Logo de cara, o público acostumado com a apoteose visual dos filmes em 3D vai estranhar. Sétima versão conhecida da obra de William Shakespeare a chegar à telona, Macbeth: ambição e traição” (Macbeth, de Justin Kurzel, See-Saw Films e DCM Film, 2015) tem fotografia escura e fria, como se as imagens reproduzissem as negras entranhas d’alma do casal de protagonistas – o nobre Macbeth (Michael Fassbender) e sua esposa Lady Macbeth (Marion Cotillard), capazes de fazer qualquer coisa, inclusive matar em série, a fim de dar cabo de um projeto para alcançar o poder. Não é nada fácil filmar essa sombria obra do bardo inglês. Afinal, não se trata de um casal de pombinhos apaixonados que dão o azar de pertencerem a famílias arquiinimigas na Verona renascentista. Ou um príncipe dinamarquês em dúvida quanto ao suposto assassinato do seu pai por sua própria mãe e o padrasto. Ou ainda as fadas e elfos que deliciosamente se digladiam em artimanhas amorosas entre os arbustos, só para citar Romeu & Julieta“, Hamlet e Sonhos de uma Noite de Verão“, três das mais badaladas peças de Shakespeare constantemente levadas ao cinema. Tão conhecido quanto esses outros trabalhos, “Macbeth” tem o azar contar com dois mocinhos tão odiáveis quanto o pior dos vilões, o que torna a trama bastante indigesta.

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Michael Fassbender e Marion Cotillard em “Macbeth: ambição e traição”: longa de Justin Kurzel aposta na frieza do casal protagonista e metaforiza seu comportamento sombrio na fotografia enevoada (Foto: Divulgação)

Por lidar com a questão visceral do poder – e da falta de limite quando a ambição ofusca –, a narrativa de “Macbeth: ambição e poder”, apesar de simples se comparada com a dramaturgia do autor em geral, é inquietante. Toda vez que Shakespeare lida com esse tema, o resultado é perturbador. Basta ler (ou assistir a versões filmadas) de Tito Andrônico ou Ricardo III, que também podem embrulhar estômagos mais afeitos a musicais da MGM. Por isso mesmo, baluartes da Sétima Arte como Orson Welles (“Macbeth”, idem, 1948), Akira Kurosawa (“Trono Manchado de Sangue”, Kumonosu-jô, 1957) e Roman Polanski (“Macbeth”, The Tragedy of Macbeth, 1971) já se esmeraram em verter a história para película.

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Com o diretor Orson Welles à frente do elenco, “Macbeth” (1948) é clássico de Hollywood que ajudou a consolidar na Sétima Arte a imagem de que esta obra de William Shakespeare carrega um viés maldito, apesar da direção e arte um tanto romantizada para o que seria a Escócia medieval românica (Foto: Reprodução)

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Em 1957, Akira Kurosawa transpôs o frenesi de mortes de “Macbeth” para o universo do Japão feudal com “Trono Manchado de Sangue”, que concorreu à ‘Melhor Filme’ no Festival de Veneza daquele ano (Foto: Reprodução),

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A bela inglesa Francesca Annis contracena com Jon Finch como o casal protagonista de “A Tragédia de Macbeth” (1971), longa-metragem de Roman Polanski que traz o mesmo clima assustador de outras obras do diretor (Foto: Reprodução)

Com apenas dois longas no seu currículo de cineasta, Justin Kurzel tinha nas mãos uma inglória missão. Se escorregasse no quiabo, seria comparado com esses grandes mestres que lhe antecederam e sua produção naufragaria nas salas de exibição, mesmo não sendo cinema para as massas. Por isso, é louvável ver o rapaz se saindo bem nessa realização, a ponto de ela concorrer à Palma de Ouro no último Festival de Cannes, ainda que o filme tenha sido escolhido para fechar o evento, talvez pelo seu peso.

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Do set soturno à solaridade da Riviera Francesa: da esquerda para direita, o diretor Justin Kurzel, Marion Cotillard e Michael Fassbender cruzam a Croisette no Festival de Cannes 2015 para a sessão de gala de “Macbeth: ambição e traição”, gala que encerrou a programação do evento em maio (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer (Divulgação):

Nas tomadas, o diretor privilegia o cenário inóspito das highlands escocesas e economiza na luminosidade, aludindo à frieza interna do nobre e sua esposa que tramam a morte do primo rei para tomar-lhe o reino, a partir das profecias de três bruxas. As imagens são difíceis de se ver no escurinho do cinema e várias vezes é preciso franzir a testa e forçar a visão, assim como na vida é necessário se esforçar para que a percepção não turve a realidade e vá além da neblina que oculta a verdadeira compreensão dos fatos. Nesse ponto, a fotografia de Adam Arkapaw contribui para o objetivo de Kurzel e é lúgubre, margeando os filmes de terror psicológico e amplificada pela boa direção de arte de Lauren Briggs-Miller.

Equipe no set de "Macbeth: ambição e traição": diretor Kurzel não economizou no gelo seco para criar a atmosfera enevoada do longa (Foto: Divulgação)

Equipe no set de “Macbeth: ambição e traição”: diretor Kurzel não economizou no gelo seco para criar a atmosfera enevoada do longa (Foto: Divulgação)

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Michael Fassbender à frente do elenco em cena de guerra de “Macbeth: ambição e traição”: opção pela fumaça – em detrimento do festival de esguichos de sangue nas tomadas de luta – exemplifica a intenção do diretor de revelar o quanto os desejos podem ser névoa que encobre tanto vazios existenciais quanto interesses escusos (Foto: Divulgação)

Cortando como vento gelado, a assustadora trilha sonora é outro ponto forte, com o score de Jed Kurzel expressando tanto a solidão quanto a brutalidade seca de uma região e época nas quais, para se manter vivo, é preciso abdicar de qualquer doçura. E a precariedade dos figurinos a cargo Jaqueline Durran e da maquiagem assinada Hannah Edwards é outro aspecto positivo. No longa, nunca as terras altas da Grã-Bretanha pareceram tão selvagens…

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Economia: assim como os atores se mostram contidos em suas interpretações, a direção de arte de “Macbeth: ambição e traição” aposta na precariedade de recursos como forma de enfatizar uma Escócia medieval ainda sem grandes riquezas (Foto: Divulgação)

Atualmente, é moda no cinema explorar a visão execrável natureza humana através da aridez do meio-ambiente que cerca os personagens, vide Noé” (Noah, de Darren Aronosfsky, 2014), Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, de George Miller, 2015) ou mesmo À Beira-mar” (By the Sea, de Angelina Jolie, 2015). O diretor usa esse artífício e intensifica essa percepção quando reproduz a Escócia medieval sem um pingo de glam, revelando a esterilidade de recursos materiais e subjetivando que nenhuma traição costuma valer tanta tramoia. Pelas imagens, fica claro desde o início que, cegada pelo desejo, a dupla Macbeth vai perder a paz interior por quase nada, ainda que demore a perceber isso.

Confira abaixo produções que andam explorando a precariedade cenográfica como representação do vazio interior dos protagonistas:  

Emblema maior desse significado, a ambiciosa Lady Macbeth representa aqueles que, em meio à perseguição desses objetivos vis, se perdem no caminho e não seguram a onda. Marion Cotillard tem à frente os desempenhos sublimes de Jeanette Nolan e Francesca Annis respectivamente nas versões de Welles e Polanski. Mas, tira proveito de biotipo aparentemente frágil como recurso para revelar essa obstinação interior que depois cai por terra . Afinal, não diz o velho ditado que se deve temer os fracos, pois eles são capazes de tirar verdadeira força de sua própria fraqueza, doa a quem doer? A atriz leva essa premissa ao pé da letra, revelando pouco a pouco o processo pelo qual Lady Macbeth vai se transformando de amargo fel em pesaroso mel.

Cotillard e Fasbender como Lady e Lord Macbeth: protagonistas expressam aridez que denota o frio interior do casal protagonista em seu périplo pelo poder (Foto: Divulgação)

Cotillard e Fasbender como Lady e Lord Macbeth: atores de “Macbeth: ambição e traição” expressam aridez que denota o frio interior de marido e mulher em périplo pelo poder (Foto: Divulgação)

Em seu percurso de loucura e tirania, Michael Fassbender prova o porquê de tanto burburinho à sua volta ultimamente em Hollywood. Mesmo contido e sem um pingo de maneirismo, seu desempenho é avassalador e ele sabe dar conta do recado economizando nas expressões. Completam a linha de frente do elenco David Thewlis (Duncan), cada vez mais marcado como um coadjuvante de luxo no cinema, e o sempre bom Sean Harris (McDuff).

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David Thewlis ao centro em cena de “Macbeth: ambição e traição”: ator britânico cada vez mais consolida a função de amuleto sofisticado em produções tanto do cinema inglês quanto do estadounidense (Foto: Divulgação)

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