Por essa, nem a zebra de “Madagascar” esperava. Numa premiação morna, com vencedores quase todos pinçados daquilo que se acreditava ser barbada, a única surpresa (ou susto!) foi de quem imaginava que, na  91ª edição do Oscar nesta noite de domingo (24/2), finalmente Glenn Close levaria a melhor. Ou que Lady Gaga seria eleita ‘Melhor Atriz’, num casamento de comunhão de bens entre Hollywood e as demandas dos millennials nas mídias sociais (leia mais aqui). Nada disso. Numa celebração tomada por obviedades ululantes – nas escolhas, nos ganhadores, nos discursos e nos storytellings –, dispostas possivelmente num sistema velado de cotas que distribuiu as categorias pelos concorrentes mais fortes do ponto de vista midiático, a rainha Anne interpretada por Olivia Colman no costume picture da estação “A favorita” deu uma pernada nas louras, saindo agraciada como ‘Melhor Atriz”.

Duelo de rainhas da moda no Oscar:  Glenn Close dourou de Carolina Herera, Olivia Colman esverdeou num Prada tão pouco basicão quanto uma temporada de sky no Polo Norte  e Lady Gaga incorporou Audrey by Alexander McQueen (Foto: Reprodução)

Não adiantou a chuva de estatuetas que a eterna Marquesa de Merteuil de “Ligações Perigosas” (Dangerous Liaisons, 1989) anda recebendo na cabeça durante a temporada de premiações por sua estupenda, sutil e inspirada atuação como a protagonista da pequena obra-prima “A esposa” (The Wife, 2018, leia mais aqui)  ou da fezinha básica dos little monsters na pop star pelo papel que um dia já foi de Janet Gaynor (1937), Judy Garland (1954) e Barbra Streisand (1976) no novo remake de “Nasce uma estrela” (A Star is Born, 2018, leia mais aqui).

Cara lavada: longe dos tipos cheios de figurinos exóticos e make-up idem que costumam ser-lhe concedidos nas telas, Lady Gaga foi aposta dos produtores do Oscar para rejuvenescer a cerimônia com quase 100 anos de estrada (Foto: Divulgação)

Conforme ÁS já suspeitava (leia mais aqui), com uma interpretação intensa, mas caricatural, Olivia Colman podia ser a escolhida para ser a representante de “A favorita” no pódio dos vencedores, apesar de o longa ter outras nove indicações ao Oscar. Foi o que aconteceu. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood adora relatos que narram o esforço de astros e estrelas de se despir de seus próprios egos para dar a luz a personagens. Pouco importa se esses acabam sendo tão fakes quanto uma cubana loura de farmácia. Olivia faz o diabo durante os 1h 59 m de projeção: se joga no chão, rodopia, se rasteja, cospe, baba com comida no canto da boca, senta no chão para brincar com pets mais irritantes que a Peppa Pig, vocifera, esbraveja, balbucia, chora feito um porco prestes a ir ao abate. Sua rainha Anne não é a monarca da Inglaterra, mas uma espécie de soberana do burlesco nessa farsa que beira o tosco imaginada sobre como teria sido a convivência dessa personagem histórica real com as duas damas de companhia igualmente reais que lhe disputavam a atenção.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Reprodução)

A atriz,que ganhou certo destaque a partir da nova versão de “Assassinato no Expresso do Oriente” (2017, leia mais aqui) e da participação bem mais contida como a Rainha Elizabeth II na série “The Crown“, funciona no tom quase farsesco, afetadíssimo, do longa metido a moderninho de Yorgos Lanthimos, o qual ela leva nas costas. Facílimo de impressionar  público e votantes da Academia, mas tão bizarro quanto esta conceder-lhe o Oscar de ‘Melhor Atriz’ ao invés de agraciar uma interpretação madura, classuda e plena como a de Glenn Close, capaz de imprimir seriedade numa Hollywood infantilizada por uma torrente de filmes de super-heroi, comédias rasas e contos de fada live action.

(Foto: Divulgação)

Aos 71 anos, a veterana é digna da áurea das melhores estrelas surgidas nos wartimes, quando veículos criados para exprimir o talento de deusas tão magnéticas quanto atrizes de verdade se multiplicaram no écran. É a sétima vez que Glenn Close é rechaçada pelos seus pares no Oscar, apesar de todos os prognósticos mostrarem o contrário. Alguém na Academia deve odiá-la.

Não adiantou nada o duelo entre a elegância clássica de Glenn Close e o exotismo de Lady Gaga. Na reta final do Oscar, as duas saíram sem o Oscar, mas não perderam a pose. Confira abaixo!  

O negro e o lavanda: no Globo de Ouro,Glenn Close apareceu Armani Privé enquanto Lady Gaga emulou Judy Garland de Valentino (Fotos: Reprodução)

Dose dupla: nos Screen Guild Awards, Gleen e Gaga embarcaram na vibe do branquinho, a primeira de Ralph Lauren e a diva pop de Dior (Fotos: Reprodução)

No Critics Choice Award, Gleen Close permaneceu no neutro, num Gabriela Hearst, e Lady Gaga manteve a beca no pastel, embalada por Calvin Klein by Appointment. Até o Oscar, foi a única premiação na qual empataram  (Fotos: Reprodução)

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