon Plaza (1931, impressão sobre gelatina prat / Cortesiay da the Gelman Collection / Foto: Divulgação)

Lucienne Bloch: Frida Kahlo en el hotel Barbizon Plaza (1931, impressão sobre gelatina prata / Cortesia the Gelman Collection / Foto: Divulgação)

Nomes como a mexicana Maria Izquierdo, a inglesa Leonora Carrigton, a francesa Alice Rahon, a espanhola Remedios Varo e a fotógrafa húngara Kati Horna, as americanas Bridget Tichenor e Rosa Rolanda, as francesas Jacqueline Lamba e Bona de Mandiargues, a suíça Sonja Sekula, entre outras, não só complementam como dialogam com as criações de Frida Kahlo, que ao longo de sua curta vida (morreu em 1954 aos 47 anos) pintou somente 136 telas. “É muito difícil juntar a obra de Frida, pois, além dela não ter pintado muito, há diversos museus que não as emprestam. Todo mundo quer a obra dela e isso acaba sendo complicado”, comenta a pesquisadora Teresa Arcq, que assina a curadoria da mostra.

Alice Rahon: Balada por Frida Kahlo (1956-66, óleo sobre tela, State_Collection, Museo de Arte Moderno, México)

Alice Rahon: Balada por Frida Kahlo (1956-66, óleo sobre tela, State Collection, Museo de Arte Moderno, México / Foto: Divulgação)

De fato a comunicação com a obra de outras mulheres é uma forma criativa de traçar um panorama mais amplo da arte surrealista produzida por mulheres no período. Além disso, é uma valorização do olhar feminino na pintura. “O conceito da exposição surgiu a partir da vontade de fazer algo diferente. Outras exposições sobre mulheres surrealistas já foram realizados, inclusive uma que reunia todas as surrealistas do México e dos Estados Unidos. E Frida era mais uma delas, mas não a principal”, explica Teresa ao Ás na Manga.

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Nickolas Muray: Frida Kahlo en una banca (2015 Carbro print, cortesia the Gelman Collection, © Nickolas Muray Photo Archives / Foto: Divulgação)

“O conceito desta exposição surgiu porque há alguns anos o arquivo secreto de Frida foi aberto (Diego Rivera, seu marido, manteve trancado até sua morte, três anos depois da partida de Frida, e exigiu que só abrissem o acervo 15 anos depois de sua morte. Mas, sob cuidados da colecionadora Dolores Olmedo, acabaram ficando fechados até 2004, quando ela faleceu). Eu tive a sorte de ser convidada para investigar a relação dela com outras artistas do movimento surrealista”, conta a curadora, que é historiadora de arte, mestre em Museologia e Gestão em Arte e em Arte Cinematográfica pela Universidade de Casa Lamm na Cidade do México, além de ter sido curadora-chefe do Museu de Arte Moderna da Cidade do México entre 2003 e 2006.

“Elas foram suas amigas, que frequentaram sua casa, que trocavam cartas, ajudavam-se. Encontrei grandes surpresas como, por exemplo, o quão importante foi para Frida o fato de André Breton tê-la apoiado em sua mostra em Nova York e também em Paris”, completa Teresa.

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Leonora Carrigton: Three Women with Crows (1951, óleo sobre tela, coleção particular, © Carrigton, Leonora – AUTVIS, Brasil, 2015 / Foto: Divulgação)

São esses pequenos-grandes detalhes da vida e da história de vida que ajudam o público a entender melhor a trajetória, o imaginário e a história das mulheres que construíram uma rede de colaboração e amizade. Além da sensação de encantamento que se deparar com obras como O Abraço de amor do Universo, a Terra (México), eu, Diego e Senhor Xolotl (de 1949), em que Frida sintetiza elementos-chave de sua vida e obra, descobrir as pinturas da espanhola Remedios Varo, Olga Costa (e seu impressionante Corazón Egoista, de 1951), entre outras, é uma experiência única.

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Remedios Varo: Roulotte (1955, óleo sobre masonita, Collection of The Museum of Modern Art of México © Varo, Remédios – AUTVIS, Brasil, 2015 / Foto: Divulgação)

“São mulheres que se unem para criar. Por isso, justamente, há um espaço para as patronas da arte. Elas mesmas criaram espaços para ajudarem umas às outras. Mas Frida, por exemplo, ajudou também várias delas a partirem para o México. Descobrimos uma carta muito carinhosa que Remedios escreveu a Frida, em que revela que ela imaginava como era linda a Casa Azul e pede ajuda à pintora mexicana para sair da Europa, que já estava em uma situação muito ruim, de vida ou morte. Graças à ajuda da amiga, ela consegue ir ao México”, revela a curadora.

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Frida Kahlo:  El abrazo de amor del Universo, la Tierra, México, Diego, yo y el señor Xólotl (1949, Óleo sobre masonite, 2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust / Foto: Divulgação)

Ainda que haja conexões de Frida com as mexicanas, europeias, americanas, de amizade, de ajuda, a influência estética e suas conexões com o surrealismo são fortes. Isso se nota nos temas e nas formas de cada artista tratar temas como a natureza, o corpo, o erotismo, o feminino, o inconsciente. Muito por isso, a mostra é um passeio pelo imaginário feminino e artístico de grandes mulheres. “Exatamente por isso que o fio condutor da mostra é justamente o vínculo com Frida e o vínculo com o surrealismo. Mesmo que Frida dissesse que não era surrealista, ainda que quando lhe convinha ela o admitisse. O que não podemos esquecer é que ela tem obras surrealistas muito importantes. Mas a presença do surrealismo e, sobretudo de André Breton (o pai do surrealismo) foi fundamental para sua carreira internacional”, comenta Teresa.

De fato, a pintora nunca tinha tido uma exposição no México antes de ir a Nova York ou em Paris. Sua primeira mostra em seu próprio país foi somente em 1951, quando já tinha ganhado reconhecimento internacional. “Foi muito importante o movimento, e a exposição internacional do surrealismo, que ocorreu no México – e para a qual ela pinta As Duas Fridas (uma de suas mais importantes obras) –, teve uma influência muito grande em outras artistas. E é por isso que a exposição constrói um diálogo museográfico, com documentos que evidenciam todos os laços que haviam entre elas.”

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Frida Kahlo: autorretrato con vestido rojo y dorado (1941, óleo sobre tela, cortesia the Gelman Collection / ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust / Foto: Divulgação)

São essas conexões que o público pode fazer ao percorrer os caminhos das mulheres surrealistas, em um diálogo temático e visual. Para a curadora, a grande importância de Frida é o fato de que ela foi a primeira artista que rompeu com muitos conceitos, criando uma obra que também é uma narrativa autobiográfica. Frida rompeu os limites entre o público e o privado na arte. Sua obra é ao mesmo tempo muito íntima e pessoal e universal. “Qualquer pessoa pode se identificar com o que ela pinta. É parte da condição humana e não está sujeita a um momento histórico preciso.”

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Nikolas Muray: Frida Kahlo en vestido azul (1939, Carbro print, cortesia the Gelman Collection / © Nickolas Muray Photo Archives / Foto: Divulgação)

De fato, dos desenhos em que a pintora trata de suas tantas dores físicas quanto emocionais, passando pelo orgulho com que pintava (e se vestia) as cores e símbolos da cultura mexicana, conhecer melhor a obra e o imaginário de Frida e dessas mulheres é se aproximar do profundo universo da arte surrealista. “Seu rosto é ao mesmo tempo intrigante. Seus quadros revelam não só a parte dramática de sua vida, mas também o amor pela vida”, filosofa Teresa.

Traje composto de Tehuana (Tehuana Attire, Collection of Comisión Nacional para el Desarrollo de los Pueblos Indígenas (CDI) / Foto: Francisco Kochen / Divulgação)

Traje composto de Tehuana (Tehuana Attire, Collection of Comisión Nacional para el Desarrollo de los Pueblos Indígenas (CDI) / Foto: Francisco Kochen / Divulgação)

Justamente por isso o quadro que abre a exposição (Autorretrato com Macacos, de 1943) tem a ver com isso. É uma Frida feliz, em meio à natureza, cheia de vida, com seus macacos. “Tem a ver com o prazer da vida, que também tem que ser destacado na obra dela. O que esta mostra busca equilibrar é que essa ideia tão explorada do sofrimento de Frida não foi só o que predominou em sua obra”, conclui a curadora.

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Frida Kahlo: autorretrato con monos (1943, óleo sobre tela, cortesia the Guelman Collection / ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust / Foto: Divulgação)

Serviço:

Frida Kahlo – conexões entre mulheres surrealistas no México

Inauguração: 26 de setembro, das 11h às 18h para convidados

Visitação de 27 de setembro de 2015 a 10 de janeiro de 2016

De terça a domingo, das 11h às 20h

R$10,00 e R$5,00 (até 10 anos grátis); às terças grátis; compra de ingressos: ingresse.com, aplicativo do Instituto Tomie Ohtake, ou na bilheteria do Instituto de terça a domingo, das 10h às 19h. Vendas a partir do dia 01 de setembro de 2015.

Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima 201 (Entrada pela Rua Coropés 88) – Pinheiros SP

Metrô mais próximo – Estação Faria Lima/Linha 4 – amarela

Fone: 11 2245 1900

De terça a domingo, das 11h às 20h

* 15 anos como repórter de cultura no Estadão lhe conferiram percurso: é editora do TelaTela e colunista de cinema do canal Arte 1. Já roteirizou, narrou, produziu e dirigiu diversos projetos de filmes e docs, foi coprodutora e assistente de direção de curtas como “O Caminhão do Meu Pai” (pré-finalista ao Oscar 2015) e atualmente participa da série “Brasil Visto do Céu”. Entre o cinema e a moda, tem matérias publicadas nas principais revistas do país e já cobriu eventos da Sétima Arte como Cannes, Berlim e Veneza, entrevistando personalidades como Al Pacino, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brad Pitt e Fernando Meirelles

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